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Alunos com máscaras.
Chefe do CDC dos EUA defende volta às aulas no país e diz que vacinação de professores não é pré-requisito.| Foto: Unsplash

Grandes crises são intrinsecamente revolucionárias. Nenhum povo ou sociedade atravessa guerras, catástrofes naturais, ditaduras assassinas ou pandemias e continua igual. Quanto à Covid-19, afirma-se repetidamente que após seu fim viveremos o “novo normal”, e é verdade – mas não toda a verdade: quando o pior da peste passar, não tiraremos as máscaras simplesmente, não choraremos nossos mortos e, enfim, abraçaremos nossos vivos simplesmente, não retomaremos a vida que tínhamos da forma como a tínhamos... simplesmente.

Perdemos demais para que isso seja possível; perdemos quase 600 mil pessoas próximas, distantes, conhecidas ou não: pessoas. Mudamos, para o bem e para o mal, nosso estilo de vida, nos tornamos mais frágeis, mais fortes, mais resilientes, mais tristes, mudamos para sempre. A necessidade de isolamento social universalizou a prática das conversas on-line, as lives, para a maioria das atividades antes presenciais. Reuniões de trabalho, palestras, festas de família, psicoterapias e muito em que antes o uso da rede era eventual passou a ser a norma.

A educação, em que essa prática era mais usual na modalidade presencial ou a distância (EAD), teve necessidade de um salto de processos. Na maior parte do último ano e meio as escolas praticamente fecharam, mas, sendo o ensino uma das mais antigas atividades humanas, em permanente mudança e adaptação, vários métodos inovadores vêm sendo implantados em grande parte dos estabelecimentos convencionais. Porém, não sem as inevitáveis dores de nascimento; alunos e professores tiveram de atravessar as etapas de assimilação do novo, começando por aceitá-lo como inevitável ainda que temporário; igualmente, o aprendizado da tecnologia e até da pedagogia a ela ligada.

Educar é simultaneamente relacionar-se, e a maioria das pessoas tem reservas a conversas mais profundas em que os protagonistas não estão presentes, em que dúvidas e reações mútuas são filtradas por câmeras e telas. Evidentemente os professores mais jovens, praticamente nativos digitais como seus alunos, atravessaram este Rubicão com facilidade. Os mais velhos, ou de comunidades com menos recursos, tiveram e estão tendo alguma dificuldade e mostrando certa resistência, ainda que aceitando a inevitabilidade geral do processo. A forma híbrida, misturando atividades remotas e presenciais, vai aos poucos se impondo, com alunos e professores se adaptando e até tirando proveito de muitas de suas facetas.

A pandemia representou, sim, um extremo desafio ao sistema escolar: além das dificuldades inerentes à área sanitária, multiplicaram-se as dificuldades da gestão educacional, com crianças e adolescentes em rotinas alteradas, fechados em casa, muitos sem merenda. A realidade brasileira de crianças que dependem da escola para sua segurança alimentar foi exposta de forma crua.

No entanto, nesta dificuldade sanitária, como nunca a escola uniu diversas comunidades, foi espaço privilegiado de encontros e interações fundamentais para o desenvolvimento da solidariedade, desde distribuição de cestas básicas, álcool gel, máscaras, até locais de vacinação; o distanciamento social, a medida mais eficaz para prevenção, foi especialmente difícil para o estabelecimento escolar.

Além das repercussões econômicas, fáceis de entender em um país de imensa desigualdade social, as repercussões clínicas e comportamentais, e algumas vezes adoecimento psíquico por mudança no estilo de vida, nas escolas foi afetada a vida coletiva.

Mais do que nunca, professores são necessários, e prepará-los bem é também política pública indispensável.

O compreensível desejo de escapar da realidade atual tem precedentes. Em outros momentos a humanidade enfrentou tragédias com grandes impactos, desde a Peste Negra, que matou quase um terço da população europeia; embora a Covid-19 tenha viajado mundo afora em jatos de carreira, as vacinas foram desenvolvidas quase na mesma velocidade, ainda que não estejam devidamente universalizadas. As perdas provocadas por esta doença são evidentemente lamentáveis, mas seriam muito maiores sem os recursos da ciência atual.

Em um país com um número absurdo de analfabetos, com uma desigualdade gritante, a presença excessiva de discussões sobre modalidades de ensino, encetadas por pessoas absolutamente sem conhecimento do tema, tem produzido efeitos maléficos. Particularmente no Brasil atual, além de uma pandemia interminável – porque desgovernada, sem uma política de saúde minimamente razoável, e com vacinação lenta –, estamos ocupados destruindo nosso maior patrimônio, uma natureza exuberante e que regula muito do clima do planeta; estamos carentes de uma governança efetiva, menos ideológica e mais pragmática, de realizações.

Períodos conturbados, assim como catástrofes naturais ou conflitos de várias ordens, não nos permitem esquecer o quanto as sociedades fragilizadas podem ser caóticas caso não exista uma condução de crise eficiente, sóbria e adequada, e um sistema educacional eficiente. Mais do que nunca, professores são necessários, e prepará-los bem é também política pública indispensável.

Wanda Camargo é educadora e assessora da presidência do Complexo de Ensino Superior do Brasil (UniBrasil).

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