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O primeiro turno das eleições de 2026 não produziu apenas um resultado presidencial inesperado; redesenhou o mapa do poder. A liderança de Flávio Bolsonaro sobre Lula, em contraste com as pesquisas da reta final, reorganizou expectativas, reposicionou atores políticos e antecipou um segundo turno marcado por rejeições, alianças e riscos institucionais.
A reação do mercado foi imediata, mas deve ser lida como sintoma político, não como conclusão econômica. A valorização de ativos brasileiros, a queda do dólar e a expectativa de recuo dos juros futuros refletem a aposta de parte dos investidores em eventual mudança de orientação fiscal. O dado central é que o mercado passou a precificar uma nova correlação de forças entre Executivo, Congresso e Judiciário.
Essa correlação vai além da disputa presidencial. O avanço da direita no Congresso, especialmente no Senado, talvez seja o fato político mais estrutural do primeiro turno. O PL ampliou sua presença, consolidou-se como principal força do campo conservador e passou a disputar não apenas votos, mas o comando da agenda institucional. A polarização não foi suavizada pelas urnas. Ganhou densidade parlamentar.
O Brasil entrou em uma fase de reorganização do poder. A direita saiu fortalecida e o PT preservou centralidade competitiva. A pergunta, agora, não é apenas quem vencerá em 25 de outubro. É qual desenho de governabilidade será possível em um país mais polarizado, com Congresso mais conservador
O movimento reduz o espaço do centro tradicional como eixo exclusivo de mediação. A política brasileira seguirá dependente de negociação, mas a geometria mudou. O Congresso que emerge das urnas é mais conservador, mais sensível ao tema fiscal e potencialmente mais disposto a tensionar a relação com o Supremo Tribunal Federal.
Nesse ambiente, a governabilidade dependerá menos da vitória presidencial e mais da capacidade de administrar uma maioria legislativa convergente em algumas pautas e indisciplinada em outras. Por isso, uma eventual “lua de mel” entre governo e Congresso deve ser vista com cautela. Alinhamento ideológico não elimina disputa por poder, orçamento, cargos e comando da pauta. Reformas fiscais, administrativas ou previdenciárias exigem custo político elevado. O mercado pode conceder o benefício da dúvida; o Congresso, em geral, cobra a fatura.
Do outro lado, Lula entra no segundo turno diante de um desafio político raro: reverter uma desvantagem inicial em eleição presidencial, algo sem precedente desde a redemocratização. Sua estratégia passa por mobilizar a abstenção, disputar votos de centro e ampliar o contraste entre os dois projetos. O problema é que o primeiro turno mostrou erosão territorial em estados relevantes e dificuldade da esquerda em disputar o sentimento de mudança.
As eleições estaduais reforçaram esse quadro. A vitória de candidaturas de direita e centro em grande parte dos estados decididos no primeiro turno mostra que o movimento conservador não se restringiu à corrida presidencial. Ele se espalhou pela federação, criou palanques regionais para o segundo turno e ampliou a capilaridade de lideranças tradicionais e conservadoras. O Brasil que votou em 2026 reorganizou suas bases territoriais de poder.
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A consequência institucional mais sensível está na relação com o Judiciário. O fortalecimento da direita no Senado tende a aumentar a pressão sobre o STF, seja pela discussão sobre pedidos de impeachment de ministros, pela futura composição da Corte ou pelo debate sobre os limites da atuação judicial no processo político. Essa será uma das arenas mais delicadas da próxima legislatura.
Maioria parlamentar não substitui estabilidade entre poderes. O Brasil entrou em uma fase de reorganização do poder. A direita saiu fortalecida e o PT preservou centralidade competitiva. A pergunta, agora, não é apenas quem vencerá em 25 de outubro. É qual desenho de governabilidade será possível em um país mais polarizado, com Congresso mais conservador, mercado mais vigilante e instituições sob pressão crescente?
Em política, resultado eleitoral é ponto de chegada para a campanha, mas ponto de partida para o poder. O primeiro turno encerrou a disputa nas urnas, mas abriu a disputa pela interpretação do país.
Marcus Deois é sócio da consultoria Ética, inteligência política.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos



