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O homem estava na fila do mercado quando o caixa disse o valor. Ele não gritou. Baixou o olhar, murmurou que não levaria tudo e recolocou parte das compras na prateleira mais próxima.
Vergonha primeiro. Raiva um segundo depois — daquela que sobe rápido e não sabe direito onde bater. Gente simples, do tipo que trabalha e não reclama à toa. O carrinho que já foi cheio até a borda hoje não passa da metade.
Essa cena se repete todos os dias, em qualquer canto do país, e o motivo real dela quase nunca é dito em voz alta: o preço que aperta é sintoma, não origem. Reclamar que o quintal está sujo não vai limpá-lo — e é isso que o debate público insiste em não fazer.
O hábito nacional é apontar para cima. Xinga-se o nome de quem governa até a décima geração, como se aquilo resolvesse alguma coisa. Faz bem por um instante — o mesmo alívio de gritar contra o rio poluído sem nunca perguntar de onde vem o esgoto. Enquanto a origem não é encarada, a sujeira volta, e o esforço de limpar a margem foi tempo perdido.
Mas seria ingênuo tratar isso como culpa de um só lado. O poder aprende cedo que pão e circo funcionam, e ensaia a cada ciclo uma nova coreografia da mesma dança: promete, entrega pouco, embrulha o pouco em vitória. Há quem finja limpar sem intenção nenhuma. Há quem nem finja. E há, mais perigoso ainda, quem tente de verdade, consiga algo, e seja convencido de que resolveu mais do que resolveu — capturado pela própria estrutura que deveria servir. O curral eleitoral não desapareceu; só trocou o barro por tela de celular, ganhou filtro e agora usa maquiagem cara.
Do outro lado da fila, o eleitor sustenta o que o incomoda. Não por ignorância — por medo. Quem depende de benefício teme perdê-lo e vota para mantê-lo. Quem ocupa cargo público por indicação teme o mesmo. A dependência aprendeu a se disfarçar de gratidão, e a gratidão virou fidelidade que dura mesmo quando o carrinho encolhe.
Um povo esclarecido e sem idolatria seria difícil de manejar — e por isso, a quem manda, não interessa formá-lo
O curioso é que a instrução sozinha não protege ninguém dessa armadilha. Muita gente com diploma e leitura enxerga o mecanismo com clareza perfeita e, ainda assim, segue defendendo o lado que lhe convém, como se verdade fosse questão de time. Não é por não perceber. É por ser apaixonado — idólatra do próprio ego antes de ser fiel a qualquer fato.
Aprendi cedo, com meu pai, a não confundir uma coisa com a outra, a não deturpar imagem para caber no discurso que já se decidiu defender. A lição não veio de teoria: veio de ver, de perto, reuniões que deliberavam muito e resolviam pouco — e quando alguém tentava agir de verdade, esbarrava num "não pode" que existia só para os outros. Falar e fazer raramente moram na mesma frase, e o país aprendeu a viver satisfeito com a metade que fala.
O preço dessa satisfação já aparece fora da fila do mercado. Segundo a pesquisa Focus, divulgada semanalmente pelo Banco Central e baseada em expectativas de mercado, as projeções de crescimento do país para 2026 seguem em torno de 2%. O fluxo de capital também sinaliza cautela: só nos sete primeiros pregões de agosto de 2026, investidores estrangeiros retiraram R$ 11,9 bilhões da B3, movimento que se intensificou depois de o JPMorgan rebaixar sua recomendação para as ações brasileiras de compra para neutra, citando juros elevados, inflação pressionada e o próprio calendário eleitoral entre os fatores.
O país já paga o preço de uma pergunta que ninguém respondeu. Isso devia bastar para mostrar que o ciclo não é abstrato: ele tem custo real, antes mesmo de o primeiro voto ser contado.
Sei, mais do que gostaria de admitir, que fazer minha parte de verdade — de forma consistente, sem meio-termo — esbarra num cálculo simples: uma andorinha sozinha é ineficiente, mas é funcional. É mais fácil sobreviver dentro do padrão do que arriscar sozinho contra ele. Não é orgulho dizer isso. É a confissão que a maioria de nós evita fazer.
Fica então, no lugar de qualquer conselho, uma pergunta só — sem resposta fácil e talvez sem resposta possível ainda hoje: diante do que cada um de nós escolhe, cala, aceita ou finge não ver, o que resta afinal — a culpa ou a responsabilidade?
Iares Ibero Sombra é mestre em Educação, jornalista, escritor e palestrante.



