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Viktor Orbán, o líder mais duradouro da Europa contemporânea, classificou como uma derrota "dolorosa", encerrando 16 anos de governo que transformaram a Hungria em um baluarte da resistência conservadora no continente. É o sabor amargo da ingratidão e da imaturidade política dos povos, ainda presente em quase todo o mundo.
A vitória de Péter Magyar e seu partido Tisza não representa apenas uma mudança de governo: sinaliza uma inflexão perigosa na geopolítica europeia e oferece uma lição aos povos, traduzida pelo antigo dito de que “liberdade exige eterna vigilância”, e esta se traduz não apenas com o comparecimento às urnas, mas com o constante cuidado com as insistentes abordagens dialéticas, sempre de roupa nova, feitas pelos radicais de esquerda.
A participação recorde, com mais de 77% de comparecimento, o maior índice desde a queda do comunismo na Hungria, demonstra, em tese, que os mais de 20% que não compareceram às urnas são justamente aqueles que chamamos de “isentões”, sem perceberem que são vítimas de uma sofisticada manipulação com a mensagem: “de nada adianta, pois nada muda, está tudo dominado”. Demonstra ainda como a esquerda radical e seus aliados de conveniência dominam a arte da mobilização emocional. É o mesmo padrão observável em todas as latitudes: apelos sentimentais que culminam em desastres econômicos, expansão descontrolada do Estado, aumento de impostos, relativização da Justiça, com a erosão das liberdades fundamentais que dizem defender. Se você olhar para o Brasil, fica fácil de entender.
Orbán não foi apenas um político; foi um estrategista que salvou a Hungria de múltiplas crises, até em relação à sua própria existência. Contra a invasão descontrolada de muçulmanos, que trouxe desgraças sociais e inseguranças às nações europeias mais complacentes, o Premier ergueu barreiras protetoras nas fronteiras, fato que causou grande polêmica na ocasião. No campo geopolítico, diante da utilização de Zelensky como proxy europeu contra Putin, que promoveu uma invasão ao território ucraniano para pôr fim a uma série de bizarras situações “vorcarianas” que comprometem muitos outros líderes europeus, além da família Biden, Orbán vetou a entrada da Ucrânia na Otan, evitando assim uma potencial terceira guerra mundial que teria arrastado toda a Europa para um conflito direto com a Rússia.
É a eterna tragédia da democracia: líderes raros que colocam as coisas em ordem são substituídos por demagogos de boa lábia, enquanto a memória coletiva é curta demais para reconhecer o valor do que foi construído
Como eurocético convicto e opositor das pautas identitárias socialistas que ainda dominam as instituições europeias, Orbán protegeu seu povo da degradação moral acelerada que se observa em outras capitais ocidentais, na educação e nos costumes. Agora, tais povos, como a Itália, França, Alemanha, Holanda, Suécia, Portugal, dentre outros, lutam para reaver o status quo do Velho Continente. Seu governo, apesar de todas as críticas da mídia corporativa internacional, preservou a soberania húngara num momento em que a burocracia de Bruxelas tentava homogeneizar culturas e identidades nacionais.
O povo, contudo, como frequentemente ocorre na história, demonstrou ingratidão para com aquele que o livrou de desastres. É a eterna tragédia da democracia: líderes raros que colocam as coisas em ordem são substituídos por demagogos de boa lábia, enquanto a memória coletiva é curta demais para reconhecer o valor do que foi construído. E isso coloca em xeque a própria democracia, que talvez tenha de ser revista estruturalmente, para deixar de ser ferramenta de manipulação e se caracterizar como instrumento legítimo da soberania popular. Mas só vai funcionar, à revelia de Platão, Aristóteles e Sócrates contrários à democracia, se o povo evoluir. Mesmo que seja pela dor.
Por outro lado, a figura de Péter Magyar merece atenção especial. Ex-membro do Fidesz, o próprio partido de Orbán, o traiu, rompendo em 2024 para fundar o Tisza, uma sigla cujo nome, curiosamente, significa "Respeito e Liberdade". O fato levanta questões inquietantes: trata-se de um genuíno dissidente ideológico ou de um oportunista que soube explorar momentâneas insatisfações populares? O que ele estava fazendo dentro de um partido conservador? Seria um infiltrado globalista para dar o bote no momento certo?
Observem como os fatos têm semelhanças em todo o mundo, a semântica dos nomes de partidos mais uma vez é reveladora. O Fidesz deriva de "Fiatal Demokraták Szövetsége" (Aliança dos Jovens Democratas), mas culturalmente evoca "Fé, Confiança, Fidelidade", valores morais de raiz cristã e patriótica, essenciais em sociedades em crise. Já o Tisza, ao articular "respeito" com "liberdade", reproduz a mesma retórica oca de "socialismo e liberdade", uma contradição em termos, pois o socialismo, por sua natureza coercitiva e estatizante, é incompatível com a liberdade genuína. Tal como um certo partido brasileiro, promovendo o duplipensar de forma explícita!
As semelhanças com a realidade brasileira saltam aos olhos. Assim como no Brasil, onde valores como "Deus, Pátria e Família" foram traídos por autoridades que deveriam zelar pela legalidade do processo eleitoral, fatos que estão emergindo com os escândalos “vorcarianos” e suas ligações nada republicanas, na Hungria a traição veio de dentro: um ex-aliado que soube capitalizar descontentamentos passageiros para destruir uma edificação de quase duas décadas. Afinal, o partido desse socialista em pele de carneiro terá 135 membros no Parlamento, 2 a mais do que suficientes para alterar a Constituição, salvo algum ajuste eventual. Crônica de desastres anunciados. Francamente, tudo vai depender das instituições húngaras, se forem sólidas, como foram as chilenas na recente travessia socialista do maconheiro Boric.
A retórica de Magyar, "escolha entre Leste ou Oeste”, “propaganda ou discurso público honesto”, “corrupção ou vida pública limpa", “liberdade ou fascismo”, é o mesmo maniqueísmo simplificador que a esquerda radical emprega globalmente. Reduzir complexas questões geopolíticas a slogans binários é a tática preferida de quem não tem propostas substantivas, apenas promessas vazias de "mudança".
Magyar, aos 45 anos, construiu uma narrativa centrada na "corrupção" e nos "serviços públicos decadentes", temas sempre convenientes para oposições que prometem o impossível sem apresentar soluções estruturais. Sua filiação ao Partido Popular Europeu, a família política de centro-esquerda que governa a maioria dos países da UE, indica claramente sua disposição em reaproximar a Hungria de Bruxelas, abandonando a postura de resistência que caracterizou o período Orbán. A celebração imediata de líderes europeus como Emmanuel Macron, Friedrich Merz e Ursula von der Leyen, que saudaram a vitória de Magyar como "uma vitória para os valores da União Europeia", revela o que está realmente em jogo, a reabsorção da Hungria no projeto de integração europeia sem resistências, a eliminação de um "espinho" no lado do bloco, conforme Orbán se autodefinia.
Temo que os húngaros, ao se deixarem levar mais uma vez pelas promessas sedutoras da esquerda e de seus aliados oportunistas, viverão amargos arrependimentos. A história é cíclica: parece que as nações precisam sentir dor para apreender o valor da liberdade e, principalmente, da fé e da confiança em líderes que raramente surgem para colocar ordem no caos.
A vitória dos socialistas, ainda travestidos de democratas, projeta-se sombria sobre o horizonte europeu. Com a Hungria retornando ao "mainstream" burocrático de Bruxelas, perde-se um importante contrapeso às agendas progressistas dominantes. Para o Brasil, que observa de longe, a lição é clara: a vigilância deve ser constante, pois a esquerda trevosa, aquela que manipula emocionalmente, que promete liberdade para impor controle, age de forma similar em todos os lugares.
Os valores de fé, confiança e fidelidade, aqueles que o nome Fidesz evocava, ou “Deus, Pátria e Família”, independente de partidos e agentes políticos, devem permanecer como faróis necessários para iluminar os caminhos ainda mal trilhados pelos povos que exigem a democracia em seus países, mas abrem mão da mesma pela comodidade de não se envolver com política e, principalmente, de se negar a acessar o conhecimento sobre o que a história conta sobre as omissões dos “isentões” e as ações daqueles pobres manipulados por profissionais, cujos únicos interesses centram-se na tomada do poder para depois dele não sair mais. O aprendizado pelo conhecimento e pela razão servirá de base para a preservação dos valores morais que organizam as sociedades prósperas. É o contraponto ao aprendizado pela dor. De um jeito ou outro, os povos aprenderão o suficiente para não se deixarem levar pela retórica vazia de "respeito e liberdade", eufemismos para a submissão e libertinagem, antes da ditadura total.
Thomas Korontai é descendente direto de húngaros refugiados do comunismo da antiga Cortina de Ferro soviética, jornalista, autor de livros, empresário e Coordenador Nacional da Liga Federalista Nacional.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos







