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I. Uma anedota e um conselho duro
Há algum tempo, um jovem advogado mexicano me escreveu. Ele me cumprimentou com a familiaridade de alguém que guarda uma lembrança querida e confessou algo inesperado: de todas as nossas conversas, o que ele sempre lembrava era de um conselho direto que eu lhe dera havia algum tempo: "Que se dane a sua reputação".
Ele me garantiu que essa frase havia ficado gravada em sua cabeça e continuava voltando à sua mente. Essa anedota me veio à mente quando refleti sobre os tempos em que vivemos e, especialmente, sobre a santidade de Thomas More.
II. A embriaguez dos aplausos contemporâneos
Vivemos embriagados pelos aplausos. Fazemos tudo o que está ao nosso alcance para deixar um legado, para sermos reconhecidos, para acumular credenciais e para evitar, a todo custo, o temido cancelamento social ou profissional.
Passamos a vida construindo uma imagem pública, escolhendo cuidadosamente nossas palavras para não ofender a maioria e garantir um lugar à mesa dos "influentes". Mas, todo dia 22 de junho, o calendário nos oferece um lembrete incômodo que desafia essa obsessão contemporânea: o dia de São Thomas More.
III. O sucesso terreno de Thomas More
Se alguém, na história, teve razões terrenas para se apegar ao seu prestígio e aos seus privilégios, esse alguém foi ele. Na Inglaterra do século XVI, More tinha absolutamente tudo: era um humanista aclamado, um advogado brilhante, um diplomata, Lorde Chanceler e amigo íntimo e conselheiro do rei Henrique VIII.
Ele era, digamos, a personificação do sucesso profissional, político e social.
IV. Firmeza contra a corrente
Quando Henrique VIII exigiu ser reconhecido como Chefe Supremo da Igreja na Inglaterra para se divorciar de Catarina de Aragão, quase toda a elite cedeu. Clérigos, nobres e figuras de imenso poder se curvaram por conveniência política, por covardia ou, como sugeriram a More, por mera "camaradagem".
Mas More não se deixou influenciar. E veja bem: ele não era um impulsivo que, de repente, se opunha ao rei. Como bem observou o bispo Robert Barron, More era um homem experiente que, inicialmente, tentou usar todo o seu conhecimento da lei inglesa para manter sua integridade sem romper com o rei, sendo tão "simples como uma pomba e tão astuto como uma serpente".
Foi somente quando a situação se tornou absoluta — "ou uma coisa ou outra" — que ele decidiu tomar uma posição.
V. O peso e a verdade da consciência
Ele se recusou a aceitar a convulsão política e religiosa e o divórcio de Henrique VIII porque compreendia algo que hoje, tragicamente, esquecemos: que a consciência não é um capricho pessoal. Ecoando as palavras do cardeal Newman, frequentemente recordadas pelo bispo Barron, a consciência é "o vigário primordial de Cristo na alma", a própria voz de Deus ressoando dentro de nós.
Quando os líderes abandonam essa consciência em favor de seus cargos públicos, conduzem seu país rapidamente ao caos
Como alerta o bispo mencionado anteriormente, se nos esquecermos de que nosso país e nossa política estão sob a autoridade de Deus, a lei e a política tornam-se egocêntricas e, em última instância, autojustificativas.
VI. O preço da fidelidade à verdade
Diante da pressão de seus entes queridos para que cedesse, More respondeu ironicamente, questionando se, quando fosse para o inferno por violar sua consciência, esses colegas o acompanhariam por pura "camaradagem".
Thomas More não se importou em ver sua fama reduzida a cinzas. Ele foi destituído do cargo, perdeu seu dinheiro e foi preso em uma cela gelada e miserável na Torre de Londres, onde passava os invernos contemplando o rio através de estreitas grades.
Após um julgamento em Westminster Hall, repleto de artimanhas, manipulação do júri e manobras legais desleais, foi condenado à morte.
VII. Santidade e bom humor
Mas o que mais fascina nesse homem é que sua imensa santidade jamais foi rígida ou amarga. Santa Teresa de Ávila orou a Deus para que a livrasse dos "santos amargos" e, fiel a esse espírito, More manteve seu brilhante senso de humor até o fim.
No próprio cadafalso, prestes a ser decapitado, ele brincou com seu carrasco, pedindo-lhe que afastasse a barba para que o machado não a cortasse, já que, segundo ele, ela não havia sido acusada de nenhuma traição.
VIII. Crentes na sociedade política
Hoje, quando um secularismo ideológico agressivo tenta expulsar a fé da esfera pública, tratando-a como se fosse um mero passatempo privado, um "hobby" de trabalho social, a figura de More nos lembra que os crentes devem ser, na sociedade política, o que a alma é para o corpo: sua força animadora e moral.
Como aponta a Carta a Diogneto (século II d.C.):
"[Os cristãos] vivem em cidades gregas e bárbaras […] exibem um modo de vida admirável e, na opinião de todos, incrível. Habitam em sua própria terra, mas como estrangeiros; […] Vivem na terra, mas sua cidadania é celestial. Obedecem às leis estabelecidas e, por seu modo de vida, transcendem essas leis. […] Sofrem desonra, e isso lhes serve de glória; sofrem danos à sua reputação, e isso testemunha sua retidão. […] Simplificando: os cristãos são para o mundo o que a alma é para o corpo. […] A alma está encerrada no corpo, mas é a alma que mantém o corpo unido; da mesma forma, os cristãos estão presos no mundo como em uma prisão, mas são eles que mantêm a coesão do mundo."
IX. Apresente-se para o público certo
No último dia 22 de junho, quando celebramos sua santidade, suas últimas palavras continuam a ressoar em todos nós: "Morro como um bom servo do rei, mas, antes de tudo, de Deus."
De que adianta a fama se, no fim das contas, você perde a própria alma?
O bispo Barron costuma ilustrar esse conflito relembrando uma cena magistral do filme Um Homem para Todas as Estações. Nela, um jovem Richard Rich, consumido pela ambição e pela ansiedade de status, pergunta a More, frustrado, qual o sentido de se dedicar ao ensino: "Se eu fosse um bom professor, quem saberia?". A resposta de More é uma crítica direta ao cerne da nossa cultura de ostentação: "Você mesmo. Seus amigos. Seus alunos. Deus. Não é um público ruim."
O bispo acerta em cheio quando nos lembra que a nossa grande tragédia, hoje, é exatamente a mesma de Rich: viver representando para a plateia e para o público mundial, implorando por aplausos passageiros.
X. O valor da integridade e da lealdade
Em suma, num mundo cheio de bajuladores que mudam de lado e de partido a cada sopro de vento, São Thomas More nos convida a sacrificar tudo — trabalho, reputação, status e até mesmo a vida — em vez de trair a verdade. Literalmente tudo, como Nosso Senhor exige dos jovens (e nem tão jovens) ricos, entre os quais, é claro, me incluo.
Seu legado nos mostra que a fama humana é passageira, construída sobre alicerces instáveis, e que é melhor conhecer e amar a Deus do que ser "conhecido" e que a verdadeira grandeza reside em ter a coragem de mandar a fama "para o inferno" quando o que está em jogo é a própria integridade e a fidelidade ao Evangelho.
Javier Mena Mauricio é advogado da Corporação Comunidad y Justicia, em Santiago, no Chile.
©2026 Revista Suroeste. Publicado com permissão. Original em espanhol: Tomás Moro: el buen siervo en tiempos de aduladores.



