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Flávio Gordon

Flávio Gordon

Sua arma contra a corrupção da inteligência. Coluna atualizada às quartas-feiras

Guerra Fria 2.0

O Brasil é a nova Cuba – só que maior

Lula Xi Jinping Brasil China tecnologia
Lula e Xi Jinping se encontram em Pequim, em maio de 2025. (Foto: Tingshu Wang/EFE/EPA/Pool)

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“Depois de anos de negligência, os Estados Unidos reafirmarão e farão valer a Doutrina Monroe para restaurar a preeminência americana no Hemisfério Ocidental, e para proteger nossa pátria e nosso acesso a geografias-chave em toda a região.” (National Security Strategy of the United States of America, Casa Branca, dezembro de 2025)

Corria o ano 1960 quando Nikita Kruschev, em Nova York, abraçou um barbudo de trinta e poucos anos recém-chegado ao poder em Havana, e o fez com o entusiasmo desajeitado do vetusto burocrata que parecia reencontrar a própria juventude revolucionária. Fidel Castro não era, àquela altura, o idealista marxista-leninista convicto que a hagiografia posterior fabricaria; era um nacionalista de origem latifundiária que descobriu, na aliança com Moscou, o instrumento perfeito para consolidar poder pessoal e projetar-se para além da ilha. Foi a Cuba de Castro, e não a vontade soviética, que tomou a iniciativa de bater à porta do Kremlin. Mas, uma vez aberta essa porta, o serviço de inteligência soviético não perdeu tempo: reconheceu na ilha caribenha, muito antes do Ministério das Relações Exteriores ou do próprio Partido, aquilo que os documentos internos já chamavam, sem eufemismo, de “cabeça-de-ponte” – a plataforma a partir da qual se exportaria a subversão comunista para o resto da América Latina, da Nicarágua sandinista aos focos guerrilheiros da Venezuela, do Peru e da Guatemala.

A China não manda instrutores para treinar guerrilhas, como faziam os soviéticos; ela manda engenheiros da Huawei, linhas de crédito estatal, portos, ferrovias e data centers

Não é acidente que essa história volte à memória exatamente quando o Brasil se prepara para uma eleição presidencial que, gostemos ou não, está mergulhada até o pescoço naquilo que venho chamado de “Guerra Fria 2.0”. A tentação de tratar 2026 como um pleito essencialmente doméstico, envolvendo lulopetismo contra bolsonarismo, é a mesma miopia que, ao longo do século 20, levou tantas elites latino-americanas a subestimar o que estava em jogo quando um vizinho se tornava peça importante de um tabuleiro maior. A diferença, hoje, é que a peça central desse tabuleiro na América do Sul não é mais uma ilha de 11 milhões de habitantes viciada em açúcar subsidiado soviético. É a maior economia da América Latina, e fornece exatamente aquilo de que o programa tecnológico chinês precisa: terras raras, minério de ferro, soja e energia – os insumos brutos sem os quais nenhum data center, nenhuma bateria e nenhum chip chinês sai do papel.

Nessa nova Guerra Fria, a China não repete o erro soviético. Analistas que estudaram a ascensão chinesa nos últimos 35 anos costumam notar que Pequim tirou da implosão da URSS uma lição oposta à que tirou o Ocidente – não a de que o comunismo havia morrido, mas a de que poder militar sem lastro econômico é ilusão. Por isso a China não manda hoje instrutores para treinar guerrilhas em selvas centro-americanas, como fazia o Departamento Internacional do PCUS através da DGI cubana nos anos 1960. Ela manda, em vez disso, engenheiros da Huawei, linhas de crédito estatal, portos, ferrovias e data centers. O método mudou, mas o objetivo estratégico – converter um país-chave em plataforma de influência que module o comportamento de toda uma região – permanece surpreendentemente parecido.

E o Brasil ocupa hoje essa função de plataforma. A Huawei já controla quase metade da infraestrutura de quinta geração do país, segundo levantamentos recentes de inteligência geopolítica; Tencent e ByteDance negociam entrada facilitada por regimes tributários favoráveis; e nosso país desponta como o maior mercado potencial de capacidade de data centers de inteligência artificial de todo o Hemisfério Ocidental fora dos Estados Unidos, um mercado da ordem de centenas de bilhões de dólares em investimento futuro, e cuja bacia energética já desperta o interesse chinês por terra e eletricidade “empoderada”. Trata-se de uma disputa que passou longe do radar de boa parte do debate eleitoral brasileiro, mas que analistas americanos de segurança nacional já leem como o verdadeiro campo de batalha desta nova guerra fria: não tanques e mísseis, mas cabos de fibra, terras raras e padrões técnicos que, uma vez fixados, amarram um país por décadas.

Não é exagero, portanto, comparar o papel que Cuba desempenhou para a URSS ao papel que o Brasil ocupa hoje para a China – com a ressalva crucial de que a escala é incomparavelmente maior, e por isso mesmo mais perigosa. Cuba era um posto avançado ideológico, valioso sobretudo como símbolo e como base logística para pequenos grupos guerrilheiros. O Brasil é algo bem mais substancial: um polo econômico cuja captura redesenha o equilíbrio de poder em toda a América do Sul, precisamente porque oferece a Pequim aquilo que nenhuma Cuba jamais poderia – escala de mercado, matéria-prima estratégica e um lugar à mesa dos Brics que confere legitimidade multilateral ao projeto chinês de erosão da ordem mundial liderada pelos Estados Unidos.

Washington, é claro, percebeu o movimento – e reage com uma doutrina que resgata, sem pudor, a linguagem do século 19. A nova Estratégia de Defesa Nacional americana, divulgada em janeiro deste ano, fala abertamente em restaurar a Doutrina Monroe sob uma versão atualizada, batizada de “Corolário Trump”: os Estados Unidos, diz o documento, não permitirão que competidores de fora do hemisfério (e o leitor atento já sabe a quem os americanos se referem) posicionem forças ou controlem ativos estrategicamente vitais nas Américas. É a mesma lógica, atualizada, que levou Theodore Roosevelt a proclamar o direito de polícia internacional sobre o Caribe há mais de 100 anos. Resta que o adversário de agora já não são encouraçados europeus, mas sim cartéis armados como organizações terroristas e potências extra-hemisféricas operando por meio de portos, redes 5G e infraestrutura de nuvem. Especialistas em segurança hemisférica já descrevem essa nova doutrina como “Monroe 2.0”: menos diplomacia pública, mais coerção econômica e disposição declarada para o uso da força, esta última demonstrada nas operações contra o regime de Maduro na Venezuela, citadas com orgulho pelo próprio documento do Pentágono, agora rebatizado como Departamento de Guerra.

Não é exagero comparar o papel que Cuba desempenhou para a URSS ao papel que o Brasil ocupa hoje para a China – com a ressalva crucial de que a escala é incomparavelmente maior

O apelo americano por aquilo que especialistas têm chamado de uma “Doutrina Monroe para a inteligência artificial” – ou seja, a exigência de que a infraestrutura digital do hemisfério rode sobre padrões e nuvens americanas, não chinesas – é apenas a versão mais recente dessa mesma pulsão estratégica. E ela mira o Brasil com uma precisão que nenhum outro país da região desperta, porque nenhum outro oferece prêmio comparável.

Para além das questões domésticas, é nesse contexto que o eleitor brasileiro deveria situar a escolha de outubro. Uma sociedade civil que se faz de neutra numa guerra fria que já elegeu seu território como peça central de disputa, e cujo governo já escolheu abertamente o lado antiamericano do conflito, não está sendo prudente: está sendo ingênua, exatamente como foram ingênuas as elites latino-americanas dos anos 1960 que viam em Cuba apenas um caso de política interna caribenha, e não o prenúncio de décadas de subversão continental.

No fim das contas, a pergunta que o eleitorado nacional deve se fazer é bem simples: de que lado desta fronteira o Brasil pretende ficar – o da colônia amestrada pelo capital e pela tecnologia de Pequim, ou o de um parceiro hemisférico que negocia, com olhos abertos, sua própria soberania digital e energética junto a Washington? Não escolher também é uma escolha. E a história, sempre generosa com quem se recusa a aprender com ela, já cansou de mostrar as suas consequências.

Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

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