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“A escola é a base da civilização: as práticas e os valores que recebemos da escola são repetidos e disseminados em toda a nossa sociedade. Em outras palavras: as práticas escolares desastrosas trazem sérias consequências para a nossa vida política e cultural”.
“A escola é a base da civilização: as práticas e os valores que recebemos da escola são repetidos e disseminados em toda a nossa sociedade. Em outras palavras: as práticas escolares desastrosas trazem sérias consequências para a nossa vida política e cultural”.| Foto: Jonathan Campos/Gazeta do Povo

A porcentagem é apresentada aos alunos brasileiros no 5.º ou no 6.º ano do ensino fundamental. Todavia, a maioria dos brasileiros – inclusive com nível superior! – não sabe calcular um desconto de 15%.

É um absurdo, é um crime, que tantos de nós tenhamos dificuldade com algo tão básico. É um crime não nosso, mas da nossa escolarização. De fato, a dificuldade do brasileiro com a matemática básica não é um fenômeno pontual. O brasileiro não sabe fazer contas, nem escrever corretamente, nem explicar o que aprendeu durante todo o percurso escolar.

Na escola brasileira existe, e sempre existiu, o fetichismo do livro didático: é preciso correr com as lições – isto é, com os capítulos – porque “o livro precisa ser todo dado”; caso contrário, a coordenação pedagógica reclama, os professores das séries posteriores reclamam, os pais reclamam. Isso é assim em todas as disciplinas: após o conteúdo ser ministrado e aferido por meio de uma prova, não há mais razão para revê-lo. Seguimos adiante, numa sucessão alucinada de novos conhecimentos. Em outras palavras: o que importa, na escola, não é o processo de aprendizado; o que importa é a aparência de que se aprende.

E depois, ficamos surpresos quando não recordamos quase nada do que vimos no colegial ou no ensino médio. Isso é natural: no Brasil, o processo escolar não é voltado para o aprendizado, mas para a memorização de curto prazo. Estudamos “para a prova” e depois esquecemos o que estudamos. Afinal, a quantidade de conteúdo despejado aos alunos, desde muito cedo, é tamanha que se torna inevitável a interiorização de estratégias para que se escape da reprovação. Para sobrevivermos à escola, descobrimos que é mais eficiente nada aprender, ao mesmo tempo em que simulamos haver aprendido. Todos conhecem a expressão: “o professor finge que ensina, o aluno finge que aprende”. Ela revela, sob o seu cinismo, um fato essencial da nossa instituição escolar: que o nosso verdadeiro currículo, o nosso currículo oculto, consiste em lições de como enganar e ser enganado.

A escola é a base da civilização: as práticas e os valores que recebemos da escola são repetidos e disseminados em toda a nossa sociedade. Em outras palavras: as práticas escolares desastrosas trazem sérias consequências para a nossa vida política e cultural.

E nos surpreendemos também porque não conseguimos ordenar e hierarquizar prioridades. Na escola, o domínio das porcentagens e dos juros tem, absurdamente, a mesma importância que a memorização do ciclo de Krebs ou das características das pteridófitas. O conhecimento de almanaque, relativamente inútil, recebe, na escola, o mesmo valor de um conhecimento essencial. Ou seja: por aprendermos que tudo tem a mesma importância, não concebemos que na vida profissional, na vida política, na vida afetiva haja gradações nos valores; o resultado é que o brasileiro se torna adulto sem a capacidade de avaliar, por si, o que é mais e o que é menos importante.

A escola é a base da civilização: as práticas e os valores que recebemos da escola são repetidos e disseminados em toda a nossa sociedade. Em outras palavras: as práticas escolares desastrosas trazem sérias consequências para a nossa vida política e cultural.

Uma escola que nos ensina a enganar, a mentir, a fingir que sabemos o que não sabemos; uma escola que nos requer a realização de provas sem nenhum sentido, sem nenhuma conexão com a vida real; uma escola que nivela o conhecimento fundamental ao conhecimento de almanaque, atribuindo-lhes o mesmo tempo e a mesma medida – essa escola, a nossa escola, destrói, na própria origem, o senso das proporções epistemológicas e axiológicas, que é o fundamento do próprio conhecimento, e nos adestra a julgar como igualmente adequadas a ação honesta e a ação corrupta.

Uma civilização se constitui não em bases econômicas ou políticas, mas em bases culturais. Civilização é cultura. O espaço privilegiado da cultura é a escola. É no sistema escolar que a civilização se constrói, se eleva, se aperfeiçoa e se aperfeiçoa. A nossa civilização cínica, superficial, cartorial e violenta, em que precisamos nos precaver de todos os modos a cada passo, é o produto inevitável do nosso sistema educacional. Afinal, aprendemos, desde que pisamos pela primeira vez na escola, a burlar, a enganar, a simular um conhecimento que não possuímos. Somos literalmente formados na escola do jeitinho. Essa é, infelizmente, a marca do povo brasileiro no mundo.

Evidentemente, queremos viver em um país mais honesto, mais seguro, mais sério, mais justo. Contudo, não é por meio de iniciativas políticas, jurídicas ou policiais que o nosso país deixará de ser o que tem sido. Políticos, juízes, policiais foram também formados na nossa escola corrupta e corruptora. Neles a escola fez florescer, como em todos nós, uma segunda natureza desonesta e embusteira que somente a muito custo dominamos.

Para que um dia vivamos no país que gostaríamos que o Brasil fosse, e que pode vir a ser, é preciso, em primeiro lugar, revolucionarmos de modo completo a fonte da civilização: a escola. É necessário enfrentarmos os interesses dos políticos, dos empresários, do corporativismo docente, para que possa surgir uma escola completamente nova, sem um currículo insano, sem as lições diárias de jeitinho – uma escola que faça, enfim, o que em nosso país jamais fez: uma escola que eduque.

Gustavo Bertoche é doutor em Filosofia.

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