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Há um desejo profundamente humano que atravessa quase todas as nossas relações: o desejo de ser compreendido. Queremos que nossos pais entendam nossas escolhas. Que nosso cônjuge conheça nossas intenções. Que um irmão escute nossa versão da história. Que os amigos percebam nossas boas intenções. Que o chefe reconheça nosso esforço. Que os colegas saibam que não agimos por mal. Que um vizinho não nos julgue por uma única situação.
Sem perceber, vamos construindo uma lista silenciosa de condições para finalmente encontrar paz: "Preciso que meu pai me compreenda", "Preciso que minha sogra conheça minha versão", "Preciso que meus amigos reconheçam minhas intenções", "Preciso que meu chefe perceba quem eu realmente sou".
À primeira vista, esses desejos parecem legítimos. E, de fato, são. Todos nós gostaríamos de ser vistos com justiça. O problema começa quando transformamos esse desejo em uma necessidade. Quando acreditamos que só poderemos seguir em frente depois que alguém nos ouvir. Só conseguiremos dormir em paz depois que reconhecerem nosso esforço. Só teremos valor quando a nossa reputação for restaurada. Nesse momento, entregamos algo inestimável: a chave da nossa paz interior.
Viktor Frankl, psiquiatra austríaco e fundador da Logoterapia, sobreviveu aos campos de concentração nazistas e dedicou sua vida a compreender o que ninguém podia retirar de um ser humano. A resposta de Frankl não foi o conforto, a segurança ou o reconhecimento. Foi a liberdade interior.
Talvez o sentido da vida não esteja em convencer todos ao nosso redor de que somos bons, corretos ou justos. Talvez esteja em continuar sendo. Continuar agindo com honestidade, mesmo quando ninguém percebe. Continuar escolhendo a verdade, mesmo quando ela não produz aplausos
Frankl defendia que, entre aquilo que nos acontece e a maneira como respondemos, existe um espaço. E é nesse espaço que residem nossa liberdade e nossa responsabilidade. Essa ideia parece simples no dia a dia, mas muda completamente a forma como encaramos os conflitos.
Porque, muitas vezes, gastamos anos tentando controlar aquilo que nunca esteve sob nosso controle: a interpretação que os outros fazem de nós. Podemos explicar. Podemos pedir desculpas quando erramos. Podemos esclarecer um mal-entendido. Podemos agir com honestidade. Mas não podemos obrigar alguém a escutar. Nem garantir que, ouvindo, mudará de opinião.
Há pessoas que não nos compreenderão porque receberam informações incompletas. Outras porque vivem momentos difíceis. Algumas porque enxergam o mundo por lentes muito diferentes das nossas. Haverá aquelas que já construíram uma narrativa sobre quem somos e não desejam revê-la. E haverá aquelas que simplesmente não desejam rever a história que construíram. É doloroso reconhecer isso. Mas também é libertador.
Porque a pergunta deixa de ser "Como faço para que essa pessoa finalmente me compreenda?" e passa a ser "Quem escolho ser quando essa pessoa decide não me compreender?". Essa talvez seja uma das perguntas mais difíceis da vida adulta. Quem sou quando minha intenção é interpretada da pior maneira? Quem sou quando um gesto de cuidado é recebido como ofensa? Quem sou quando meu silêncio é visto como arrogância e minha explicação como justificativa? Ou quando meu silêncio é visto como distração e minha explicação como soberba? Quem sou quando descubro que algumas pessoas já decidiram quem eu sou, independentemente do que eu faça?
É nesse ponto que a reflexão de Frankl ganha força. Talvez o sentido da vida não esteja em convencer todos ao nosso redor de que somos bons, corretos ou justos. Talvez esteja em continuar sendo. Continuar agindo com honestidade, mesmo quando ninguém percebe. Continuar tratando os outros com respeito, mesmo quando somos mal interpretados. Continuar escolhendo a verdade, mesmo quando ela não produz aplausos.
Porque o nosso caráter não pode depender da aprovação de quem nos observa. Se depender, deixará de ser caráter para se tornar negociação. Ser compreendido continuará sendo um desejo legítimo. Mas não pode ser a condição para que reconheçamos o nosso próprio valor.
Há uma liberdade extraordinária em perceber que nem toda história terá um desfecho satisfatório. Nem toda amizade será restaurada. Nem toda injustiça será corrigida. Nem toda conversa acontecerá. Ainda assim, podemos decidir quem seremos diante dessas ausências.
Talvez a vida esteja menos interessada em responder às nossas perguntas do que em nos fazer uma. Não nos perguntarmos "Por que isso aconteceu comigo?", mas "Quem você escolhe ser quando não pode controlar a resposta do outro?". É nessa resposta – e não na aprovação alheia – que mora uma das formas mais profundas de liberdade.
Lílian Schreiner-Módolo é doutora e mestra em Administração pela Universidade de São Paulo, com pós-graduação em Docência do Ensino Superior (Laureate) e graduação em Design Industrial pela UFAM. Sócia-fundadora da Editora Arcádia. Jornalista, membro da Mensa Itália, escritora e autora de "O Jugo da Histeria no Brasil Ocupado" (2021), "Teddy Roosevelt para Crianças" (2022), "Glossário da Superdotação" (2024) e "A Escola que Não Viu: Como 46 visitas revelaram o que falta nas escolas brasileiras para incluir alunos superdotados".
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos



