A opção histórica do Brasil em adotar um modelo de crescimento econômico financiado com poupança externa (déficits na balança comercial ou transações correntes) após 1971 é uma das explicações do pífio crescimento de 2,6% ao ano os últimos vinte anos e 3,3% ao ano nos últimos dez. A atual crise financeira e o aumento de risco e incerteza nos fluxos de capitais têm gerado um intenso debate sobre a conveniência e mesmo a sustentabilidade desta estratégia de desenvolvimento.
Embora este modelo de financiamento tenha funcionado bem nos primeiros 30 anos gerando um crescimento médio próximo a 7% ao ano entre 1950-80, ele foi incapaz de garantir o crescimento sustentado após 1980 por conta de suas contradições internas e mudança no sistema financeiro mundial após 1971. Mesmo durante o período de industrialização, várias vezes o crescimento foi abortado pela necessidade de se ajustar o balanço de pagamento. A permanência e racionalidade desta estratégia durante todo este tempo está teoricamente assentada numa visão contábil de muitos economistas e membros da elite brasileira que usam o truísmo de que para haver investimento é necessário primeiro haver poupança, teoria gestada nas décadas de 1940 e 50 pela expansão do conhecido modelo de crescimento de Harrod e Domar (HD). Nesse modelo, o crescimento exige importações que geram déficits comerciais. Estes só podem ser financiados com recursos (poupança) externos. Desde então, a dependência financeira do exterior enraizou-se na academia e na esfera política.
O problema do crescimento com poupança externa é que o esquema exige no longo prazo um câmbio valorizado que barateie a importação de bens de capital e ao mesmo tempo evite o aumento do passivo externo em moeda nacional. Um efeito colateral deste câmbio valorizado é desviar a demanda interna para fora do país o que acaba neutralizando uma parte do crescimento ao mesmo tempo em que inviabiliza exportações e agrava a situação do balanço de pagamentos. Incapaz de sustentar os déficits por muito tempo o país incorre inevitavelmente em crises externas, com maxidesvalorizações e inflação cambial. Para evitar especulações as autoridades locais veem-se forçada a elevar os juros atraindo capital especulativo na tentativa de equilibrar momentaneamente o balanço de pagamentos. A política monetária restritiva adiciona novo efeito colateral que bloqueia o crescimento econômico. Tudo resulta em volatilidade cambial, erraticidade e contradições irresolvíveis no processo de crescimento.
Passados mais de 50 anos este modelo está bastante desacreditado, por três motivos. O primeiro é que a complexidade do crescimento é muito maior do que o modelo inicialmente supunha. Inovação e instituições são variáveis importantes. Ademais a principal fonte de crescimento de longo prazo é o aumento de produtividade. O Brasil viveu até os anos 1970s o mesmo processo que Robert Solow observou nos EUA quando calculou que 2/3 do crescimento até os anos 1950 poderia ser explicado pelo progresso tecnológico. O segundo são inúmeros estudos econométricos recentes demonstrando que não existe correlação nem relação de causalidade entre poupança externa e investimento ou crescimento. O terceiro é dado pela macroeconomia moderna com a demonstração de que o sistema bancário e o crédito criam endogenamente moeda e a poupança necessária para financiar os investimentos.
E há um quarto motivo, novo e estratégico. O uso de poupança externa é anacrônico quando se olha para o sistema financeiro mundial. Com o fim do sistema regulado de Bretton Woods, em 1971, o câmbio passou de fixo a flutuante e as finanças se descolaram do lado real da economia, estimulando arbitragens com diferenciais de juros e câmbio. A remoção de barreiras à mobilidade do capital e a desregulação mundial propiciou uma explosão de novos esquemas de valorização do capital financeiro. O resultado foi que os sismógrafos registraram tremores financeiros mais frequentes e aumento da instabilidade financeira em praticamente todos os países. O economista Barry Eichegreen encontrou evidências de mais de 120 crises cambiais entre a década de 70 e a primeira década deste milênio. Os países mais expostos foram exatamente aqueles que adotaram modelos de crescimento com poupança externa combinada com câmbio valorizado e déficits em transações correntes, como o Brasil.
As elites e a classe política precisam se atualizar. Se o Brasil persistir na dependência de poupança externa poderá se tornar presa fácil da abundância de capital de países superavitários e da nova divisão mundial da riqueza, em busca não mais de comércio, mas de novas fontes de lucros. O século 21 será uma batalha pelo controle de lucros locais que possibilitem remessas eternas de lucros via balança de rendas. O Brasil já tem um índice de desnacionalização do capital de aproximadamente 25%, um dos maiores do mundo. Para quanto nos permitiremos ir no século 21?
Fábio Dória Scatolin (scatolin@ufpr.br) e João Basilio Pereima Neto (joaobasilio@ufpr.br) são professores de Economia da UFPR.







