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O eleitor tem um hábito inconveniente: contrariar os especialistas. Durante meses, analistas calculam alianças, anunciam tendências e tentam antecipar as escolhas de milhões de cidadãos. Quando as urnas frustram as previsões das pesquisas, surgem explicações retrospectivas, muitas vezes apresentadas com a segurança de quem conhecia o resultado desde o início.
Entre as expectativas dos observadores e as decisões dos eleitores permanece uma distância que nenhuma pesquisa consegue eliminar inteiramente. O primeiro turno presidencial de 2026 tornou essa limitação especialmente evidente.
Segundo os resultados divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em 5 de outubro, com 99,99% das urnas apuradas, Flávio Bolsonaro recebeu 56.104.268 votos (47,03% dos válidos), enquanto Luiz Inácio Lula da Silva conquistou 53.876.617 (45,16%).
Na reta final da campanha, os levantamentos indicavam em sua maioria empate técnico, com margem de erro declarada de dois pontos percentuais. A apuração inverteu a posição dos candidatos e registrou para Flávio Bolsonaro um percentual superior às estimativas centrais. A diferença merece investigação cuidadosa, capaz de identificar tanto as limitações das pesquisas quanto possíveis mudanças nas escolhas dos eleitores.
Pesquisas eleitorais são instrumentos importantes para conhecer a opinião pública. Oferecem estimativas de preferências declaradas em determinado momento, sujeitas às incertezas da amostragem e da coleta de dados. Entre a entrevista e a urna entram em cena o comparecimento, a mobilização das campanhas e as decisões de última hora.
A democracia reserva aos analistas uma inconveniência permanente: os cidadãos conservam a liberdade de contrariar expectativas. Pesquisas registram intenções, eleições contabilizam votos
A inversão observada em 2026, embora os levantamentos indicassem empate técnico, é insuficiente para demonstrar um erro estatístico. Explicar diferenças entre sondagens e votação exige identificar suas causas, em vez de escolhê-las conforme a conveniência das conclusões.
A comparação com 2022 exige cautela semelhante. Naquele primeiro turno, segundo os resultados oficiais do TSE, Lula obteve 48,43% dos votos válidos, contra 43,20% de Jair Bolsonaro. Em 2026, Lula recebeu percentual inferior ao registrado quatro anos antes, enquanto Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno à frente.
Seria tentador transformar essa mudança numa história de eleitores que abandonaram um candidato para abraçar seu adversário. O concorrente de Lula mudou, novos cidadãos ingressaram no eleitorado e as circunstâncias políticas se alteraram. Comparar resultados é relativamente simples; descobrir quem mudou de opinião exige informações adicionais.
O mapa eleitoral acrescenta uma dificuldade. O resultado nacional reúne metrópoles, cidades médias e pequenos municípios, cada qual com características particulares. Percentuais semelhantes podem corresponder a quantidades muito diferentes de votos.
A mudança da candidatura majoritária em determinado município revela uma alteração no resultado eleitoral, mas pouco esclarece sobre quais cidadãos modificaram suas escolhas. As estatísticas municipais, isoladamente, são incapazes de oferecer essa resposta.
A abstenção acrescenta um elemento importante à análise. No primeiro turno de 2022, segundo o TSE, aproximadamente 32,77 milhões de eleitores ficaram ausentes, equivalentes a 20,95% do eleitorado. Em 2026, foram cerca de 33,4 milhões, ou 21,08%, conforme dados do TSE divulgados pela Agência Brasil.
A diferença de 0,13 ponto percentual indica taxas nacionais muito próximas. Esses números oferecem pouco respaldo à hipótese de que um crescimento generalizado da abstenção explique as mudanças no resultado presidencial. Resta investigar onde os eleitores faltaram e como a distribuição territorial das ausências pode ter afetado cada candidatura. Os totais nacionais, isoladamente, são insuficientes para esclarecer esse aspecto.
O segundo turno apresenta uma particularidade histórica. Desde 1989, nas sete eleições presidenciais decididas em duas votações, o candidato que liderou a primeira venceu a segunda. Em 1994 e 1998, Fernando Henrique Cardoso foi eleito diretamente no primeiro turno. Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno de 2026 à frente de Lula. A sequência histórica, entretanto, descreve resultados anteriores, sem determinar o desfecho da eleição.
O comportamento dos eleitores permanece sujeito a mudanças. Votantes de candidaturas eliminadas poderão escolher um dos finalistas, votar em branco, anular o voto ou permanecer ausentes. Participantes do primeiro turno podem reconsiderar suas escolhas.
Apoios partidários e acontecimentos de campanha influenciam decisões, mas nenhum dirigente dispõe antecipadamente dos votos de seus seguidores. Declarar apoio a um candidato é uma decisão política; convencer os eleitores a fazer o mesmo constitui tarefa bem diferente.
A democracia reserva aos analistas uma inconveniência permanente: os cidadãos conservam a liberdade de contrariar expectativas. Pesquisas registram intenções, eleições contabilizam votos e a Ciência Política procura explicar o que aconteceu.
A dificuldade começa quando as evidências são convocadas somente para confirmar certezas anteriores. Nessa hora, a análise corre o risco de se transformar numa previsão retrospectiva, especialidade em que o acerto costuma chegar depois do resultado.
As urnas têm a última palavra sobre o resultado. Sobre suas causas, a palavra pertence às evidências.
Carlos Henrique Gileno é professor de Ciência Política da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Araraquara, e doutor em Ciências Sociais pela Unicamp.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos



