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O presidente americano Joe Biden fala com o líder chinês Xi Jinping em encontro virtual, na Casa Branca, Washington D.C., 15 de novembro
O presidente americano Joe Biden fala com o líder chinês Xi Jinping em encontro virtual, na Casa Branca, Washington D.C., 15 de novembro| Foto: EFE/EPA/SARAH SILBIGER / POOL

O Dragão e a Águia: nova Guerra Fria?

Paulo Kramer

John Lewis Gaddis, professor de História Militar e Naval da Universidade de Yale, é o decano dos historiadores da Guerra Fria. Sua definitiva biografia do diplomata norte-americano George F. Kennan – pai da estratégia do containment (contenção) do comunismo, a qual, depois de meio século, finalmente levou a antiga União Soviética a implodir sob o peso de suas próprias contradições – é leitura obrigatória para quem deseja compreender as relações internacionais no século 20. Outra importante obra recente de Gaddis é o pequeno grande On Grand Strategy.

Hal Brands, titular da Cátedra “Henry Kissinger” da Escola de Estudos Internacionais Avançados (Sais) da Universidade Johns Hopkins, em Washington, D.C., também é colunista da agência Bloomberg e aplica sua erudição histórica à análise dos desafios militares e políticos mundiais da atualidade em livros como The Lessons of Tragedy: Statecraft and Word Order e The Twilight Struggle: What the Cold War Teaches Us about Great-Power Rivalry Today.

Juntos, eles assinam o ensaio principal do número de novembro/dezembro deste ano da revista Foreign Affairs (fundada em 1922), referência maior do establishment de política externa dos Estados Unidos. Foi naquelas páginas que o próprio Kennan – sob o pseudônimo de “X” – publicou, em julho de 1947, seu artigo sobre as fontes da conduta soviética, o qual sintetizava a filosofia do containment. Em “The New Cold War: America, China, and the Echoes of History”, a dupla pergunta se e até que ponto a história da Guerra Fria (1947-1991) fornece pistas para compreender e conduzir a crescente rivalidade econômica e geopolítica entre a China e os Estados Unidos.

Sob a liderança de Xi Jinping, secretário-geral do Partido Comunista Chinês e, por isso, presidente da República Popular da China (RPC), o país apimentou sua retórica e, ao mesmo tempo, intensificou ações hegemônicas: 1. afirmando pretensões de soberania no Mar da China Meridional, inclusive mediante a construção de “ilhas” militarizadas a fim de bancar esse pleito, para desgosto e alarme dos vizinhos na região (Brunei, Filipinas, Malásia, Vietnã); 2. projetando a influência econômica chinesa rumo ao oeste (Ásia Central, Europa e África) com a iniciativa do Cinturão & Rota, popularmente conhecida como a “Nova Rota da Seda” – obras de infraestrutura e conectividade sob a batuta financeira e tecnológica de Pequim, em megaprojetos de logística viária, portuária e de telecomunicações; 3. enfatizando a reivindicação de que a República da China (Taiwan) é parte inegociável do território da China continental, com frequentes incursões de jatos do Exército de Libertação Popular no espaço aéreo taiwanês; 4. e impondo a Hong Kong uma nova legislação de segurança destinada a silenciar a oposição e sufocar protestos em favor dos direitos humanos.

Os dois autores admitem que a nova preocupação dos policymakers e líderes de opinião nos Estados Unidos com a declarada intenção de Xi de guindar seu país ao status de primeira superpotência mundial até a metade do presente século é o único tema consensual no polarizadíssimo relacionamento entre democratas e republicanos. Já vão longe os tempos em que Washington e Pequim atuaram como aliados tácitos contra a hegemonia soviética na Guerra Fria. De fato, a nova assertividade sob Xi, que governa há mais de uma década e há quatro anos deu uma inequívoca demonstração de poder derrubando o limite de dois mandatos para seu cargo, desconcerta e angustia os governantes e scholars americanos. Durante décadas a fio, eles apostaram que as reformas pró-mercado introduzidas pelo sucessor de Mao Tsé-tung, Deng Xiaoping, reformas responsáveis pela elevação de mais de meio bilhão de chineses da miséria absoluta a uma condição de classe média, bem como a pacífica integração da China às regras do jogo liberal da economia internacional, ditadas pelos Estados Unidos desde o fim da Segunda Guerra, pouco a pouco conduziriam a uma liberalização do regime de partido único que a revolução comunista implantara em 1949.

