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Nos passos da FEB: do embarque no Rio ao batismo de fogo na Itália

Soldados da Força Expedicionária Brasileira na Itália durante a II Guerra Mundial. (Foto: Imagem criada utilizando Open AI e foto do Arquivo Nacional/Gazeta do Povo)

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Hoje estamos em Pisa, na Itália. Somos uma comitiva de nove familiares refazendo o percurso de nossos pracinhas na Segunda Guerra Mundial. Meu pai era um deles. Atravessou o Atlântico com outros 25.334 compatriotas, integrando a Força Expedicionária Brasileira (FEB), que lutou não apenas pelo Brasil, mas pela humanidade: uma saga em território italiano escrita com suor, sangue e coragem.

Em 16 de julho de 1944, após 14 dias de travessia, o navio que transportava o 1º escalão da FEB adentrou a baía de Nápoles. O impacto visual era devastador: casas e prédios reduzidos a escombros, uma população faminta e ferida e o cenário típico de uma praça de guerra – soldados circulando entre tanques, aviões, balões de observação e navios, alguns operantes, outros em ruínas. Foi nesse ambiente que desembarcaram os 5.075 homens do primeiro contingente brasileiro, em sua maioria jovens soldados.

Nápoles já se encontrava sob controle dos Aliados, mas permanecia semidestruída pelos intensos bombardeios dirigidos às forças alemãs e aos remanescentes do regime de Mussolini, em retirada desde a perda da Sicília. A cidade simbolizava o destino cruel que se abatia sobre tantas localidades italianas naquele momento em que a superioridade militar dos Aliados começava a se consolidar.

Um ano antes, em julho de 1943, Benito Mussolini havia sido deposto e preso, encerrando mais de duas décadas de governo fascista. Formou-se então um novo gabinete, chefiado pelo marechal Pietro Badoglio, que estrategicamente buscou preservar uma aparência de continuidade. Ainda assim, a Itália encontrava-se exausta e fragilizada pelos reveses de uma guerra para a qual entrara antes de estar devidamente preparada, como advertiram, sem sucesso, muitos generais italianos.

Sob rigoroso sigilo quanto ao destino e aos detalhes da partida, o 1º escalão da FEB embarcou em 2 de julho de 1944, no porto do Rio de Janeiro, em cerimônia que contou com a presença do presidente Getúlio Vargas e do ministro da Guerra, general Dutra

Pouco depois, em setembro de 1943, Badoglio anunciou medidas decisivas: o armistício com os Aliados e a ordem para proteger os principais ativos militares, especialmente a frota naval, para evitar que caíssem nas mãos dos alemães e dos fascistas remanescentes, que logo avançariam sobre Roma. Esse momento marcou o início da guerra civil italiana, que passaria a dividir o país entre o sul, apoiado pelos Aliados, e o norte, sob ocupação alemã.

Naquele mesmo mês, no auge da turbulência que sacudia a Segunda Guerra Mundial, Benito Mussolini foi resgatado de seu cativeiro secreto, no alto do maciço de Gran Sasso, numa operação de contornos cinematográficos. Deposto e mantido sob absoluto sigilo pelas autoridades italianas, o líder fascista foi localizado e resgatado por comandos alemães numa ação fulminante, conduzida sob a liderança do coronel Otto Skorzeny, o oficial da SS que se tornaria célebre por operações de audácia quase teatral.

Em poucos minutos, silenciosos planadores pousaram sobre o platô rochoso, e um pequeno avião aterrissou em terreno que nenhum manual recomendaria. Mussolini, atônito, foi retirado ileso para ser levado a Adolf Hitler. Ao entrar na sala onde o prisioneiro aguardava, Skorzeny teria proclamado a frase que a propaganda nazista transformaria em mito: “Duce, o Führer mandou-me buscá-lo.” A operação, celebrada à exaustão pelo regime alemão, consolidou-se como uma das mais espetaculares ações de resgate da guerra. Instalado na chamada República Social Italiana, no norte, Mussolini passou a chefiar o governo, mas com poderes reduzidos e sob estreita subordinação ao Reich.

Embora a guerra civil tenha atingido toda a Itália, após o avanço sobre Roma as tropas nazifascistas – entre as quais cerca de 125 mil homens que haviam recuado da Sicília – passariam a viver quase exclusivamente em retirada. Esse movimento intensificou dramaticamente o sofrimento no norte do país, transformado em alvo de bombardeios aliados constantes e devastadores, somados às ações alemãs que buscavam retardar o avanço inimigo.

A FEB era um verdadeiro caleidoscópio social: reunia imigrantes e filhos de imigrantes, mestiços, afrodescendentes, indígenas, trabalhadores urbanos e rurais. Diante deles, um inimigo experiente e bem equipado, além de um inverno rigoroso

Foi nesse cenário convulsionado que, meses depois, a FEB desembarcaria em Nápoles, chamada a ocupar o espaço deixado no front italiano quando, em agosto de 1944, parte das forças aliadas foi deslocada para o sul da França, na Operação Dragoon – desencadeada após o desembarque na Normandia, na Operação Overlord (Dia D, 6 de junho de 1944).

A Operação Dragoon tinha como objetivo capturar portos estratégicos no Mediterrâneo, especialmente Marselha e Toulon, ampliando a pressão sobre as forças alemãs ali posicionadas e, em seguida, unir-se às tropas da Overlord, completando o grande movimento de pinça sobre o exército alemão.

Sob rigoroso sigilo quanto ao destino e aos detalhes da partida, o 1º escalão da FEB embarcou em 2 de julho de 1944, no porto do Rio de Janeiro, em cerimônia que contou com a presença do presidente Getúlio Vargas e do ministro da Guerra, general Dutra. Pelos alto-falantes, Vargas dirigiu palavras de encorajamento aos soldados e assegurou que suas famílias não ficariam desamparadas. Concluiu com uma frase que marcaria aquele momento: “É com emoção que aqui vos deixo os meus votos de pleno êxito. Não é um adeus, mas um ‘até breve’, quando ouvireis a palavra da pátria agradecida.”

Para iludir a espionagem inimiga, o destino do escalão permaneceu oculto até o último instante, desconhecido até mesmo dos pracinhas e de parte dos oficiais brasileiros. Chegou-se a cogitar o desembarque no norte da África, onde havia melhor estrutura para treinamento. O embarque foi ensaiado repetidas vezes, numa estratégia para confundir os serviços de inteligência quanto ao horário exato da partida. Na noite do embarque efetivo, o deslocamento de trem até o cais seguiu por um trajeto inesperado, enquanto outros trens circulavam sob vigilância reforçada, porém sem tropas. Era mais uma manobra de dissimulação.

Nessa primeira ofensiva, a FEB capturou 45 soldados inimigos e sofreu 35 baixas (mortos ou incapacitados de lutar), um digno batismo de fogo à altura das circunstâncias

Há poucos dias, visitamos o bunker de Mussolini, em Roma – um labirinto subterrâneo concebido para proteger o líder fascista e sua família dos bombardeios aliados. Entre julho de 1943 e maio de 1944, a capital italiana sofreu 51 ataques aéreos. Na Villa Torlonia, residência de Mussolini desde 1929, foram construídos dois abrigos antiaéreos. O mais impressionante deles, escavado a seis metros de profundidade, era protegido por uma cobertura de cerca de quatro metros de concreto armado, portas antigás e um sistema de purificação de ar: uma verdadeira fortaleza subterrânea projetada para resistir ao colapso do mundo lá fora. Paradoxalmente, ainda estava inacabado quando Mussolini foi deposto, jamais cumprindo seu propósito.

Além do 1º escalão, outros quatro contingentes deixaram o porto do Rio de Janeiro rumo ao teatro de operações na Itália, todos em navios americanos adaptados ao transporte de tropas. Dois partiram em setembro, o quarto em novembro e o último em fevereiro de 1945, cada qual levando cerca de cinco mil expedicionários. As embarcações seguiam escoltadas por contratorpedeiros brasileiros e navios de guerra americanos e contavam, em alguns trechos, com cobertura aérea. Durante o dia, os pracinhas permaneciam no convés; à noite, recolhiam-se aos alojamentos, em beliches completamente às escuras, para que nenhuma réstia de luz denunciasse a posição do navio ao inimigo.

A FEB era um verdadeiro caleidoscópio social: reunia imigrantes e filhos de imigrantes, mestiços, afrodescendentes, indígenas, trabalhadores urbanos e rurais. Diante deles, um inimigo experiente e bem equipado, além de um inverno rigoroso, com temperaturas que frequentemente atingiam –15 °C. Quanto à preparação dos pracinhas, as palavras do general Mascarenhas de Moraes sintetizaram o desafio: “Os três primeiros escalões chegaram à Itália com treinamento incompleto e inadequado, e os dois últimos partiram do Brasil praticamente sem instrução.”

Após a chegada em Nápoles, o 1º escalão seguiu por terra até Tarquinia, onde passou por treinamentos adicionais com militares norte-americanos e recebeu instrução sobre novos armamentos. Os demais escalões percorreram caminhos distintos: parte dos soldados também seguiu por terra até a região de Pisa, enquanto outro grupo embarcou em lanchas militares americanas rumo a Livorno, de onde foi transportado por caminhões até os acantonamentos próximos.

Ao todo, o percurso histórico da FEB em solo italiano abrangeu algo entre 350 e 400 quilômetros de deslocamentos. Hoje, 81 anos depois, refizemos parte desse trajeto

O deslocamento terrestre ocorreu ao longo de duas noites, cobrindo cerca de 540 km, em comboios de viaturas sob rigoroso controle de luzes – afinal, ainda havia escaramuças isoladas pelo caminho, e não se podia dar margem ao azar. Já a navegação costeira pelo mar Tirreno, em barcaças militares, revelou-se particularmente penosa. Nosso pai relatava que, espremidos em embarcações instáveis, muitos soldados sucumbiam ao balanço das ondas e ao cheiro intenso de combustível; o estômago se rendia antes mesmo de qualquer combate, para desespero de quem estivesse ao lado. Nessas horas, o brasileiro não perdia a oportunidade de jocosamente batizar as coisas: as LCI (sigla de Landing Craft Infantry), usadas no transporte marítimo de infantaria, ganharam entre os pracinhas o apelido de “Lança Comida Interna”. San Rossore, nas cercanias de Pisa, serviu como área de acantonamento e de treinamento intensivo.

As tropas brasileiras foram passadas em revista pelo general Mark Clark, comandante do 5º Exército americano, ao qual a FEB estava subordinada, em um gesto de reconhecimento e respeito. No dia 7 de setembro de 1944, a FEB celebrou, em solo estrangeiro, o Dia da Independência do Brasil. Na ocasião, Mascarenhas de Moraes leu a Ordem do Dia, conclamando seus homens à missão de libertar o povo italiano do jugo nazifascista.

Para muitos pracinhas, aquele momento foi inesquecível. Sob o céu da Toscana, com o cheiro de pólvora ainda impregnando a paisagem e o eco distante da artilharia inimiga, ouvir o comandante falar de independência, liberdade e dever nacional reacendia algo profundo: a certeza de que, mesmo tão longe do Brasil, carregavam consigo a pátria inteira.

Àquela altura, os pracinhas estavam ansiosos para entrar em combate. Os primeiros tiros foram disparados na noite de 14 para 15 de setembro de 1944, quando começaram a substituir gradualmente unidades americanas na linha de frente. À modorra do acampamento, típica das longas fases de treinamento, seguiu-se um frenesi repentino, e um novo estado de espírito tomou conta dos combatentes.

Com a retirada de tropas veteranas da Itália, a FEB tornou-se essencial para manter a pressão sobre as forças alemãs e sustentar o avanço aliado rumo ao norte

Esse clima não passou despercebido ao general Mark Clark, que registrou: “Os brasileiros, de modo geral, estavam ansiosos por entrarem em ação. De fato, era tal a pressa deles que, provavelmente, não completaram o treinamento de que precisavam após a chegada à Itália”.

A partir de então, uma nova realidade se impunha: confrontos diretos com os temidos tedeschi (termo em italiano para alemães, aqui aplicado sobretudo a soldados bem treinados e combativos) e com tropas italianas ainda fiéis ao fascismo, em meio a terrenos lamacentos, minados e montanhosos, sob o outono chuvoso e o inverno rigoroso que se aproximava. Nessa primeira ofensiva, a FEB capturou 45 soldados inimigos e sofreu 35 baixas (mortos ou incapacitados de lutar), um digno batismo de fogo à altura das circunstâncias. Apesar da forte resistência inimiga, avançou cerca de 18 km e, em 26 de setembro, rompeu a Linha Gótica na região do Monte Prano.

Esse complexo sistema defensivo, ao longo da cadeia dos Apeninos, estendia-se do Mar Tirreno ao Adriático por cerca de 280 quilômetros. Fora erguido por decisão de Albert Kesselring, comandante em chefe das forças alemãs no teatro italiano. Gozava do prestígio de estrategista competente, embora fosse igualmente implacável: autorizou incontáveis represálias contra civis e partisans (partegiani, os integrantes da resistência armada italiana), resultando em massacres que mais tarde fundamentariam sua condenação por crimes de guerra.

Com seu intrincado conjunto de fortificações, campos minados, arame farpado, abrigos de concreto, fossos, trincheiras e posições de artilharia, a Linha Gótica configurava uma das mais complexas linhas defensivas alemãs para proteger o norte da Itália durante a Segunda Guerra Mundial. Foi construída com o trabalho forçado de cerca de 20 mil civis italianos pró-aliados, mais um traço da guerra civil que então dilacerava o país. Submetidos ao frio, à fome, a jornadas extenuantes e ao risco constante de bombardeios, esses trabalhadores ajudaram a erguer o obstáculo que os próprios Aliados teriam de transpor para avançar rumo ao norte da Itália. O rompimento dessa linha contou com a atuação decisiva da FEB.

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Ao todo, o percurso histórico da FEB em solo italiano abrangeu algo entre 350 e 400 quilômetros de deslocamentos. Hoje, 81 anos depois, refizemos parte desse trajeto sob a orientação do guia Mário Pereira. Não mais a pé, sob chuva ou neve, mas no conforto de uma van climatizada. O itinerário nos levou, nesta ordem, por Pisa, Lucca, Pistoia, Castelnuovo di Garfagnana, Porreta Terme, Monte Castello, Montese, Zocca, Collecchio e Fornovo di Taro. Ao longo desse trajeto, destacam-se três batalhas decisivas – Monte Castello, Montese e Fornovo di Taro –, que serão tema do próximo artigo.

Apesar dessa trajetória, alguns historiadores ainda atribuem ao Brasil um papel secundário na frente italiana. É verdade que o país ingressou no conflito quando a prioridade estratégica dos Aliados já se deslocava para a França. Ainda assim, com a retirada de tropas veteranas da Itália, a FEB tornou-se essencial para manter a pressão sobre as forças alemãs e sustentar o avanço aliado rumo ao norte.

Rubem Braga, correspondente brasileiro na Segunda Guerra em solo italiano – ele próprio ferido por um tiro na mão –, registrou com rara precisão a realidade enfrentada pelos pracinhas. Ele também sustentou a percepção de que chegaram à Itália com preparo insuficiente, mas que, apesar disso, adaptaram-se rapidamente ao ambiente de guerra e combateram com coragem, dureza e dignidade. Diante de tantas adversidades, aprenderam com rapidez, improvisaram quando necessário, cultivaram um forte espírito de solidariedade no front e conquistaram o respeito tanto dos Aliados quanto da população italiana.

Em relação ao nosso tronco familiar, o sobrenome Venturi figura entre os que mais contribuíram com soldados para a FEB: foram quatro pracinhas, todos primos entre si. Nosso pai serviu por quatro anos no Exército, integrou a artilharia do 11º Regimento e embarcou para a Itália em 22 de setembro de 1944. Atuou como operador de metralhadoras pesadas Browning .50, fornecidas pelo Exército norte-americano, armamento cuja operação exigia equipes de quatro a cinco homens.

Junto às tropas da FEB – uma divisão completa que reunia soldados, oficiais, médicos, engenheiros, capelães, pilotos, mecânicos, pessoal de suprimentos, transporte e comunicações – embarcaram também 67 enfermeiras brasileiras, todas voluntárias, além de outras seis que integraram a FAB, totalizando 73 profissionais – sete delas curitibanas – mobilizadas para o conflito. Foram as primeiras mulheres autorizadas a usar o uniforme oficial do Exército brasileiro. Esse gesto representou um avanço institucional decisivo: até então, nenhuma mulher havia sido formalmente incorporada às Forças Armadas com direito a uniforme, patente e soldo.

Vale registrar um desdobramento histórico dessa conquista: foi esse primeiro passo, dado em 1944, que abriu caminho para que, em março de 2026, uma mulher alcançasse, pela primeira vez, o generalato no Exército brasileiro. A pioneira é a médica pernambucana Cláudia Lima Cacho, de 57 anos, promovida ao posto de general de brigada, um marco na trajetória feminina dentro da instituição.

Jacir J. Venturi, filho do expedicionário Leopoldo Venturi. é formado em Engenharia e Matemática pela UFPR. Foi professor e diretor de escolas públicas e privadas, além de docente da UFPR, PUCPR e Universidade Positivo.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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