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Em língua inglesa, há uma expressão – “o elefante na sala” – que se refere a algo tão grande e perigoso que não pode ser mencionado mesmo quando sua presença é óbvia. A propensão de alguns muçulmanos a praticar atos de violência com motivação religiosa é um desses elefantes. O papa Bento XVI, em seu famoso discurso de Ratisbona, em 2006, deu nome ao elefante. Houve revolta e protestos; uma freira foi morta em um ato de retaliação.

O tema principal da conferência, chamada “Fé, razão e a universidade”, não era o Islã, mas a separação entre fé e razão na vida intelectual. A palestra era tanto uma crítica ao liberalismo kantiano quanto uma crítica ao Islã. A observação feita por Bento XVI era a de que ambos, o liberalismo e o Islamismo, têm em comum um certo “voluntarismo”. Para os liberais, a vontade individual, ainda que irracional, é soberana; para os muçulmanos, a vontade de Alá é soberana e também não precisa ser, em nenhum sentido, racional.

A cultura ocidental, ao perder suas raízes trinitárias, começa a parecer insana

A conferência do papa era um pedido aos acadêmicos para que vissem a relação entre fé e razão como simbióticas. A fé precisa ser racional e a razão precisa estar aberta a uma iluminação pela fé. Surgem problemas sociais quando essa relação simbiótica se quebra.

Mais recentemente, o cardeal Robert Sarah classificou o terrorismo islâmico e o secularismo como os dois maiores problemas do mundo. Ele os chamou de “bestas do Apocalipse”. Um vem do Oriente Médio, o outro é produto europeu.

O secularismo ocidental é um projeto para colher os frutos do cristianismo, mas sem Cristo. Os secularistas querem bens como tolerância, paz, caridade, misericórdia e perdão, mas tudo isso sem a correspondente crença na Trindade, sem as virtudes teológicas da fé, esperança e caridade, e sem a graça.

A cultura ocidental, ao perder suas raízes trinitárias, começa a parecer insana. As pessoas sofrem de todo tipo de problemas de identidade, dos mais triviais até a escolha social contemporânea entre mais de 50 “gêneros” diferentes, para um norte-americano, ou 70, para um britânico. Membros de outras religiões, não apenas os muçulmanos, olham para essa cultura e suas reações vão da pena ao desprezo. Enquanto isso, para usar a frase do escritor norte-americano Anthony Esolen, a Igreja Católica é como um dragão que ronca, adormecido no meio de seus tesouros.

Após o atentado, o arcebispo de Paris exortou os católicos a rezar pelas vítimas e suas famílias, e celebrou uma missa em memória deles. Os sinos da catedral soaram pelos mortos. Mesmo assim, foi uma reação muito branda. Não houve uma súplica para que a filha mais velha da Igreja lembrasse a verdadeira fonte de sua honra e dignidade, e se recompusesse antes que seja tarde demais.

O voluntarismo ocidental encontrou o voluntarismo islâmico nas ruas de Paris. Dessas duas forças, o voluntarismo islâmico é mais forte porque seus jovens estão preparados para morrer por ele. Mas ambos têm medo da razão.

A maior esperança da França é a de que o dragão adormecido acorde. Bento XVI foi perseguido por tentar acordá-lo e por sugerir que a fé seja banhada pela razão.

Tracey Rowland, decana do Instituto João Paulo II para o Matrimônio e a Família, em Melbourne (Austrália), é autora de A fé de Ratzinger e membro da Comissão Teológica Internacional. Tradução: Marcio Antonio Campos.
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