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Criptomoedas
Criptomoedas. Imagem ilustrativa.| Foto: Pixabay

Lembro quando comecei meu primeiro trabalho, no início de 2017, como professor de Matemática, e um aluno meu do cursinho pré-vestibular falava sobre o bitcoin, e dizia que estava comprando a moeda. Eu já tinha ouvido falar sobre o ativo meses antes, mas tinha o pé atrás, em parte, porque era um investimento a princípio arriscado e, em parte, porque o dinheiro que eu ganhava na época dava somente para pagar minhas contas.

O bitcoin iniciou 2017 cotado em cerca de R$ 3 mil. No fim do mesmo ano foi cotado em cerca de R$ 70 mil: uma valorização maior que 2.000%. Sem dúvida foi o melhor investimento que se poderia ter feito no ano. Na época, eu já não acreditava mais que a moeda continuaria a subir.

Porém, apesar de alguns reveses no meio do caminho, a trajetória de subida continuou. Hoje, em março de 2021, o ativo já é negociado em R$ 309 mil, no momento em que escrevo.  Considerando como ponto de partida o início de 2017, temos uma valorização de 10.200%. Se eu tivesse investido qualquer R$ 1 mil na época, hoje teria R$ 103 mil. Pensar isso é de fato frustrante; entretanto, não adianta moer ideias sendo um profeta do passado.

Realmente a moeda virtual se valorizou absurdamente mais do que o mainstream econômico poderia esperar, o que surpreendeu e continua surpreendendo a todos. Entretanto, tendo o pé no chão na hora de formular uma hipótese e pensar o futuro, vamos ponderar algumas considerações.

Primeiro, como qualquer moeda, o bitcoin não tem lastro. Não é como uma ação, cuja empresa emissora possui ativos com valor contábil que podem vir a ser convertidos em moeda no caso de liquidação. Qualquer moeda tem seu valor referenciado na confiança que se tem do emissor daquela moeda de forma geral. O dólar é uma moeda forte porque o Fed é um banco central de alta estima internacional e o governo norte-americano é um dos melhores pagadores mundiais dos seus títulos de dívida.

Portanto, assim como as moedas estatais (emitidas pelos bancos centrais), o bitcoin também é fiduciário, ou seja, é uma moeda baseada na acreditação que se tem do emissor dela. Entretanto, a diferença é que o bitcoin é uma moeda privada: não tem o carimbo de governo nenhum. Há, também, um estoque limitado dela, o que, em tese, não deixa que haja expansão monetária e evita fenômenos clássicos de inflação da moeda. E isso, em partes, é um dos motivos pelos quais ela vem subindo muito: oferta praticamente igual e demanda crescente.

Em 2018, para cada pessoa que participava das negociações na Bovespa (agora B3), duas pessoas negociavam bitcoin. Assumindo que hoje, embora não haja dados concretos que corroborem a hipótese, a proporção se mantenha, podemos ter quase 6,5 milhões de brasileiros negociando bitcoin.

Assumindo uma população de 210 milhões, teríamos 3,1% de brasileiros que transacionam esses ativos. Caso retire-se os jovens da conta (19 anos ou menos), de acordo com o último censo, a população de estudo seria 59,8% da população total – 125 milhões, o que daria 5,1% da população adulta e idosa nesse mercado.

Se extrapolarmos tais números para o âmbito mundial, podemos entender a febre do bitcoin e por que seu valor saltou tanto. Entretanto, os atuais valores de negociação do referido ativo precisam ser melhor analisados. No mesmo período em que o bitcoin subiu 10.200% em reais, o Ibovespa subiu próximo de 100%. É importante analisar, pelo menos em âmbito nacional, que nesse período a economia brasileira estava praticamente estagnada, mas, mesmo assim, as principais ações negociadas na bolsa duplicaram seu preço e o bitcoin subiu vertiginosamente.

Com relação ao bitcoin, é possível entender em partes essa alta. Primeiro, porque é um ativo que pode servir como proteção de carteira, uma vez que não está sujeito a mudanças nos rumos da política e, também, por conta da alta do dólar, o que fez seu valor em reais disparar ainda mais. Mas, no caso do Ibovespa, a subida, mesmo que de 100%, pode ter sido ocasionada por outros fatores: maior participação da população em geral no mercado de capitais e aumento da base monetária, ocasionada pela política expansionista do Banco Central brasileiro, baixando as taxas de juros. Isso pode fazer, de certa forma, com que o aumento do Ibovespa seja relativamente justificável e dificilmente passível de recaídas, exceto no caso de um aumento expressivo nas taxas de juros reais nacionais.

Entretanto, aos investidores em bitcoin é necessária uma relativa cautela. A euforia desses momentos pode ser demasiada. Lembro-me de algumas frases que costumamos ler em livros de investimento e economia: “quando o engraxate dá conselhos de investimentos, é hora de sair da bolsa”, ou “quando uma ação começar a ser destaque nos telejornais devido ao seu grande crescimento, é hora de vendê-la”.

O bitcoin tende a ser um ativo que, na prática, será somente especulativo e que dificilmente poderá ser usado como moeda; afinal, uma das características necessárias para a moeda é ser um instrumento estável, pouco volátil, coisa que o bitcoin está longe de ser. Inclusive, é com o intuito de dar à moeda tais características que existem as figuras dos bancos centrais.

Ademais, há uma grande chance futura de o mercado de bitcoins se tornar muito regulamentado, especialmente se ocorrer rapidamente uma derrocada. Dentre os motivos pelos quais tende-se a regulamentar esse mercado estão as complicações na rastreabilidade dos fluxos de renda, o que dificulta a vida dos fiscos mundiais e de investigações criminais.

Todavia, o principal motivo pelo qual os governos tendem a tentar controlar o bitcoin é porque a moeda pode ser um instrumento de perda da soberania dos Estados. Caso, de fato, existisse uma moeda internacional de emissão privada e com baixa volatilidade, os governos, por intermédio de seus bancos centrais, perderiam todo o controle que possuem dos fluxos monetários nas suas moedas. Um Estado que não pode controlar uma economia, rastrear os fluxos monetários e taxar as transações estaria em ruínas. Assim, em tese, para os governantes, é bom que o bitcoin seja volátil, e sua queda vertiginosa pode ser um bom motivo para que se comecem as regulamentações da criptomoeda.

Portanto, de uma coisa eu posso dizer que tenho certeza: o bitcoin vai desabar um dia; pode ser por estouro da bolha especulativa ou por regulamentação, mas ele vai desabar. Pode ser no fim desse ano, como pode ser daqui a cinco anos. Mas ele vai desabar. Pode ser que eu esteja perdendo ao não entrar nessa bolha especulativa agora, pode ser que daqui a seis meses ele dobre de preço e eu me arrependa demais.

Mas algumas coisas são certas: há muita gente comprando bitcoin porque está havendo uma subida vertiginosa, como ocorre com qualquer bolha especulativa, e todos os investidores médios parecem pensar que a subida não terá fim. Entretanto, é no momento de extrema euforia que os grandes players começam a se livrar da posição comprada, enquanto todos os pequenos estão entrando; quando a bolha estoura, quem a percebeu antes embolsa os lucros e uma multidão de pessoas amarga as perdas.

Lucas Silva Pedrosa é especialista em Análise Macroeconômica e professor universitário.

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