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Por que liberalismo e conservadorismo modernos vivem em guerra

Liberalismo e conservadorismo espelham vícios, trocam prudência por poder e, sem transcendência, tornam liberdade e ordem em coerção. (Foto: Imagem criada utilizando Chatgpt/Gazeta do Povo)

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As democracias ocidentais modernas vivem um estado de guerra civil moral entre o liberalismo e o conservadorismo modernos. Nenhum dos lados consegue vencer, pois cada um se tornou um reflexo distorcido do outro. Liberalismo e conservadorismo, outrora polos complementares em um universo moral compartilhado, agora espelham e amplificam os vícios um do outro.

Os liberais acusam os conservadores de intolerância e repressão; os conservadores acusam os liberais de relativismo e tirania. Cada um está certo quanto à patologia do outro e cego para a forma como sua própria lógica moral gera o mesmo vício em sentido inverso.

A crise não é meramente política, mas metafísica. Ambos separaram bens parciais — liberdade e ordem — da participação no bem transcendente que os fundamenta. Separados desse todo, cada um se torna uma privação daquilo que originalmente buscava servir: a vontade de liberdade do liberalismo torna-se coercitiva, enquanto a vontade de ordem do conservadorismo torna-se rebelde.

O paternalismo oculto do liberalismo

Como Locke argumentou no início de seu Primeiro Tratado sobre o Governo Civil, o liberalismo surgiu como uma revolta contra o paternalismo — a Igreja ditando crenças, o patriarca dirigindo a consciência, o Estado impondo virtudes.

A nova visão liberal de governo prometia liberdade por meio da neutralidade: o Estado protegeria a escolha, não prescreveria fins. Contudo, como Tocqueville previu no segundo volume de A Democracia na América (Parte IV, capítulo 6), os liberais desejam ser livres e, ao mesmo tempo, buscam ser guiados. O que começou como libertação transforma-se em tutela.

A ordem liberal atual exige obediência em nome da segurança e da compaixão: “Você deve afirmar”, poderíamos dizer, “ou alguém pode ser prejudicado”. Burocracias de inclusão, como o Departamento de Educação dos EUA, formam um aparato moral que policia a consciência por meio de virtudes artificiais, como a conformidade confundida com justiça, a compaixão sentimental sem prudência, a tolerância sem busca pela verdade e a autenticidade entendida como autoexpressão divorciada da realidade metafísica. A autonomia torna-se uma performance controlada; o antigo confessionário ressurge como um seminário sobre diversidade.

Por trás desse paternalismo moral reside uma substituição metafísica: sem um télos natural, o Estado assume o papel da providência. A administração substitui o propósito. Explicamos a dor e a injustiça dizendo “o sistema vai resolver”, em vez de questionarmos problemas morais ou espirituais mais profundos — confiando que a história se encaminhará para a justiça por meio da razão administrativa. Mas a compaixão, dissociada da transcendência, torna-se sentimentalismo coercitivo, exigindo obediência à autonomia como um bem supremo em si mesma.

A rebelião do conservadorismo contra seus próprios princípios

O conservadorismo, por sua vez, trai a si mesmo ao se rebelar contra a própria ordem que alega defender. O herói conservador clássico era o estadista disciplinado (Cícero, Burke, Montesquieu); o moderno é o populista desafiador (Donald Trump, Nigel Farage, Viktor Orbán), o transgressor que “diz as coisas como elas são”.

A autenticidade substitui a prudência; a paixão suplanta a razão. A paciência e a firmeza do conservadorismo transformam-se em indignação; seu realismo moral, em relativismo seletivo

Quando a lei reprime os inimigos, é justiça; quando reprime os aliados, é “guerra jurídica”. E o movimento passa a se sustentar por meio de um complexo de mártir — uma identidade de queixa que espelha a própria política de vitimização da esquerda. Assim, o partido da ordem define-se pela rebelião, e o partido da autoridade, pelo ressentimento.

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Diagnóstico de Girard: rivalidade mimética e o bode expiatório

A teoria da rivalidade mimética de René Girard esclarece essa dinâmica. Nela, os rivais imitam os desejos e os métodos uns dos outros até se tornarem indistinguíveis, cada qual definindo-se pela negação do outro.

O liberalismo impõe a conformidade em nome da diversidade; o conservadorismo celebra a transgressão em nome da ordem (ver, por exemplo, a obra de Girard Battling to the End). A reação de cada lado justifica o medo do outro, produzindo uma espiral de imitação recíproca.

