
Ouça este conteúdo
Durante muito tempo, a Organização das Nações Unidas construiu sua legitimidade sobre a ideia de imparcialidade. Quando um relatório da ONU é divulgado, espera-se uma análise técnica, baseada em evidências verificáveis e distante de interesses políticos. Essa credibilidade é um dos maiores patrimônios da organização e, justamente por isso, precisa ser preservada com coerência.
Nos últimos anos, vimos inúmeras acusações contra Israel baseadas em relatórios ou declarações de representantes da ONU. Em poucas horas, essas denúncias costumam ocupar manchetes em jornais do mundo inteiro e alimentar debates nas redes sociais. Poucos questionam a consistência das evidências ou se existem outras versões dos fatos. O selo "ONU" muitas vezes basta para transformar uma acusação em verdade incontestável.
Mas nesta semana aconteceu algo diferente. Um funcionário da própria ONU afirmou que o Hamas vem dificultando a distribuição de ajuda humanitária na Faixa de Gaza, intimidando trabalhadores humanitários e tornando cada vez mais perigosas as operações de assistência à população civil. É uma constatação feita pela própria organização.
A ONU não é uma entidade abstrata. Seus relatórios são escritos por especialistas, diplomatas, investigadores e relatores, cada um com suas interpretações, metodologias e, naturalmente, suas convicções. Isso não desqualifica automaticamente seu trabalho, mas significa que nenhum documento deveria ser tratado como verdade absoluta
E a pergunta surge naturalmente: onde estão as manchetes? Essa diferença de tratamento merece uma reflexão. Se os relatórios da ONU são considerados confiáveis quando criticam Israel, eles também deveriam receber exatamente a mesma credibilidade quando responsabilizam o Hamas. A autoridade não pode variar conforme o destinatário da crítica.
Isso reforça algo que Israel afirma há muitos meses. O Hamas também mantém controle sobre parte significativa da Faixa de Gaza e interfere diretamente na chegada e na distribuição de alimentos e outros insumos. Ao dificultar a ajuda humanitária, o grupo amplia o sofrimento da própria população palestina e transforma a crise humanitária em instrumento político e econômico.
Esse comportamento não acontece por acaso. Paralelamente às recentes declarações de que estaria disposto a deixar o governo de Gaza, o Hamas evita assumir qualquer compromisso com seu desarmamento. A estratégia parece clara: abrir mão da administração formal do território, enquanto preserva o controle militar. Em outras palavras, deixar que outros assumam a reconstrução, a gestão dos hospitais, das escolas e da infraestrutura, enquanto continua exercendo poder por meio das armas. É exatamente o modelo que o Hezbollah consolidou no Líbano.
A ONU não é uma entidade abstrata. Seus relatórios são escritos por especialistas, diplomatas, investigadores e relatores, cada um com suas interpretações, metodologias e, naturalmente, suas convicções. Isso não desqualifica automaticamente seu trabalho, mas significa que nenhum documento deveria ser tratado como verdade absoluta apenas por ser das Nações Unidas. O que deve conferir autoridade a um relatório são as evidências que o sustentam – e não apenas a instituição que o publica.
Essa discussão ficou evidente recentemente em outro episódio. Após investigação, uma comissão independente reuniu centenas de entrevistas, provas periciais, registros médicos e milhares de imagens para documentar os crimes de violência sexual cometidos pelo Hamas em 7 de outubro e durante o cativeiro dos reféns israelenses. Apesar da robustez da investigação, o relatório recebeu repercussão muito inferior à de acusações posteriores dirigidas contra Israel.
Esse fenômeno revela um problema maior. Vivemos uma época em que as acusações circulam pelo mundo em poucos minutos, enquanto investigações técnicas levam meses ou anos para serem concluídas. A manchete se espalha rapidamente; a correção, quando existe, quase nunca alcança o mesmo público.
É exatamente por isso que a credibilidade de organismos internacionais precisa ser preservada com extremo rigor. Quando a ONU acusa Israel, grande parte do mundo considera suas conclusões incontestáveis. Quando a própria ONU aponta responsabilidades do Hamas pela crise humanitária, instala-se um silêncio desconfortável.
Rafael Rozenszajn é major da reserva e o primeiro porta-voz oficial das Forças de Defesa de Israel (IDF) para os países de língua portuguesa. Nascido no Rio de Janeiro, imigrou para Israel há mais de vinte anos. Mestre pela Northwestern University e especialista em direito internacional, é autor do livro “A Guerra de Narrativas” (Editora Citadel).
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos



