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Como a perda de confiança nas instituições comprometeu o futuro do Brasil

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A história oferece inúmeros exemplos de sociedades que experimentaram declínio institucional antes do declínio econômico. Primeiro, a confiança diminui. Depois, talentos buscam ambientes mais previsíveis. O capital procura mercados mais seguros. Os investimentos recuam (Foto: Marcello Casal Jr/Agência Bras)

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O Brasil discute inflação, juros, crescimento econômico e eleições. Mas talvez esteja ignorando um problema mais profundo: a lenta erosão da confiança nas instituições. Peter Drucker provavelmente diria que este é o verdadeiro “futuro que já aconteceu”.

Drucker costumava afirmar que não acreditava em previsões. Preferia identificar mudanças que já estavam em curso, mas cujas consequências ainda não haviam sido plenamente compreendidas. Foi assim que antecipou muitas das transformações do século XX. Em vez de se concentrar nas manchetes do dia, observava tendências estruturais capazes de moldar a sociedade, a economia e a política. Se aplicarmos essa lente ao Brasil contemporâneo, surge uma pergunta inevitável: qual mudança já ocorreu e ainda não compreendemos totalmente?

Uma possível resposta está na crescente perda de confiança nas instituições. Escândalos de corrupção recorrentes, acusações de lawfare, percepção de seletividade na aplicação da lei e crescente polarização política produziram algo potencialmente mais grave do que qualquer crise econômica: a dúvida sobre a imparcialidade das instituições que sustentam a democracia e o Estado de Direito.

Drucker nunca foi um pensador partidário. Seu foco estava na qualidade das instituições e na responsabilidade dos líderes. Para ele, a integridade não era apenas uma virtude desejável; era a base sobre a qual organizações eficazes e sociedades prósperas são construídas.

A história oferece inúmeros exemplos de sociedades que experimentaram declínio institucional antes do declínio econômico. Primeiro, a confiança diminui. Depois, talentos buscam ambientes mais previsíveis. O capital procura mercados mais seguros. Os investimentos recuam

Sob essa ótica, o desafio brasileiro vai muito além da disputa entre direita e esquerda. A questão central é saber se os cidadãos continuam acreditando que as regras são aplicadas de forma consistente e que ninguém está acima da lei.

A história mostra que países conseguem sobreviver a recessões, crises fiscais, inflação elevada e até escândalos de corrupção. Muito mais difícil é recuperar a confiança quando ela se deteriora. Quando uma parcela significativa da população passa a desconfiar das instituições, o problema deixa de ser político e passa a ser estrutural.

Drucker enfatizava que toda organização depende da confiança para funcionar. A autoridade pode ser conferida pela lei. A legitimidade, porém, depende da percepção pública de justiça e imparcialidade. Sem ela, as instituições preservam seus poderes formais, mas perdem gradualmente sua capacidade de unir a sociedade. Essa não é apenas uma questão moral. É também uma questão econômica.

Investidores aplicam recursos onde acreditam que os contratos serão respeitados. Empreendedores assumem riscos quando confiam na estabilidade das regras. Profissionais qualificados permanecem onde existe previsibilidade jurídica. A confiança reduz incertezas e estimula investimentos. Sua ausência produz exatamente o efeito contrário.

A história oferece inúmeros exemplos de sociedades que experimentaram declínio institucional antes do declínio econômico. Primeiro, a confiança diminui. Depois, talentos buscam ambientes mais previsíveis. O capital procura mercados mais seguros. Os investimentos recuam. Somente mais tarde os efeitos econômicos tornam-se visíveis para todos. Essa sequência levanta uma pergunta desconfortável: será que parte do futuro do Brasil já aconteceu?

Muitos brasileiros responderiam que sim. Apontariam não apenas os escândalos de corrupção que marcaram as últimas décadas, mas também a crescente percepção de que padrões éticos e jurídicos nem sempre são aplicados de forma uniforme.

Drucker provavelmente levaria essa preocupação muito a sério. Ele compreendia que as instituições refletem, em última instância, os valores daqueles que as lideram. Nenhuma sociedade consegue preservar indefinidamente a confiança pública quando seus cidadãos passam a acreditar que a responsabilização depende mais de conveniências políticas do que de princípios.

É por isso que a questão da liderança continua fundamental. Embora instituições sólidas devam resistir a maus governantes, a história demonstra que lideranças inadequadas podem enfraquecer, ao longo do tempo, até mesmo estruturas antes consideradas robustas.

Isso não significa que o destino do Brasil esteja traçado. Drucker desconfiava de previsões fatalistas. Mas também sabia que as sociedades prosperam quando confiança institucional, liderança ética, liberdade econômica e responsabilidade pública se reforçam mutuamente.

Talvez o verdadeiro futuro que já aconteceu no Brasil seja justamente a lenta erosão - ou a possível reconstrução - da confiança institucional. As consequências políticas virão depois. As econômicas também. Mas os sinais já estão diante de nós.

Drucker provavelmente recomendaria ignorar, por alguns instantes, o ruído das manchetes e formular uma pergunta mais simples: quais mudanças fundamentais já ocorreram e ainda não compreendemos plenamente? A resposta pode revelar muito mais sobre o futuro do Brasil do que qualquer projeção econômica, pesquisa eleitoral ou disputa ideológica.

Marcilio R. Machado é doutor em Administração de Empresas pela Nova Southeastern University, mestre em Administração pela Claremont Graduate University e CEO da Famex Importadora e Exportadora Ltda.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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