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Bolsonaro crimes
Parecer de juristas à CPI da Covid aponta os crimes que Bolsonaro teria cometido na condução da pandemia no Brasil.| Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

O movimento que elegeu Bolsonaro tem perfil ideológico conservador, que corresponde aos anseios de parcelas significativas de grupos da sociedade: evangélicos e outros cristãos; profissionais liberais como caminhoneiros, policiais militares, produtores rurais, pessoas que trabalham em atividades informais; população das cidades do interior etc. Esta ideologia pode ser descrita pelas seguintes pautas: direito ao armamento civil, defesa da vida contra o aborto, combate duro à criminalidade, liberdade de expressão e econômica, valores familiares tradicionais contra a ideologia de gênero, anticomunismo, entre outras.

A expressão política deste movimento é relativamente recente: adentra a cena pública nas manifestações de rua, por volta de 2013, mas antes já se mostrava latente dentro da sociedade – por exemplo, em 2007, quando lançado o filme Tropa de Elite, muitas pessoas viram no personagem Capitão Nascimento um herói do combate ao crime. Isso contrariou as intenções do diretor e do ator que interpretou o personagem, ambos identificados com o campo ideológico da esquerda, e que queriam denunciar a violência policial.

Nesse sentido, costumo dizer que Bolsonaro não é a causa desse movimento, mas sua consequência. Ele soube e sabe melhor do que qualquer político, até o momento, representar os anseios deste contingente expressivo do eleitorado brasileiro. Tendo elegido Bolsonaro presidente, este movimento vem enfrentando o dilema de qualquer movimento ideológico que passa para a ação política: equilibrar as expectativas ideais com as limitações práticas do jogo do poder. É neste contexto que devemos interpretar as manifestações do último 7 de setembro e a nota de Bolsonaro, levantando “bandeira branca”, escrita após diálogo com o ex-presidente Michel Temer.

Muitos pensam que ideologias são sistemas irracionais de ideias ou doutrinas rígidas. Na verdade, não são nem uma coisa nem outra. Em um livro pouco conhecido, mas muito interessante, Ideology and Politics, o professor Martin Seliger estuda o papel da ideologia na ação política. Ele argumenta que as ideologias precisam sempre construir arranjos e concessões entre seus valores e concepções originais mais “puras” e as necessidades práticas de ação. Ou seja, a ideologia é formada em meio a um processo no qual os agentes “organizam” determinado conjunto de crenças, valores e princípios, de modo tal que lhes permita, por meio da ação social organizada, perseguir objetivos políticos, sociais e/ou econômicos, fornecendo justificativas a priori ou a posteriori do que fazem.

No entanto, a necessidade de consecução da ação prática, em algum momento, compromete os princípios e valores mais gerais de uma ideologia. Isto é: quando a ideologia é guia da ação política, ela precisa estruturar e/ou justificar medidas práticas específicas, sendo que neste processo a centralidade e “pureza” de alguns princípios e valores provavelmente tornar-se-ão ameaçados pela necessidade de ação. Nas palavras de Seliger: “Ao moldar políticas específicas em deferência às circunstâncias prevalecentes, nenhum partido jamais foi capaz de evitar concessões com algumas linhas de ação que são irreconciliáveis ou, pelo menos, duvidosamente relacionadas aos princípios e objetivos básicos de sua ideologia”. Em suma, as necessidades práticas da política nem sempre coincidem com as intenções e expectativas que uma ideologia promove.

É isso que o movimento conservador que elegeu Bolsonaro está experimentando: o ajuste entre as ideias mais gerais e os frustrantes limites que o jogo do poder possui. Especialmente porque este movimento encontra oposição ao establishment político e burocrático brasileiro, assim como de boa parte das elites econômicas e culturais e setores da grande mídia. O futuro deste movimento é construir unidade de pensamento capaz de orientar sua ação no longo prazo, além dos objetivos eleitorais, assim como ser capaz de se organizar nas suas diferentes correntes para que possam resistir aos ataques dos seus opositores.

Lucas Rodrigues Azambuja é doutor em Sociologia e professor no Ibmec BH.

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