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Lanternas japonesas.
Lanternas japonesas.| Foto: Pixabay

Estou viajando pelos Estados Unidos e pelo México há algumas semanas e no sul da Flórida, na cidade de Delray Beach, encontro o que é para mim um dos mais impressionantes, belos e tranquilos lugares da região, o Museu e Parque Morikami. De fato, um dos meus locais favoritos do planeta.

O câmpus inclui dois edifícios de museus, os Jardins Japoneses em estilo Roji-en: Jardim das Gotas de Orvalho, um jardim bonsai, uma biblioteca, loja de presentes e um restaurante japonês. Os tradicionais festivais japoneses são celebrados várias vezes durante o ano.

O parque e o museu têm o nome de George Morikami, um nativo de Miyazu, no Japão, que doou sua fazenda para o condado de Palm Beach para ser usada como um parque. George Morikami foi o único membro da Colônia Yamato, na Flórida, a permanecer em Delray Beach após a Segunda Guerra Mundial. Ele propôs originalmente doar o terreno para a cidade de Delray Beach, que recusou. O museu foi inaugurado em 1977, em um prédio que hoje se chama Yamato-kan. O edifício principal do museu foi inaugurado em 1993, juntamente com a construção dos jardins Roji-en. O Parque Morikami, nele incluído o museu, tem 763 mil metros quadrados, e nele ainda há um pavilhão para piqueniques, seis abrigos menores para encontros e um playground.

O que chama bastante nossa atenção é a capacidade de integração cultural que os japoneses foram capazes de promover nesta região e como o poder da cultura consegue transformar uma sociedade, uma economia e todo um sistema social. O Morikami Museu e Parque hospeda uma série de festivais com influência japonesa a cada ano, incluindo Oshogatsu (ano novo), em janeiro; Hatsume Fair Festival, em abril; e Lantern Festival (baseado no festival japonês Obon), em outubro. Esses festivais atraem visitantes de todo o estado e apresentam fornecedores de comida e arte. O Festival das Lanternas também mostra uma apresentação anual de danças e os visitantes personalizam suas lanternas para as metas do ano, lançando-as ao lago central após o pôr do sol, algo típico da cultura japonesa.

O Japão e os Estados Unidos têm uma capacidade ímpar para transmitir sua cultura utilizando elementos como esses. Essa transmissão de cultura se transforma em influência, respeito internacional e poder para as respectivas nações, o que caracterizamos como soft power.

Neste jardim, é nítido que encontramos um intercâmbio de culturas, seja a tradicional, voltada para as artes, ou a cultura pop voltada para as animações; todavia, tal intercâmbio é um elemento fundamental para a projeção do Japão no exterior, como são os filmes de Hollywood para os Estados Unidos. Hoje, são nítidas e perceptíveis a necessidade e a visão que os japoneses têm de mostrar como estão avançados na transformação ambiental e na transformação da economia verde, tanto em seus carros quanto na construção civil. Até mesmo neste momento procuram mudar sua estratégia militar e mostrar que no oriente continuam a ser os defensores da democracia liberal em um mundo cada vez mais acossado pelo poder econômico e militar chinês. Neste contexto, a demonstração de parques sustentáveis como esse, que atraem milhares de pessoas, mostra um estilo de vida bastante diferente e ao mesmo tempo envolvente e muito importante para a divulgação do soft power japonês.

Os Estados Unidos são uma superpotência porque conseguem ao mesmo tempo dominar as principais fontes de poder de uma nação: poder militar, poder econômico, poder financeiro, poder de influência e poder cultural. Poucas são as nações que conseguem ter o domínio de um ou mais desses poderes, mas o Japão vem mostrando que seu poder cultural não é pequeno e, claro, o utiliza para expandir suas outras capacidades de poder, o que se apresenta como mais uma importante estratégia geopolítica. Neste caso, é fundamental que nós, brasileiros, tenhamos isso em mente, pois cultura é poder.

Igor Macedo de Lucena é economista e empresário, doutorando em Relações Internacionais na Universidade de Lisboa, membro da Chatham House – The Royal Institute of International Affairs e da Associação Portuguesa de Ciência Política.

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