(Note-se, parenteticamente, que, na narrativa do PCC, o fim da guerra e o advento da revolução marcam o encerramento do chamado “Século de Humilhações”, período iniciado em 1839, com a Primeira Guerra do Ópio, durante o qual a China foi submetida ao domínio imperialista das potências ocidentais e do Japão. O regime comunista quer fazer do primeiro centenário da revolução – 2049 –, quando a China já terá alcançado o maior PIB do mundo, o marco de sua definitiva supremacia global.)

Por outro lado, Gaddis e Brands assinalam que a atual rivalidade contrasta vivamente com a situação durante a Guerra Fria, quando era mínima a integração econômica entre os blocos liderados pelos Estados Unidos e a União Soviética. A prosperidade mundial depende das duas supereconomias, que estão intimamente interligadas, em que pesem as sanções comerciais impostas às exportações chinesas durante o governo Trump; os novos sinais de “desacoplamento tecnológico” em segmentos trilionários como o da telefonia 5G; e as queixas americanas de que os chineses pirateiam propriedade intelectual, além de forçar empresas dos Estados Unidos a transferir tecnologias sensíveis em troca de acesso ao mercado.

O atual pessimismo se reflete em uma leva de livros e artigos que apontam para uma probabilidade crescente de que a nova Guerra Fria entre a águia americana e o dragão chinês, em algum momento, degenere em conflito armado. O título do livro mais recente de Graham Allison, cientista político da Escola de Governo “John F. Kennedy” da Universidade de Harvard, já diz muito: O Caminho da Guerra: Estados Unidos e China Conseguirão Escapar da Armadilha de Tucídides? A massa impressionante de material histórico sistematizada por Allison tende a confirmar a conclusão do grego Tucídides, autor do clássico História da Guerra do Peloponeso (431 a 404 a.C.), longo e sangrento conflito entre as cidades-Estado de Atenas e Esparta à frente de seus respectivos aliados (a Liga de Delos e a Liga do Peloponeso, respectivamente).

Tucídides participara pessoalmente por algum tempo daqueles acontecimentos, na qualidade de estratego ateniense e, como punição por não ter conseguido impedir a tomada da cidade de Anfípolis pelos espartanos, acabou sendo destituído e condenado ao exílio. Nesse extenso afastamento forçado da vida pública, Tucídides escreveu sobre os 20 primeiros anos da guerra, mas veio a morrer antes de concluir seu relato. Ele acreditava que sua história contivesse a fórmula para a compreensão de todas as guerras futuras, decorrência fatal do choque de ambições hegemônicas de duas grandes potências, todavia frequentemente desencadeado por atritos entre membros secundários de suas respectivas alianças (a Guerra do Peloponeso começou com as pressões de Corinto para que seus patronos espartanos atacassem Atenas).

Já Gaddis e Brands acreditam que a Guerra Fria, que, contrariamente ao vaticínio tucididiano, terminou sem um único disparo, pelo puro e simples esgotamento de um dos oponentes (a URSS), pode ser uma fonte de ensinamentos para que os Estados Unidos gerenciem a competição estratégica com a China, conduzindo habilmente suas alianças de modo a minimizar os riscos para a paz mundial.

Recordar é preciso, e a dupla de autores lembra que o fator decisivo para que a Guerra Fria jamais tivesse se tornado “quente” foi o temor de destruição nuclear mútua dos Estados Unidos e da União Soviética. A rivalidade das duas superpotências se expressou militarmente sob a forma de conflitos convencionais nas periferias dos seus respectivos blocos – Coreia, Vietnã, Afeganistão, Angola etc. Com a argúcia de sempre, o sábio francês Raymond Aron caracterizou o pós-Segunda Guerra Mundial como período de “paz impossível, guerra improvável”.

O segundo fator de estabilização da rivalidade leste-oeste, quase tão importante quanto o primeiro, foi a memória coletiva da carnificina sem precedentes da Segunda Guerra Mundial. E aí pode residir um considerável risco, à medida que essa memória esmaece com o passar do tempo, considerando-se que o único confronto militar em grande escala em que a China se envolveu até hoje foi como aliada do regime cambojano do Khmer Vermelho contra o governo também comunista do Vietnã, em 1979. Um erro de cálculo de Xi poderia levá-lo a anexar Taiwan pela força, duvidando de que os Estados Unidos estariam dispostos a arriscar uma guerra nuclear em defesa do seu pequeno aliado.

