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O verdadeiro ódio antidemocrático

  • Gabriel Ferreira
 
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No fim de seu escrito póstumo sobre erística – a arte de debater –, o filósofo alemão Schopenhauer, relembrando o grego Aristóteles e citando o francês Voltaire, já advertia sobre os danos de se discutir com sujeitos claramente desleais, já que, por ser o homem mau, às vezes o que importa é a vitória a qualquer preço e, portanto, é melhor poupar-se, já que “a paz vale mais do que a verdade”. Mas o que se tem visto ultimamente é uma curiosa retorsão desse aforismo.

A expressão “discurso de ódio” é a tradução literal da locução inglesa “hate speech” . A expressão nasceu para fazer referência a um tipo específico de ataque verbal que consistia na ofensa racial, religiosa, quanto à opção sexual e afins. Se o termo já foi criado com intenções duvidosas, não desejo discuti-lo aqui. Mas que se possa ser violento ou incitar à violência por meio de discursos ou proposições, ninguém o nega. A partir daí, legislações pelo mundo foram alteradas para dar conta adequadamente desse tipo de ofensa. Até aí, tudo vai bem. Entretanto, é importante perceber que a expressão tinha como referente não um aspecto formal, mas um tipo específico de conteúdo. A palavra “ódio”, aqui, não diz respeito ao modo como tal discurso é proferido – se aos gritos espumosos ou com a veia do pescoço a saltar –, mas ao teor que, em si, é odiento. Pouco importa se a injúria é proferida suavemente, mas sim que ela seja materialmente uma ostensiva e hostil discriminação de pessoas.

É absolutamente fundamental relembrar tais coisas porque tanto a expressão “discurso de ódio” quanto o próprio ódio, pura e simplesmente, têm estado nas bocas e penas dos jornalistas, comentaristas políticos e militantes país afora. Todavia, numa situação completamente diversa e com uma intenção obviamente menos nobre do que tornar evidente uma violência. Trata-se, antes, da tentativa – ela mesma violenta – de tornar reprovável algo que essencialmente não o é e não o deve jamais ser.

O ódio tornou-se a chave de leitura de grande parte dos eventos das últimas semanas. É ele que tem sido arrolado como explicação disso ou daquilo. Mas o propósito por detrás do seu uso, ao rotular tal ação ou fala como carregada de ódio “como nunca antes na história deste país”, não é denunciar uma crueldade, e sim o de selar uma posição como inválida de saída e, ao mesmo tempo, tocar na sensibilidade do leitor ou ouvinte, fazendo com que o conteúdo não precise nem mesmo ser compreendido, analisado ou refutado, já que tal ato ou proposição está “carregado de ódio” e, bem, longe de nós querermos parecer raivosos e irracionais. Do que não se dá conta, no entanto, é que afastar-se da bestialidade consiste justamente em ser capaz de razoavelmente distinguir a fala do falante, a forma da matéria, e lidar com essa última como o objeto da razão.

A estratégia perniciosa de marcar a ferro uma posição como “de ódio” tem servido, antes de mais nada, para calar o contraditório e sepultar a mera possibilidade de discordâncias já no seu nascimento. E, não rara e casualmente, tal procedimento é usado exatamente por quem se declara, cheio de pruridos, incondicionalmente democrático. No século 20, Nicolás Gómez Dávila escreveu que o homem culto tem o dever de ser intolerante. Ele se referia, claro, ao fato de que o homem dado à razão não deveria tolerar quaisquer teses ou expedientes enganadores. Nestes tempos sombrios, o brilhante filósofo colombiano seria perseguido por discurso de ódio e elitismo. Gabriel Ferreira é mestre em Filosofia pela PUC-SP e doutorando em Filosofia pela Unisinos.

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