O mecanismo do bode expiatório funciona da seguinte forma: toda comunidade expulsa os hereges para preservar sua identidade — o liberal cancela o “intolerante”; o conservador, o “RINO” (Republican In Name Only). Tais expulsões geram apenas uma unidade temporária, pois a verdadeira desordem não é dissipada pelo bode expiatório; ela permanece dentro da comunidade.

Por exemplo, imagine líderes do Partido Democrata marginalizando o deputado Dan Lipinski ou o senador Bob Casey porque suas posições pró-vida entravam em conflito com a definição do partido do aborto como um direito da mulher. Ou imagine o presidente Trump intimidando Marjorie Taylor Greene para que deixasse o Congresso ou fazendo campanha contra Thomas Massie por apresentar petições de obstrução indesejadas — o que em nada resolve as questões levantadas por Greene e Massie. Nesses casos, como em muitos outros, a busca por bodes expiatórios simplesmente intimida as pessoas, impedindo-as de falar abertamente ou de resolver problemas que continuam latentes.

A metafísica da privação

Por trás desses conflitos superficiais reside a metafísica da privação. O mal, ensina Tomás de Aquino na Suma Teológica, não possui existência real, mas é a ausência ou distorção do bem. De modo semelhante, os vícios da nossa política são corrupções de virtudes genuínas: o sentimentalismo é compaixão desvinculada da prudência, por exemplo. Subjacente a ambos esses vícios políticos está uma concepção distorcida de liberdade, separada da verdade; a ordem torna-se dominação quando dissociada do amor.

Para Tomás de Aquino, a verdadeira liberdade não é a capacidade de escolher indiferentemente, mas a perfeição do movimento em direção ao bem. Uma vontade não guiada pela verdade é poder cego. A verdadeira ordem, por sua vez, é a participação na sabedoria divina, não a posse do bem por uma única facção.

Quando o conservadorismo absolutiza a ordem como sua propriedade, repete o erro liberal em sentido inverso: substitui a razão pela vontade coletiva. Ambos, portanto, reduzem a política à força, em vez da prudência.

Objeções liberais e seus pontos cegos

Os liberais podem objetar que tal análise impõe uma metafísica única a uma sociedade pluralista. Contudo, o próprio pluralismo é uma afirmação metafísica: a alegação de que não pode existir um bem comum pressupõe o voluntarismo — a supremacia da vontade sobre a razão.

Os regimes liberais não se abstêm da metafísica; impõem a sua própria, definindo a dignidade como autocriação autônoma. O verdadeiro pluralismo exige uma participação compartilhada na verdade, não a sua negação. Silenciar a metafísica não é neutralidade, mas dogma dissimulado.

A segunda objeção liberal — de que rejeitar a neutralidade abre caminho para a teocracia — confunde moderação com negação. A cura para a má metafísica não é a ausência de metafísica, mas a boa metafísica: o reconhecimento de uma verdade transcendente que limita todo o poder. Na concepção de Tomás de Aquino, a lei natural vincula tanto governantes quanto súditos; ela fundamenta os direitos na natureza humana, não no Estado.

Outra crítica liberal sustenta que a harmonia pré-moderna à qual os tomistas apelam nunca existiu. É verdade que a cristandade medieval experimentou muita violência e injustiça. A reivindicação não é por nostalgia histórica, mas por um retorno ao realismo filosófico: a metafísica clássica apreendeu verdades duradouras sobre o ser e a bondade que a modernidade ignora por sua própria conta e risco. O progresso material não garante avanço moral ou metafísico; uma sociedade pode ser materialmente próspera e, ainda assim, moralmente empobrecida.

A objeção pragmática — “sua cura é politicamente impossível” — confunde viabilidade com verdade. A política não pode curar o que a filosofia nega. A renovação começa não pelo voto da maioria, mas pelo testemunho: pequenas comunidades recuperando a gramática da participação no bem. Rejeitar essa tarefa como impraticável é aceitar uma patologia permanente.

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Objeções conservadoras

As objeções conservadoras espelham as liberais. As primeiras alegam assimetria: o liberalismo detém o poder, enquanto o conservadorismo apenas se defende. Contudo, a análise moral não segue diferenças de poder. O vício continua sendo vício, seja praticado por governantes, seja por opositores. Uma tradição que se define pela oposição abandona a forma da própria tradição; substituir a razão pela vontade, mesmo em defesa, é aderir ao voluntarismo que ela combate.

Quando os conservadores falam em “derrotar” em vez de converter, aceitam a política como guerra, não como um movimento racional em direção ao bem comum. O grito de que “o erro não tem direitos” reduz uma verdade sutil — a falsidade não tem direito à verdade — a uma negação da dignidade humana.

Tomás de Aquino ensina que mesmo uma consciência errônea obriga; portanto, a cura de uma consciência errônea por meio da persuasão, e não da coerção, é o caminho da verdade. A vontade de vencer pode conquistar instituições, mas perder a alma, perpetuando a própria guerra civil que se busca encerrar.

Uma segunda crítica conservadora — que acusa essa análise de “racionalismo liberal” — confunde razão com ideologia. O argumento racional não é uma invenção liberal, mas a vocação universal do intelecto humano: participar da lei eterna por meio do conhecimento e do julgamento do que é verdadeiro e bom.

Raciocinar não é adotar um método partidário, mas exercer a capacidade natural do intelecto de buscar a ordem. Rejeitar a razão como ideológica é, portanto, abandonar a participação na própria lei natural e ceder espaço ao relativismo — a mesma desordem metafísica que o conservadorismo outrora buscou combater.

A chamada réplica realista — “política é guerra, não diálogo” — confunde o aspecto material com o aspecto formal da política. Poder e conflito pertencem à política materialmente, mas seu fim formal é o bem comum, ordenado pela razão. Reduzir a política à vontade é fazê-la deixar de ser política por completo.

Por fim, o conservador pragmático exige políticas. Contudo, políticas sem metafísica são cegas. Nenhuma reforma perdurará se não partir de uma compreensão correta da pessoa e do bem comum.

Educação orientada para a virtude, direito orientado para a razão, economia orientada para o florescimento humano — tudo isso decorre apenas de princípios fundamentais renovados. Cultura e política fluem da metafísica; sem conversão de mentalidade, toda política permanece provisória.

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Recuperando a gramática da participação

O caminho a seguir, portanto, não é o compromisso nem a conquista, mas a correção metafísica: uma recuperação do ser como participação — na qual a existência, a inteligibilidade e a bondade são recebidas de uma fonte que transcende a vontade, e não produzidas pelo poder absoluto ou por decisões majoritárias.

A liberdade deve ser novamente compreendida como participação na verdade, não como escolha indeterminada; a ordem, como participação no amor, não como controle. O bem comum não é autonomia coletiva nem uniformidade, mas uma apreciação compartilhada dos maiores bens — o florescimento humano, a ordem moral, a verdade na caridade e a vida eterna.

Tal ordem harmoniza a diferença sem dissolvê-la, porque a caridade, como forma das virtudes, não apaga as operações e os objetos distintos das demais virtudes, mas os aperfeiçoa, ordenando-os a um único fim último — o amor a Deus —, unificando assim a vida moral por meio da causalidade final, e não da uniformidade.

Para restaurar a sanidade na política, é preciso primeiro recuperar a contemplação — a capacidade de ver o ser como uma dádiva inteligível, e não como material para manipulação egoísta.

Tal contemplação não é observação passiva, mas uma reorientação moral e intelectual da pessoa em relação à realidade como ela é, sendo, portanto, o início da conversão. Somente a partir dessa conversão contemplativa a compaixão do liberalismo poderá ser purificada em misericórdia, e a fidelidade do conservadorismo poderá ser ordenada em direção à justiça.

A percepção de Girard encontra aqui sua plenitude: a rivalidade termina não com a vitória, mas com a conversão — um desvio do desejo da competição mimética para o bem enquanto bem.

O Evangelho desmascara o mecanismo do bode expiatório ao revelar a inocência da vítima; o tomismo estende essa mesma lógica à própria ontologia, mostrando que o ser não é rival porque o bem é autodifusivo. Participar do bem, portanto, não é apoderar-se nem dominar, mas receber e compartilhar.

A paz como tranquilidade da ordem

A paz, escreve Tomás de Aquino, é “a tranquilidade da ordem”. Não é a cessação da luta, mas a harmonia dos amores corretamente ordenados. Nossa civilização não recuperará a paz enquanto não resgatar essa visão analógica: a liberdade iluminada pela verdade, a ordem animada pela caridade, a política ancorada na metafísica.

As tradições liberal e conservadora poderão novamente servir a essa paz superior se renunciarem à lógica do poder em favor da lógica da participação. Caso contrário, permanecerão prisioneiras do espelho, condenando umas às outras aquilo que se recusam a curar em si mesmas.

Para pôr fim às guerras de espelhos, devemos voltar-nos para a luz que elas refletem — o bem transcendente no qual a liberdade e a ordem, a verdade e o amor encontram sua unidade. Só então a rivalidade mimética da política moderna poderá dar lugar à reciprocidade, e a gramática do ser poderá restaurar aquilo que a ideologia desfez.

©2026 The Public Discourse. Publicado com permissão. Original em inglês: Why Are Conservatism and Modern Liberalism at War?

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