Tradicionalmente, os americanos exercem em relação a Taiwan uma política de “ambiguidade estratégica”, reconhecendo a existência de “um país [a China], dois sistemas”, mas ao mesmo tempo continuando a prestar assistência militar ao governo de Taipé ao amparo do Taiwan Relations Act, lei especial de relações com Taiwan, de 1979, quando Washington reconheceu oficialmente o regime de Pequim como único representante da China. E a mera disparidade quantitativa entre os respectivos arsenais atômicos pode não resultar numa dissuasão eficaz. Estima-se que a China, hoje, detenha apenas 10% das armas atômicas que, juntos, americanos e russos possuem. Gaddis e Brands questionam: “Isso importa? Duvidamos, em vista do feito que Khruschev logrou em 1962: a despeito de uma desvantagem de nove para um em armas nucleares, ele impediu a invasão de Cuba pós-Baía dos Porcos planejada por Kennedy. Desde então, os Estados Unidos convivem com sua (...) anomalia adjacente: uma ilha comunista em pleno Mar do Caribe, sua autoproclamada esfera de influência”. A determinação chinesa poderia ainda ser reforçada por sua maciça capacidade cibernética e antissatélite, recentemente acrescida do exitoso teste de um míssil “hipersônico”, capaz de reorientar sua trajetória em pleno voo, dificultando consideravelmente a sua detecção precoce e a consequente neutralização pelos foguetes antibalísticos dos Estados Unidos.

A expectativa de Gaddis e Brands é que os temores das nações vizinhas se traduzam no fortalecimento das relações militares destas com os Estados Unidos para fazer frente ao poderio chinês, “haja vista o inesperado alinhamento da Austrália com os americanos e os britânicos no projeto de dotar a marinha australiana de submarinos nucleares, bem como a cooperação ampliada da Índia com seus aliados Indo-Pacífico”. E, como se o contencioso marítimo não bastasse, a expansão continental chinesa em sua fronteira oeste também acende sinais amarelos numa Rússia temerosa de se ver “envelopada” pela China na Ásia Central e até mesmo no Ártico, enquanto os vizinhos budistas e islâmicos também se inquietam com o rude tratamento dispensado por Pequim a tibetanos e uigures. Enfim, oportunidades que compõem um gigantesco desafio à destreza política, diplomática e militar dos atuais donos do poder em Washington. Seriam eles capazes de aprender com o presidente Richard Nixon e seu secretário de Estado Henry Kissinger, cuja tática de détente (distensão) baseou-se em uma arquitetura de incentivos para fazer com que a China de Mao, a Europa Ocidental e o Japão colaborassem com os Estados Unidos, compartilhando os custos da estratégia de contenção da União Soviética?

A expectativa de Gaddis e Brands é que os temores das nações vizinhas se traduzam no fortalecimento das relações militares destas com os Estados Unidos para fazer frente ao poderio chinês.

De outra parte, nossos articulistas recorrem a uma anedota do folclore reaganiano de política externa para iluminar as chances de cooperação entre o Dragão e a Águia, apesar do largo e profundo abismo que vai se abrindo entre eles. Em sua primeira reunião com Mikhail Gorbachev, em 1985, o presidente americano surpreendeu o líder soviético “com a afirmação de que uma invasão marciana obrigaria os Estados Unidos e a União Soviética a dirimirem suas diferenças da noite para o dia”. Na atual conjuntura, os “marcianos” atendem pelos nomes de aquecimento global (em ritmo acelerado de mudanças climáticas) e surtos pandêmicos (cada vez mais frequentes e generalizados em razão da globalização), cujo enfrentamento é do interesse do mundo inteiro.

O que de melhor poderíamos esperar de tudo isso é a chegada de uma nova era de coexistência pacífica, que, infelizmente, ao menos por ora, mais parece um sonho distante... É como se a epigramática asserção de Aron agora se bifurcasse nesta interrogação: paz impossível? Guerra improvável?

Paulo Kramer é cientista político e pesquisador da Fundação da Liberdade Econômica.

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