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| Foto: Henry Milléo/Gazeta do Povo

Homens rudes e ignorantes, montados em seus camelos e vivendo em tendas, em pleno deserto, evocando um Deus distante, tão duro e impiedoso quanto a vida que lhes foi imposta. Se essa é sua limitada visão sobre os muçulmanos e o Islã atual, é bom informar-se melhor e, com urgência, rever seus conceitos.

Muito se discute sobre a compatibilidade da religião muçulmana com a modernidade, tema que será discutido, entre 04 e 08 de dezembro próximos, na quinta edição do curso “O Mundo Islâmico – Sociedade, Cultura e Estado”, realizado pela Federação das Associações Muçulmanas do Brasil (FAMBRAS) no Instituto Rio Branco, em Brasília. Tendo em mente que a modernidade é um conceito amplo, que vai desde a adoção de um estado democrático até o desenvolvimento tecnológico, social e sustentável de uma nação, alguns territórios de maioria muçulmana não vivem na modernidade, enquanto outros são muito modernos, comparando-os com o resto do mundo.

Quando essa crença de que o outro é inadequado extrapola os limites do bom senso, nasce a intolerância.

Um dos mais importantes intelectuais palestinos, Edward Said, falecido em 2003, no prefácio de seu livro Orientalismo, obra ainda hoje atual, diz que “sociedades contemporâneas de árabes e muçulmanos sofreram um ataque tão maciço, tão calculadamente agressivo em razão de seu atraso, de sua falta de democracia e de sua supressão dos direitos das mulheres que simplesmente esquecemos que noções como modernidade, iluminismo e democracia não são, de modo algum, conceitos simples e consensuais que se encontram ou não, como ovos de Páscoa, na sala de casa”. Seguindo o raciocínio de Said, vale lembrar que países ocidentais, como a Venezuela e, até bem pouco tempo, o próprio Brasil, a Argentina e o Chile, também viviam seus regimes autoritários, que demoraram a virar democráticos. Sendo assim, as transformações políticas, econômicas e sociais acontecem gradativamente em todo o mundo, independentemente das religiões predominantes.

O Islã é seguido, mundialmente, por 1 bilhão de pessoas. Há estatísticas que chegam a computar 1,6 bilhão, então o número é bem incerto, mas há muçulmanos em todos os continentes. Há os muçulmanos que descendem de outros muçulmanos, que já nasceram seguidores do Islã, e vivem em países de maioria muçulmana, com suas fortes tradições, em que a política, a justiça e os costumes se misturam, e até se confundem, com a religião. Há aqueles que, como eu, descendem de outros muçulmanos, mas nasceram e vivem em países como o Brasil, multirreligioso e multicultural, nos quais se pratica a religião ao mesmo tempo em que se absorvem costumes do próprio país. Costumo brincar que sou muçulmano e corintiano, ao mesmo tempo, porque ser muçulmano é minha opção religiosa, mas ser corintiano é minha vocação. Essa brasilidade que apresento não interfere em minha fé – assim como minha devoção não me faz menos profissional ou deixa o médico muçulmano desatualizado. Existem, ainda, os muçulmanos convertidos, aqueles que não descendem de outros muçulmanos, mas que, em determinado momento da vida, decidiram adotar o Islã como sua única fé, e vivem em países de maioria muçulmana ou não.

Por tudo isso, e dependendo das características de cada país em que os muçulmanos vivem, o Islã é praticado de uma maneira diferente, conforme os costumes daquela região, os hábitos da população, as condições econômicas, o regime político, o acesso à educação e à tecnologia, a presença ou não de conflitos e guerras e tantos outros fatores que fazem a diferença entre os povos. É fácil compreender que um muçulmano que reside na Síria, atualmente em guerra, provavelmente terá uma vida diferente e uma prática religiosa totalmente distinta de um que mora em Londres, assim como é compreensível que uma criança que cresce no sertão cearense tenha uma vida diferente de uma que reside na capital paulista, ainda que elas pertençam à mesma classe social.

Do ponto de vista da modernidade tecnológica, sempre que se falam dos novos “Vales do Silício” que se desenvolvem pelo mundo, em referência a polos tecnológicos que se assemelham ao americano, no qual se destacaram verdadeiros gênios da informática, surge o Egito como desenvolvedor de alta tecnologia. Para muitos, é incrível acreditar que o povo das múmias e das pirâmides tenha a capacidade de lidar com algoritmos e o ciberespaço, mas, os jovens muçulmanos, que descendem de uma história milenar de um dos povos mais inteligentes, intrigantes e inventores do mundo, estão à frente da era atual em muitos campos da ciência, inclusive com o país sendo sede de um disputadíssimo curso de mestrado de Engenharia de Informática, pela Arab Academy for Science Technology.

Este é apenas um exemplo isolado de que os muçulmanos são pessoas comuns, como você ou qualquer outra, que acordam todos os dias para trabalhar, estudar, pagar seus impostos, namorar, viajar, educar seus filhos e, sim, ir às mesquitas praticar sua fé. Essas pessoas se adequam ao mundo em que vivem ou lutam pelo o que acreditam ser melhor, assim como você o faz. E, obviamente, como todo ser humano, você, eu e elas temos a tendência a acreditar que o que é diferente é inadequado.

Quando essa crença de que o outro é inadequado extrapola os limites do bom senso, nasce a intolerância. Temos todo o direito de não concordar com as atitudes tomadas por outras pessoas, mas até que ponto podemos impor nossas ideologias, crenças, filosofias, nosso modo de vida sobre elas? Qual é o limite? Por que tendemos a acreditar que nosso modo de viver é soberano ao do outro? Se sabemos educar melhor nossos filhos, por que o Brasil, por exemplo, atingiu índices tão alarmantes de violência, corrupção, crianças fora da escola, por que nossa saúde e educação são tão precárias, nosso trânsito é caótico? Vivemos num mundo tão melhor do que outras pessoas vivem?

A intolerância exacerbada também vem do outro lado e, então, surgem extremistas que se escondem atrás de uma falsa religiosidade para, em nome dessa ideia errônea de fé, cometer crimes contra a humanidade. O terrorismo não é um reflexo da religião, ele é um ato isolado de extremismo, de crueldade e de oportunistas, que usam a bandeira religiosa falsamente, como pretexto para obter benefícios e dizimar aqueles que estão no caminho de suas buscas insanas pelo poder.

Como concatenar tantas ideias, meu caro leitor, diante do caos que vivemos? A fé, afinal, será algo incompatível com o século XXI? Se o preceito básico do Islã é a solidariedade entre os povos e a compaixão e isso é o que mais se precisa, então não há algo mais moderno do que essa filosofia. Talvez, o segredo seja simplificar essas relações.

Ali Zoghbi é vice-presidente da Federação das Associações Muçulmanas do Brasil – FAMBRAS.
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