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Por que está cada vez mais difícil formar líderes nas empresas?

A crise da liderança já afeta empresas: sem preparar gestores para desenvolver pessoas, não há tecnologia capaz de garantir bons resultados. (Foto: Imagem criada utilizando Chatgpt/Gazeta do Povo)

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Ao longo de mais de duas décadas trabalhando com recrutamento, desenvolvimento de pessoas e gestão de equipes, aprendi que os grandes desafios das empresas mudam de forma silenciosa. Eles raramente chegam anunciados. Quando seus efeitos aparecem, normalmente já estão impactando resultados, produtividade e competitividade.

Acredito que estamos diante de uma dessas transformações: a dificuldade crescente de formar líderes preparados para conduzir pessoas em um mercado cada vez mais complexo.

Durante muitos anos, a principal preocupação das organizações foi encontrar profissionais qualificados. Essa continua sendo uma realidade, mas deixou de ser o único desafio. Hoje, muitas empresas perceberam que contratar talentos é apenas parte da equação. O verdadeiro diferencial está em desenvolver pessoas capazes de liderar, inspirar e preparar novas gerações.

O mundo do trabalho mudou em uma velocidade que poucas organizações conseguiram acompanhar. Inteligência artificial, automação, novos formatos de contratação, trabalho híbrido e a convivência entre diferentes gerações transformaram a dinâmica das empresas. Ao mesmo tempo, também mudaram as expectativas dos profissionais.

Remuneração e estabilidade continuam importantes, mas já não são suficientes para garantir engajamento e permanência. As pessoas buscam ambientes onde possam aprender, participar, encontrar propósito e construir relações de confiança.

Esse novo cenário exige um perfil de liderança diferente daquele que predominou durante décadas.

Liderar deixou de ser apenas distribuir tarefas, acompanhar indicadores e cobrar resultados. O gestor atual precisa comunicar com clareza, desenvolver talentos, administrar conflitos, tomar decisões em ambientes incertos e criar condições para que as equipes alcancem seu melhor desempenho.

É justamente nesse ponto que surge um dos maiores desafios das organizações: muitas empresas ainda promovem seus melhores especialistas sem prepará-los para liderar pessoas.

O excelente vendedor torna-se gerente. O engenheiro mais experiente assume uma coordenação. O profissional com maior domínio técnico passa a conduzir uma equipe. A promoção acontece, mas a formação em liderança nem sempre acompanha essa transição.

Os reflexos aparecem nos indicadores.

Uma pesquisa do UKG Workforce Institute revelou que 71% dos profissionais não desejam ocupar o cargo de seus próprios gestores

O dado chama atenção porque revela uma mudança de percepção: aquilo que historicamente era visto como uma evolução natural de carreira passou a ser encarado, por muitos profissionais, como uma posição marcada por pressão, sobrecarga e pouca preparação.

Outro levantamento, divulgado pela Microsoft, mostra que 53% dos gestores relatam sintomas de burnout, percentual superior ao observado entre colaboradores sem posição de liderança. Ou seja, aqueles que deveriam apoiar suas equipes também enfrentam dificuldades para lidar com as próprias demandas.

Essa realidade não representa apenas uma questão de bem-estar. Ela impacta diretamente a produtividade e a competitividade das empresas. Equipes dificilmente superam a qualidade da liderança que recebem. Quando falta clareza, comunicação e desenvolvimento, os efeitos aparecem na retenção de talentos, na inovação e na capacidade de execução da estratégia.

O Sul do Brasil apresenta um retrato importante desse desafio. Com uma economia fortemente apoiada na indústria, no agronegócio, na tecnologia e em empresas familiares que vivem processos de sucessão, a região sente de forma evidente a necessidade de preparar novas lideranças. Mas essa não é uma questão regional. É um desafio que atravessa empresas de todos os portes e segmentos em todo o país.

A liderança de hoje não pode ser construída apenas com base na autoridade do cargo. Ela precisa estar apoiada na capacidade de influenciar, desenvolver pessoas e construir confiança.

Isso não significa uma gestão menos exigente. Empresas competitivas continuam precisando de metas claras, alta performance e decisões rápidas. A diferença é que compreenderam que resultados sustentáveis são consequência de equipes bem conduzidas.

O Fórum Econômico Mundial aponta liderança, inteligência emocional, resiliência e gestão de talentos entre as competências mais importantes para os próximos anos. Não por acaso. Em um cenário onde tecnologias podem ser adquiridas e processos podem ser replicados, a capacidade de formar pessoas continuará sendo um diferencial estratégico.

A próxima década será marcada por empresas mais tecnológicas, ágeis e conectadas. Mas nenhuma organização crescerá de forma sustentável sem líderes preparados para transformar estratégia em execução e pessoas em resultados.

Tecnologias continuarão evoluindo. Novos modelos de negócio surgirão. Processos serão automatizados. Mas algo permanecerá essencial: a capacidade humana de inspirar, desenvolver e conduzir pessoas.

Por isso, formar líderes deixou de ser apenas uma iniciativa de desenvolvimento. Tornou-se uma decisão estratégica para qualquer empresa que deseja permanecer competitiva no futuro.

Paulo Ricardo dos Santos é Diretor Executivo da Concentrei.

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