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Há uma semana, o mais recente Relatório sobre Liberdade Religiosa no Mundo (RLFW), elaborado pela Ajuda à Igreja que Sofre, foi apresentado em Madri. Ele já havia sido lançado em Barcelona no fim de outubro. O panorama traçado pelo documento não é nada animador: embora a situação tenha melhorado em alguns países nos últimos dois anos, houve piora significativa em diversas regiões da África, além de grande parte do Oriente Médio e da América Latina. Os cristãos continuam sendo, de longe, os mais perseguidos.
Esse grito de alerta não passou despercebido no Vaticano. O próprio Papa Leão XIV, que recebeu uma cópia do relatório em outubro de 2025, ressaltou que o direito à liberdade religiosa não é opcional, mas essencial à dignidade humana. Em sua recente mensagem Urbi et Orbi, o pontífice mencionou a África Subsaariana, citando países como Nigéria e Burkina Faso.
Por que a liberdade religiosa é sistematicamente violada em grande parte do mundo, sob o olhar indiferente do Ocidente?
Para Marcela Szymanski, especialista no tema e integrante da comissão de redação do relatório, nos países mais hostis à liberdade religiosa “o Estado de Direito é quase um conto de fadas”. Ela explica que, em muitos casos, os dispositivos legais que deveriam proteger a fé não passam de uma “fachada” — leis escritas que nunca são aplicadas, enquanto a população não tem acesso efetivo à Justiça. Atualmente, 64,7% da população mundial — cerca de 5,4 bilhões de pessoas — vivem em países onde esse direito fundamental é violado.
Durante a apresentação do relatório em Barcelona, José Fernández Crespo, chefe do departamento jurídico da Ajuda à Igreja que Sofre (ACN), afirmou que “ano após ano, o cenário se torna cada vez mais negativo” para todas as religiões. Ainda assim, os cristãos são os mais afetados: “Quase 400 milhões de pessoas em todo o mundo enfrentam níveis altos ou extremos de discriminação, violência e opressão por causa de sua fé em Cristo”.
Nigéria: o epicentro de uma provação silenciada
A Nigéria é atualmente o país onde os cristãos mais sofrem perseguição. De acordo com dados da Lista Mundial da Perseguição 2026 — que relaciona anualmente os 50 países onde seguir a Cristo representa maior risco —, 4.849 cristãos foram mortos por causa da fé no último período analisado. Desses, 3.490 casos ocorreram na Nigéria.
Segundo o Observatório da Liberdade Religiosa na África, entre 2019 e 2023 a probabilidade de um cristão ser assassinado no continente foi 6,5 vezes maior do que a de um muçulmano
A situação na chamada “Cinturão Médio” do país é especialmente grave. De acordo com Szymanski, há um processo de limpeza territorial com o objetivo de impor a lei islâmica (sharia) em regiões onde até 95% da população é cristã. “Cerca de metade do país é cristã e a outra metade, muçulmana”, explica a especialista. “No entanto, quando o presidente e o vice-presidente, ambos muçulmanos, assumiram o poder, decidiram aproximar a Nigéria da Organização da Cooperação Islâmica. Desde então, há uma pressão constante pela islamização do país.”
A principal ameaça vem do terrorismo jihadista, especialmente de grupos como milícias de pastores fulani armados — responsáveis por 55% dos assassinatos de cristãos — além do Boko Haram e do Estado Islâmico da Província da África Ocidental (ISWAP), cujo objetivo declarado é impor uma ideologia islâmica radical.
Cristãos de outros países africanos também enfrentam esse flagelo. Dados do Observatório da Liberdade Religiosa na África (ORFA), referentes ao período de 2019 a 2023, mostram que, entre os civis mortos, 16.769 eram cristãos, contra 6.235 muçulmanos. Proporcionalmente à população, os cristãos tiveram 6,5 vezes mais probabilidade de serem mortos do que seus vizinhos muçulmanos.

Esses números representam vidas interrompidas precocemente. São histórias como a do padre Bobbo Paschal, sequestrado após um ataque em que seu irmão foi assassinado antes de ele ser levado como refém. Ou o drama dos 265 alunos da Escola Santa Maria, em Papiri, sequestrados no fim de novembro e libertados um mês depois.
A religião sob ataque por gerar comunidade
A perseguição religiosa nem sempre decorre de explosões irracionais de fanatismo. Em muitos casos, segue um padrão identificável, que se repete com impressionante semelhança em diferentes países e contextos. Como resumiu Szymanski na apresentação do relatório: “Para controlar um território, é preciso desmantelar a comunidade que o habita”.
Esse processo costuma começar de forma discreta. Primeiro, tenta-se cooptar líderes sociais e religiosos, integrando-os à estrutura de poder ou neutralizando sua capacidade crítica. Quando isso não funciona, a estratégia se torna mais agressiva: eles são eliminados por meio de perseguição judicial, ameaças ou violência direta. Não se trata apenas de silenciar uma voz incômoda, mas de romper os laços que sustentam uma comunidade.
Em Burkina Faso, esse padrão tornou-se evidente. Nos últimos anos, dezenas de padres, catequistas e líderes comunitários foram assassinados ou forçados a fugir. As paróquias funcionavam não apenas como locais de culto, mas como centros de coesão social, educação e apoio mútuo. Sem essas lideranças, comunidades inteiras ficaram desestruturadas e vulneráveis ao controle de grupos armados.
O testemunho de Mathieu Sawadogo, vencedor do Prêmio Internacional de Liberdade Religiosa de 2025, simboliza essa resistência. Sequestrado junto com sua esposa grávida, recusou-se a se converter ao islã. Em sua cela, rezou 700 Ave-Marias em uma única noite, contando as orações com pedrinhas. Após a libertação, soube que o filho que esperavam havia morrido durante o cativeiro. Ainda assim, afirma: “Não posso deixar de proclamar a Palavra de Deus”.
O relatório observa que mecanismos semelhantes, ainda que com formas distintas, também aparecem fora da África. Em países como Nicarágua, Cuba e Venezuela, a pressão sobre comunidades religiosas ocorre por meio de perseguição institucional, assédio judicial e controle social. O objetivo é limitar sua capacidade de organização autônoma e enfraquecer redes de solidariedade independentes do poder político.
No México, a perseguição assume contornos econômicos e ligados ao crime organizado. Padres tornam-se obstáculos porque oferecem refúgio, educação e esperança aos jovens, enfraquecendo o recrutamento criminoso. Não por acaso, o México está entre os países com maior número de assassinatos de sacerdotes, como nos casos dos padres Marcelo Pérez e Bertoldo, vítimas da mesma lógica: eliminar o líder para desarticular a comunidade.
A violência abre caminho para o domínio territorial. O controle econômico o consolida. E a população deslocada raramente consegue retornar
Não se trata apenas de perseguição religiosa em sentido estrito. É também uma disputa por controle social, na qual a religião se torna obstáculo justamente por fortalecer laços comunitários, memória e resistência. Onde há uma comunidade organizada, o autoritarismo encontra limites — e por isso tenta destruí-los.
O preço do progresso: minerais raros e terras “limpas”
Para compreender por que a violência se concentra em determinadas regiões africanas, é preciso olhar também para o mapa dos recursos naturais.
Na região central da Nigéria, muitas aldeias atacadas situam-se em terras férteis e corredores agrícolas estratégicos. Quando uma comunidade é expulsa, a terra fica disponível — e rapidamente é ocupada.
O mesmo padrão se repete em Burkina Faso e Mali, em áreas ricas em ouro e fosfatos. Na República Democrática do Congo, deslocamentos em massa ocorrem em regiões com grandes reservas de cobalto e coltan, minerais essenciais para a indústria tecnológica global. Em Moçambique, a violência em Cabo Delgado coincide com o interesse crescente por gás natural e pedras preciosas.
Segundo Szymanski, há uma dinâmica perversa: para explorar jazidas em áreas habitadas, é preciso antes “limpar” o território. Grupos armados e jihadistas realizam ataques brutais, espalham terror e provocam êxodos em massa. A violência abre caminho; o controle econômico consolida a ocupação.
Uma “surdez seletiva”
“A União Europeia tem regulamentações rigorosas sobre responsabilidade ética, mas essa supervisão muitas vezes termina exatamente onde começa o terrorista que matou pessoas”, observa Szymanski.
A conexão entre conflito e exploração de recursos impõe uma questão incômoda à comunidade internacional. Muitos dos minerais extraídos nessas regiões abastecem cadeias globais das quais dependem economias inteiras. A prioridade costuma ser garantir o fornecimento estável dessas matérias-primas — mesmo que isso implique ignorar violações sistemáticas de direitos humanos. É o que a especialista chama de “surdez seletiva”.
Não se trata necessariamente de conspiração, mas de uma lógica de interesses. E, nessa lógica, comunidades locais — com suas escolas, paróquias e redes de solidariedade — tornam-se descartáveis.
Diante desse cenário, organizações como a Ajuda à Igreja que Sofre defendem uma pressão moral constante da comunidade internacional. Não basta emitir declarações formais; é preciso recusar a naturalização do deslocamento de comunidades inteiras em nome do progresso ou da estabilidade econômica.
Enquanto estas linhas são lidas, em algum ponto da Nigéria ou de Burkina Faso, uma família cristã decide permanecer fiel à sua fé mesmo sob ameaça. Não desviar o olhar é, hoje, o mínimo de responsabilidade compartilhada.
©2026 Aceprensa. Publicado com permissão. Original em espanhol: Ataques a la libertad religiosa en el mundo: fanatismo, pero también ansia de poder y de dinero



