Publicidade
Artigo

Não adianta falar em soberania e fechar os olhos para os problemas do país

Lula fala em soberania e “guerra da verdade”, mas o Brasil segue perdendo talentos, competitividade e espaço no mundo. (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

Ouça este conteúdo

Em época de eleição, o roteiro se repete em qualquer esquina de bairro brasileiro. Chega o candidato, chega o abraço apertado, chega o sorriso já gasto de tanto uso. Numa mesa de plástico, sem constrangimento de nenhuma das partes, negocia-se um milheiro de tijolos, uma vaga em órgão público, um favor de qualquer ordem. Ninguém ali finge não saber o que está fazendo. É troca consciente, quase contratual: toma o seu, dá-me o meu.

É dessa cena miúda, repetida há décadas, que nasce a pergunta que interessa agora que a palavra soberania voltou a dominar o noticiário por causa do impasse comercial entre Brasil e Estados Unidos: perdemos a soberania de pensar muito antes de alguém ameaçar a soberania do país.

Soberania, em sentido estrito, é o poder supremo e independente de um Estado, que não reconhece autoridade acima de si. É definição sólida, quase geométrica. Mas a palavra também se esgueira como cobra: muda de forma conforme a mão que a maneja, vira veneno ou vira água, dependendo de quem fala. E o uso mais comum que ela recebe hoje, em discursos de toda origem ideológica, não é o do dicionário. Aponta-se para o de fora, para o suposto opressor, para a ameaça estrangeira, enquanto o que realmente muda de mãos acontece por dentro.

O mecanismo é conhecido de quem observa comportamento coletivo. Uma comunidade – familiar, religiosa, política, não importa o rótulo – funciona como alcateia: quando um integrante é atacado, os demais retaliam por instinto, independentemente de haver razão. Dentro dessa alcateia, quase sempre existe alguém mais esclarecido do que os outros e que usa esse instinto tribal como massa de manobra para se manter à frente. O restante do grupo, no calor da retaliação, acredita estar exercendo independência. Está, na verdade, sendo usado como marionete.

Cidadão soberano é, antes de qualquer bandeira nacional, cidadão de fato. E cidadania de fato começa exatamente onde a maioria prefere não olhar: para dentro. Resta perguntar, então, sem pressa de resposta pronta: quem é soberano no Brasil?

O jogo funciona porque é armado para nunca perder. Se a ameaça externa não se concretiza, quem manipulou "protegeu" o grupo. Se algo dá errado mesmo assim, ele "avisou, mas não teve apoio suficiente". Ganha de um jeito ou de outro. E raramente é cobrado a mostrar prova concreta da tal ameaça – pede-se fé, não evidência. Nenhum pensamento deveria ser unânime, mas a lógica da soberania inflada exige exatamente isso: unanimidade em torno de quem fala mais alto.

O que sustenta esse teatro não é apenas ingenuidade da plateia. Há também um contrato normalizado. A cena do milheiro de tijolos prova isso: boa parte de quem negocia sabe muito bem o que está fazendo e o que vai receber em troca. Uma pesquisa do Ipsos-Ipec, em parceria com o Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral, revelou que 22% dos brasileiros afirmam já ter recebido proposta de compra de voto, índice que sobe para 32% no Nordeste. O levantamento também mostrou que muitas formas de troca de favores ainda não são percebidas como compra de votos, mas tratadas como simples "favorzinho".

É preciso, no entanto, evitar a generalização fácil. Nem todo eleitor pensa assim. Há, com certeza, pessoas sérias, corretas e honestas em toda parte, resistentes a esse tipo de barganha.

Mas a parcela que negocia conscientemente já abriu mão da própria soberania de pensar há tempos – e, por extensão, ajudou a esvaziar a soberania do país inteiro, sem perceber a ligação entre as duas coisas. É curioso que o mesmo cidadão que desconfia do estranho que pode levar seu celular em um assalto de rua entregue, sem o menor alarme, algo bem maior. E entregue a outro tipo de tomador – um que não é dele.

A escala nacional confirma o padrão de esquina. Pesquisa eleitoral após pesquisa eleitoral, os mesmos nomes se mantêm nos mesmos cargos, ano após ano, ciclo após ciclo. O eleitor enxerga o parlamentar como dono do poder e se resigna à ideia de que nada muda, ao mesmo tempo em que segue negociando favor por voto sempre que a oportunidade aparece.

As duas posturas convivem sem conflito aparente, do mesmo jeito que convivem, em qualquer sala de aula do país, o professor que finge que ensina e o aluno que finge que aprende. É clichê, mas um clichê que se repete por funcionar: enquanto a educação de verdade não vira hábito, pão e circo seguem sendo receita eficiente.

Falta, nesse cenário, uma pergunta simples que ninguém costuma fazer em voz alta: se soberania é não reconhecer autoridade acima de si, onde está a soberania de quem terceiriza o próprio senso crítico para quem fala mais bonito? Onde está a soberania de quem grita contra a interferência estrangeira, mas nunca exige explicação de quem manda dentro de casa?

Soberania não deveria ser tema de redação de vestibular, repetido uma vez por ano quando o assunto pega fogo no noticiário. Deveria ser prática de todo dia – na forma como cada um convive, escolhe, questiona e vota. Cidadão soberano é, antes de qualquer bandeira nacional, cidadão de fato. E cidadania de fato começa exatamente onde a maioria prefere não olhar: para dentro. Resta perguntar, então, sem pressa de resposta pronta: quem é soberano no Brasil?

Iares Ibero Sombra, mestre em Educação, é jornalista, escritor e palestrante.

Use este espaço apenas para a comunicação de erros

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.