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Por que a estatística sempre foi uma forma de poder

Por trás de cada ferramenta estatística que usamos hoje – do coeficiente de correlação ao teste de hipótese – há uma mente que se recusou a aceitar o mundo como ele é. (Foto: Imagem criada utilizando Open AI/Gazeta do Povo)

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Em 1854, Florence Nightingale chegou a um hospital militar britânico na Crimeia e encontrou o caos. Soldados morriam em ritmo industrial – não de ferimentos de guerra, mas de infecções evitáveis, de sujeira, de descaso administrativo. Ela poderia ter escrito um relato comovente. Poderia ter apelado à consciência moral dos generais e ministros. Escolheu outro caminho: pegou os números.

Construiu gráficos de uma clareza brutal – hoje chamaríamos de visualização de dados – e mostrou, mês a mês, que a mortalidade despencava onde havia higiene e subia onde havia negligência. O governo britânico não tinha como argumentar contra. Os dados eram irrefutáveis. As reformas vieram.

Florence Nightingale não ficou na história por ser enfermeira. Ficou porque entendeu, avant la lettre, que dados bem usados são um instrumento político. Em 1858, tornou-se a primeira mulher eleita membro da Associação Inglesa de Estatística – numa época em que mulheres mal tinham acesso às universidades.

Esse episódio, aparentemente restrito à história da medicina, diz algo profundo sobre o que a estatística sempre foi: não uma ciência fria de planilhas e gráficos sem rosto, mas uma linguagem para quem precisa convencer o poder com aquilo que ele não pode negar – a realidade. Por trás de cada ferramenta estatística que usamos hoje – do coeficiente de correlação ao teste de hipótese – há uma mente que se recusou a aceitar o mundo como ele é.

Não faltam dados no Brasil. Faltam leitores de dados. Faltam gestores dispostos a ser constrangidos por evidências, como Florence Nightingale constrangeu o governo britânico em 1854

Carl Friedrich Gauss nasceu em 1777 no interior da Alemanha, filho de pais analfabetos. Era tão precocemente dotado que a escola não sabia o que fazer com ele. Aos 24 anos, desenvolveu a Distribuição Normal – aquela curva em forma de sino que hoje usamos para modelar altura, erros de medição, desempenho escolar, comportamento de mercados. Gauss não estava pensando em aplicações práticas. Estava tentando entender a estrutura do erro humano na observação do mundo. O resultado foi uma das descobertas mais versáteis da história da ciência.

Blaise Pascal chegou antes. No século XVII, aos 16 anos, já escrevia tratados matemáticos que surpreendiam os maiores cientistas da França. Aos 19, construiu uma calculadora mecânica para poupar o pai do trabalho de contador. E foi num contexto improvável – os jogos de azar – que ele e Pierre de Fermat lançaram as bases da teoria das probabilidades. Sem esse trabalho, não há estatística moderna. Sem estatística moderna, não há pesquisa clínica, não há sondagem eleitoral, não há controle de qualidade industrial, não há inteligência artificial.

Karl Pearson fundou, no final do século XIX, o primeiro departamento universitário de estatística do mundo. Desenvolveu o coeficiente de correlação – aquele número entre -1 e 1 que mede o quanto duas variáveis andam juntas – e o teste Qui-Quadrado, que introduziu o conceito de p-valor na ciência. Ferramentas que qualquer pesquisador, em qualquer área, ainda usa diariamente.

Ronald Fisher completou a revolução. Tão míope que resolvia equações complexas mentalmente, sem papel, Fisher criou a análise de variância, o planejamento experimental e o método da máxima verossimilhança. É considerado, ao lado de Pearson, o pai da estatística moderna. Suas contribuições permitiram que a ciência deixasse de depender de intuições geniais isoladas e passasse a ter métodos rigorosos para separar o sinal do ruído.

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Num país onde debates sobre educação, saúde e política pública são travados crescentemente à base de achismo, de anedota e de negacionismo seletivo, o Dia do Estatístico – celebrado em 29 de maio – deveria ser uma data de reflexão coletiva.

Não faltam dados no Brasil. Faltam leitores de dados. Faltam gestores dispostos a ser constrangidos por evidências, como Florence Nightingale constrangeu o governo britânico em 1854. Faltam educadores que ensinem estatística não como sequência de fórmulas a memorizar, mas como o que ela sempre foi: uma forma de pensar sobre incerteza, sobre causalidade, sobre o que podemos afirmar com honestidade e o que estamos apenas supondo.

Os gênios que construíram essa ciência não eram tecnocratas sem alma. Eram pessoas com perguntas urgentes sobre o mundo e com a disciplina intelectual para buscar respostas que resistissem ao escrutínio. Nesse sentido, a estatística tem mais em comum com a filosofia do que aparenta. Ambas começam no mesmo lugar: na recusa de aceitar a aparência como verdade.

Lílian Schreiner-Módolo é doutora e mestra em Administração pela Universidade de São Paulo, com pós em Docência do Ensino Superior pela Laureate e graduação em Design Industrial pela UFAM. Cursa Psicologia. É sócia-fundadora da Editora Arcádia. Em breve, muda-se para a Itália, onde pretende se dedicar à neurociência.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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