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Por que o Acordo UE-Mercosul será decidido nas fábricas

(Foto: Imagem criada utilizando Open AI/Gazeta do Povo)

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Por mais de duas décadas, o acordo entre a União Europeia e o Mercosul foi tratado prioritariamente como um tema diplomático. Tarifas, cronogramas, cotas e posicionamentos políticos dominaram o debate público. À medida que o acordo avança para sua fase de implementação, torna-se necessário deslocar o olhar para além da esfera institucional e observar onde seus efeitos se materializam de fato.

Os números são expressivos. Com o acordo entre a União Europeia e o Mercosul em vigor a partir do mês de maio de 2026, 54,3% dos produtos negociados – mais de cinco mil itens – passaram a ter imposto zerado na União Europeia, e 82,7% das exportações brasileiras para o bloco entraram sem tarifa desde o primeiro dia de vigência. Além disso, a UE foi, em 2025, o segundo principal destino do agronegócio brasileiro, absorvendo US$ 25,2 bilhões. O potencial é real. O que não está garantido é a capacidade de aproveitá-lo.

Ao deslocar o debate do plano exclusivamente macroeconômico, o acordo do Mercosul com a União Europeia passa a ser compreendido como um teste de capacidade industrial, que exige preparo, disciplina e visão de longo prazo

A redução tarifária melhora a competitividade de preço, mas não a sustenta. Um equipamento industrial ou um produto alimentício pode ganhar vantagem em termos de custo e perdê-la na primeira auditoria por falha de rastreabilidade, documentação incompleta ou inconsistência de processo entre lotes.

Isso porque o mercado europeu opera sob um dos arcabouços regulatórios mais exigentes do mundo. Requisitos de segurança, rastreabilidade, controle de processo e auditorias independentes não são diferenciais competitivos, são condições de entrada. Para exportar com consistência, é preciso ter o processo documentado, os parâmetros críticos monitorados, os fornecedores alinhados e as equipes preparadas para auditorias técnicas mais frequentes e rigorosas do que as praticadas no mercado doméstico.

No debate público, competitividade costuma ser tratada como consequência natural da abertura comercial. No ambiente industrial, é resultado de disciplina operacional e consistência de processos. Empresas que já operam segundo padrões internacionais tendem a absorver as exigências com mais facilidade. Outras precisarão avançar na organização de processos, na governança técnica e na padronização, especialmente as com menor preparo nessas frentes.

Setores em crescimento acelerado ilustram esse desafio com clareza. O mercado brasileiro de suplementos alimentares, por exemplo, cresceu 15% em 2025 e deve atingir R$ 13,8 bilhões até 2030. O Brasil já é o terceiro mercado que mais cresce no mundo nesse segmento, com projeção de crescimento de 9,5% ao ano entre 2026 e 2036. Esse crescimento, no entanto, vem acompanhado de maior rigor regulatório.

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A distância entre a intenção de exportar e a capacidade real de fazê-lo, especialmente para mercados regulatoriamente mais exigentes, é definida por processos bem estruturados, aderência a normas reconhecidas internacionalmente e evidências técnicas que passem pelo crivo de autoridades, órgãos independentes e compradores. O acordo entre a União Europeia e o Mercosul, nesse sentido, atua como um acelerador: não cria fragilidades, mas expõe diferenças de maturidade industrial já existentes.

Países que transformaram acordos comerciais em ganhos estruturais compreenderam esse ponto: investiram na modernização de suas fábricas, no desenvolvimento de pessoas e em sistemas capazes de sustentar padrões elevados ao longo do tempo. Onde essa preparação não ocorreu, os benefícios da abertura foram limitados ou temporários.

Ao deslocar o debate do plano exclusivamente macroeconômico, o acordo do Mercosul com a União Europeia passa a ser compreendido como um teste de capacidade industrial, que exige preparo, disciplina e visão de longo prazo. A questão central agora é outra: até que ponto a indústria brasileira está preparada para operar sob padrões cada vez mais exigentes? A resposta a essa pergunta será construída diariamente no chão de fábrica.

Fabiane Zanoti é engenheira de alimentos e pós-graduada em Gestão da Qualidade de Alimentos.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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