A araucária é a árvore-símbolo do Paraná. Pertencente à Mata Atlântica, até a década de 1970 foi a matéria-prima mais importante do setor madeireiro no país. Como resultado dessa exploração comercial, restam apenas 3% das florestas que abrigam essa espécie ameaçada de extinção.

Aos poucos, a araucária retoma seu papel de símbolo, porém o ressignifica. Antes, era força e resistência, já que essa espécie de 200 milhões de anos enfrentou drásticas mudanças climáticas, se espalhando por metade do território do Paraná e alimentando, com seus frutos, animais e humanos. Hoje, a árvore simboliza o descompromisso do governo do Paraná e órgãos de fiscalização com a conservação e proteção desse patrimônio natural.

A Mata Atlântica é o bioma predominante no Paraná, presente em 99% de sua área. Restam 11,7% da vegetação original – um pouco menos de 2,3 milhões de hectares (ha). De acordo com os dados do Atlas dos Remanescentes Florestais da Mata Atlântica divulgados em maio deste ano, o desmatamento voltou a avançar no estado, e com força – saltou de 921 ha de florestas nativas desmatadas entre 2013 e 2014 para 1.988 ha no último período: aumento de 116%. E um dado ainda mais preocupante: do total devastado, 1.777 ha (89%) ocorreram em regiões de florestas com araucária.

A sociedade não admite mais que o desmatamento de nossas florestas seja o preço a pagar pela geração de riqueza

Criado em 1985, o monitoramento realizado pela Fundação SOS Mata Atlântica em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) permitiu, nesta edição, quantificar o desmatamento acumulado em alguns estados nesses 30 anos. O Paraná lidera este ranking, com 456.514 ha desmatados, área que equivale aproximadamente a 11 cidades de Curitiba. O motivo: o estado sempre criou resistência à Lei da Mata Atlântica (Lei 11.428/2006) e continua a promover sistematicamente subterfúgios para não aplicá-la, o que fica evidente nas licenças de corte que continuam a ser emitidas e também no apoio recente do governo à alteração do Código Florestal e à aprovação de uma lei estadual que possibilita a perda de áreas naturais hoje protegidas.

Importante destacar que o Paraná, assim como os outros 16 estados do bioma, é um dos signatários da carta “Nova história para a Mata Atlântica”, na qual as secretarias estaduais de Meio Ambiente assumiram, em maio de 2015, o compromisso de investir em restauração florestal e alcançar o desmatamento ilegal zero até 2018. Passado o primeiro ano do pacto, os dados apresentados pelo Atlas não apenas frustram a expectativa de já assistirmos aos primeiros passos da erradicação do desmatamento, como apontam o quanto ainda precisa ser feito para que essas metas se tornem uma realidade.

A Mata Atlântica que ainda resta em pé deve ser vista como um ativo econômico cada vez mais importante para estados e municípios. A prestação de serviços que vão da polinização à conservação da água e à estabilidade dos solos também faz da floresta uma importante aliada da agropecuária, atividade da qual ainda dependem muitos de seus estados, como o Paraná. E o bioma, o mais próximo dos grandes centros urbanos, traz ainda uma série de oportunidades para o ecoturismo, um potencial ainda pouco aproveitado no país.

Só quando a agenda ambiental estiver no centro das decisões políticas, sociais e econômicas da gestão pública é que daremos um passo estratégico para que nosso país se desenvolva de forma sustentável. Como aponta a carta “Nova história para a Mata Atlântica”, a sociedade não admite mais que o desmatamento de nossas florestas seja o preço a pagar pela geração de riqueza. E o governo paranaense precisa ouvir esse recado: Paraná, pare de desmatar a Mata Atlântica!

Marcia Hirota e Mario Mantovani são, respectivamente, diretora-executiva e diretor de Políticas Públicas da Fundação SOS Mata Atlântica.
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