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O rastro do Banco Master e a democracia encenada: lições de Olavo de Carvalho

Olavo de Carvalho chamava isso de inversão da realidade: quando o sistema inteiro opera para que a aparência contradiga a substância e a substância se torne indizível. (Foto: Arnaldo Alvez/Arquivo/Gazeta do Povo)

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O professor Olavo de Carvalho morreu repetindo que o PT não era apenas um partido. Era um projeto de poder cuja ambição era possuir o Estado por dentro. O caso Banco Master sugere que o diagnóstico era ainda mais grave do que o próprio Olavo formulou publicamente. O que os fatos disponíveis indicam é uma rede que opera como método permanente, com proteção institucional, contratos formalizados e portas giratórias entre o poder público e o capital privado.

Trinta anos de hegemonia cultural produziram uma casta política e jurídica convencida de que não deve explicações à sociedade que a sustenta. Olavo de Carvalho estava certo. É por isso que o caso Banco Master é tão revelador. Ele aparece como funcionamento normal do sistema. Segundo reportagens publicadas pela grande imprensa, o presidente Lula recebeu Daniel Vorcaro no Palácio do Planalto fora da agenda oficial, enquanto o banco já era alvo de apurações por órgãos reguladores. Guido Mantega teria recebido cifras milionárias por atuação junto à instituição. Jaques Wagner teria participado de articulações que aproximaram figuras-chave do governo ao Master. E há relatos, também veiculados pela imprensa, de pagamentos ao escritório ligado à família de Ricardo Lewandowski durante sua passagem pelo Ministério da Justiça. Nenhum desses fatos foi contestado judicialmente até o momento.

Olavo de Carvalho chamava isso de inversão da realidade: quando o sistema inteiro opera para que a aparência contradiga a substância e a substância se torne indizível. O caso Banco Master é uma radiografia

O psiquiatra polonês Andrew Lobaczewski cunhou o termo patocracia para descrever sistemas nos quais a patologia se torna norma de governo: o crime vira procedimento, a denúncia é rotulada como agressão e o funcionamento regular das instituições passa a servir como cobertura para o funcionamento irregular do poder. O roteiro brasileiro confirma o diagnóstico com precisão cirúrgica. O Mensalão virou “narrativa da oposição”. O Petrolão virou “lawfare”. O caso Banco Master já está sendo enquadrado como perseguição política, com o esquema rebatizado de vítima e a exigência de silêncio apresentada como prova de civilidade institucional.

A hipocrisia se revela no contraste mais elementar. A esquerda brasileira passou duas décadas construindo sua identidade política sobre a indignação moral contra banqueiros, rentistas e o sistema financeiro. Quando o escândalo envolve um banco, um banqueiro e contratos bilionários com ramificações dentro do próprio governo, o que surge é silêncio. O moralismo desaparece quando o cheque vem do lado certo.

E aqui o caso atinge seu ponto mais grave. Reportagens indicam a existência de contrato de R$ 129 milhões ligado ao escritório da esposa do ministro Alexandre de Moraes, com previsão de atuação junto ao Banco Central, à Receita Federal, ao Congresso Nacional e ao Poder Judiciário. Em português sem eufemismo: o que está descrito é uma estrutura de influência institucional com recibo, valor e escopo definidos. Lobby tem registro. Isso tem contrato e zero transparência.

A dimensão financeira agrava o problema. O debate sobre o rombo potencial do Banco Master e o efeito dominó que sua liquidação provocaria no sistema financeiro envolve cifras que transformam o caso em questão de Estado. A disputa institucional entre órgãos de controle sobre como tratar o problema revela que a rede já opera dentro do Estado, e os órgãos de controle disputam entre si a melhor forma de administrar o dano político, enquanto o interesse público permanece como retórica de cobertura.

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Alguém tentará a velha saída da falsa equivalência: o cunhado de Vorcaro fez doações eleitorais a Bolsonaro, portanto todos são iguais. Redes de poder podem ser transversais. Isso é trivialmente verdadeiro. Mas o ponto decisivo permanece intocado: quem governa hoje é quem tem a caneta, o acesso, a proteção e a capacidade de converter instituições públicas em escudo privado. Dizer que “todo mundo é igual” funciona como última trincheira retórica de quem já perdeu o argumento.

O Brasil tem um problema de ocupação. Quando contratos, valores, encontros não agendados e blindagens institucionais se repetem com a mesma lógica e os mesmos atores, a conclusão se impõe a qualquer observador intelectualmente honesto. A rede usa o Estado como infraestrutura. E o símbolo final dessa captura é simples e brutal: a toga.

O cidadão comum ainda acredita que existe independência entre os poderes porque a liturgia permanece intacta. Toga, plenário, jargão processual, votos longos, ar solene. Liturgia é figurino. Se a rede financia, a rede orienta. Se a rede protege, a lei se torna ornamento. O que o caso Banco Master expõe é uma democracia encenada, um sistema em que as formas institucionais continuam funcionando com perfeição cerimonial enquanto o conteúdo dessas instituições foi substituído por uma lógica de proteção mútua entre poder político, poder econômico e poder judiciário.

Olavo de Carvalho chamava isso de inversão da realidade: quando o sistema inteiro opera para que a aparência contradiga a substância e a substância se torne indizível. O caso Banco Master é uma radiografia.

Marcos Paulo Candeloro é graduado em História (USP), pós-graduado em Ciências Políticas (Columbia University – EUA) e especialista em Gestão Pública Inovativa (UFSCAR).

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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