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O presente e o futuro da prática psicológica no Brasil

É possível estudar nas nossas faculdades sem nunca ouvir falar de um Viktor Frankl ou de um Maurice Pradines

  • PorJuliana Chainho
  • 22/06/2016 00:02

A psicologia é uma ciência que tem umas quantas especialidades, mas é uma tendência mais preponderante no Brasil – mas não apenas no Brasil – que os graduandos especializem-se na clínica. Para mais: houve um sem-número de estudos, nacionais e internacionais, que questionaram os alunos iniciantes acerca de sua motivação ao ingressarem no curso. Uma boa parte dos alunos acaba por referir as próprias necessidades psicológicas como a principal influência e curiosidade que os levaram ao curso. Não se sabe o que os psicólogos e professores – ou, enfim, as instituições de ensino de Psicologia – fazem ou fizeram com a informação, mas tudo leva a crer que não fizeram coisa alguma. Sem contar outro pormenor: supostamente, a razão histórica pela qual a maior parte dos alunos é feminina é a de que as moças casadoiras o escolhiam apenas para ter uma formação superior em seus currículos como pretendentes de bons partidos, sendo que boa parte delas nem chegava a atuar profissionalmente. Esses fatos, isolados, não quereriam dizer algo significativo, se não fosse o exposto que se segue.

A essas raízes urge retornar, na tentativa de compreender fenômenos bizarros, pois alguns relatos de estudantes de Psicologia são de pasmar . Em um deles, de São Paulo, um grupo de alunos foi fazer “pesquisa” em uma casa de swing. Essa história já tem alguns anos, mas não consigo imaginar muito bem que espécie de resultados vieram daí. Mais recentemente, entre tantos outros fatos aberrantes, para citar apenas um que foi documentado em vídeo na internet, houve uma “apresentação” de psicologia em uma universidade federal do Nordeste do nosso país em que o sujeito se despia, extraía seu sangue e despejava-o sobre um crucifixo apoiado em uma cadeira. Fotos do ato e dos estudantes que o aplaudiam, comovidos, acompanhavam a matéria.

É preciso ter certa experiência de vida, mas os formandos, em geral, têm 20 e poucos anos

Outros estudantes de universidades governamentais brasileiras reportam que não têm um único professor que preste realmente, que os docentes não sabem do que estão falando e se enrolam muito em relação ao conteúdo da matéria que pretendem explanar. Eu mesma, psicóloga, embora não tenha me formado no Brasil, tenho contato com dezenas de psicólogos e custa-me pensar em indicar algum que saiba o que está fazendo com a psique alheia, que vá realmente oferecer um resultado para a queixa pretendida e que não esteja contaminado com alguma ideologia ou que não vá utilizar de conceitos new age em sua prática clínica. Embora alguns desses psicólogos dominem algumas técnicas psicoterápicas aqui e ali e também dominem certos conteúdos (refiro-me aqui aos melhores), percebo que não têm uma cosmovisão na qual se insira o indivíduo, a psique, o que deixa em suspenso o que será do paciente que vá ter com ele.

As características de um bom profissional da área são, desde logo, contrárias à prática de despejo de centenas e centenas de formandos que as faculdades brasileiras produzem. É preciso ter certa experiência de vida, mas os formandos, em geral, têm 20 e poucos anos. Somente com o apoio de muita literatura é que um recém-formado dessa faixa etária poderia substituir imaginariamente aquelas experiências humanas que lhes proporcionariam compreender os dramas humanos com profundidade. E a leitura no nosso país, já se sabe, é um desastre. Além disso, não se estuda nada que não esteja dentro de uma pressuposta modernidade na psicologia, a não ser como fundamentos filosóficos, embora exista toda uma literatura psicológica prévia àquele que é admitido como o surgimento histórico da ciência em questão. Nada da literatura que os doutores da Igreja Católica produziram, a não ser em disciplinas muito periféricas – casos assim poderiam ocorrer. A verdade é que é possível estudar nas nossas faculdades sem nunca ouvir falar de um Viktor Frankl ou de um Maurice Pradines. É mais que possível: é praticamente certo que não se ouvirá a respeito da filosofia de Louis Lavelle, que poderia contribuir enormemente para a compreensão do estado de coisas do homem atual.

O futuro da psicologia no Brasil é uma grande interrogação, mas com vistas a se revelar cada vez pior. O presente da psicologia no nosso país é lamentável e profissionais de confiança contam-se nos dedos de uma mão e eles – os dedos – ainda sobram.

Juliana Chainho é escritora e psicóloga.
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