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Os debates políticos deste país costumam ser marcados por discursos sobre democracia, participação popular e representatividade da população ou de causas específicas. Entretanto, basta observar a composição atual dos parlamentos, das prefeituras e dos espaços centrais de decisão para perceber uma contradição evidente.
O Brasil real, formado majoritariamente por trabalhadores, moradores da periferia, do interior, longe dos grandes centros, pessoas negras e famílias de baixa renda, continua distante do poder político institucional. Eles votam, sustentam campanhas, incentivam a comunidade, movimentam a economia informal e suportam as maiores consequências das crises nacionais, mas raramente ocupam as cadeiras onde as decisões são tomadas.
Existe, no imaginário político, uma visão profundamente preconceituosa sobre essa população. Frequentemente, os moradores das comunidades distantes dos grandes centros são tratados como "massa de manobra", como se lhes faltassem desejo, consciência política ou capacidade crítica para ocupar esses espaços.
Curiosamente, essa acusação quase nunca é direcionada aos setores mais ricos da sociedade, mesmo quando estes mantêm, há décadas, estruturas de influência hereditária, controle partidário e domínio econômico sobre campanhas eleitorais. O problema, portanto, não é a manipulação política em si, pois ela existe em todas as classes sociais, mas quem possui legitimidade para exercê-la e quem é impedido de disputar poder.
Quando apenas determinados grupos econômicos e familiares conseguem disputar eleições em condições competitivas, o sistema político deixa de representar o país e passa a representar apenas interesses de setores historicamente privilegiados
A política brasileira ainda opera, em muitos aspectos, sob uma lógica aristocrática disfarçada de democracia. Sobrenomes tradicionais atravessam gerações ocupando cargos públicos, enquanto filhos, netos e aliados de figuras influentes encontram facilidade para acessar partidos, recursos financeiros e exposição midiática.
Em contrapartida, candidatos fora desses nichos enfrentam obstáculos quase intransponíveis, como a ausência de financiamento, a baixa estrutura partidária, o acesso limitado ao fundo eleitoral, a invisibilidade na imprensa e a resistência interna dentro dos próprios partidos políticos.
Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), embora pessoas negras e pardas representem a maioria da população brasileira, sua presença nos espaços de poder ainda é proporcionalmente inferior, sobretudo em cargos de maior influência política e econômica. Campanhas eleitorais continuam fortemente dependentes de capital financeiro, fator que favorece empresários, celebridades e famílias politicamente tradicionais. A democracia brasileira permite candidaturas populares, mas o sistema eleitoral, na prática, favorece quem já nasce próximo do poder.
É claro que isso não significa afirmar que todo candidato rico seja incapaz ou ilegítimo. Seria intelectualmente desonesto transformar uma crítica estrutural em simplificação ideológica. Muitos políticos oriundos das classes altas possuem formação técnica, experiência administrativa e capacidade de articulação institucional importantes para o funcionamento do Estado. Da mesma forma, nem todo candidato da periferia está automaticamente comprometido com a transformação social. A origem social, por si só, não define caráter, competência ou honestidade.
Talvez a maior contradição brasileira seja justamente esta: o país em que os pobres são considerados "massa de manobra" é o mesmo que impede essa massa de ocupar os espaços onde o poder realmente é decidido
Ainda assim, ignorar o desequilíbrio estrutural entre quem nasce próximo do poder e quem não o é e precisa lutar até para ser ouvido seria negar a própria realidade. Um jovem de fora dos nichos de poder que deseja disputar uma eleição frequentemente precisa enfrentar dificuldades financeiras, preconceito e falta de conexões políticas muito antes de apresentar suas propostas à população. Enquanto isso, determinados grupos políticos já iniciam campanhas com apoio empresarial, influência familiar e presença consolidada nos meios de comunicação.
A consequência desse modelo é visível nas prioridades do próprio Estado. O Brasil convive com áreas onde ainda faltam saneamento básico, mobilidade urbana eficiente, segurança pública adequada e acesso digno à educação, enquanto regiões centrais recebem investimentos contínuos em infraestrutura e valorização urbana.
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), milhões de brasileiros ainda vivem sem acesso pleno a serviços básicos, realidade concentrada principalmente fora dos grandes centros urbanos. Não se trata apenas de desigualdade econômica, mas de desigualdade política, pois os locais menos representados são justamente os que menos recebem atenção estrutural.
Há também um aspecto simbólico profundamente perverso nessa dinâmica. Quando alguém de fora dos nichos políticos tradicionais ocupam espaços políticos, frequentemente precisam provar sua competência em dobro para serem aceitos. Seus erros são tratados como incapacidade, enquanto falhas de políticos tradicionais costumam ser relativizadas como "crises" ou "desgastes naturais". O preconceito social transforma exceções em regra, conforme a classe social do indivíduo analisado. Fato.
Ao mesmo tempo, é necessário reconhecer que a ascensão política de representantes periféricos também pode trazer riscos quando associada apenas ao discurso identitário vazio ou à exploração emocional da pobreza. Há setores que utilizam a origem humilde como estratégia de marketing eleitoral. Mesmo vivendo em grandes centros, tendo acesso a oportunidades e alcançado ascensão social, continuam sem apresentar projetos sólidos de gestão pública. A representatividade é importante, mas perde valor quando não vem acompanhada de preparo técnico, responsabilidade institucional e compromisso real com políticas públicas duradouras.
O grande desafio da democracia brasileira não está em substituir uma elite por outra, mas em romper o monopólio histórico do acesso ao poder. Uma democracia saudável exige pluralidade social dentro das instituições. Exige que o Congresso Nacional, as assembleias legislativas e as câmaras municipais reflitam, minimamente, a composição real da população brasileira. Quando apenas determinados grupos econômicos e familiares conseguem disputar eleições em condições competitivas, o sistema político deixa de representar o país e passa a representar apenas interesses de setores historicamente privilegiados.
O problema da periferia nunca foi a ausência de inteligência política. Pelo contrário, poucas parcelas da população compreendem tão bem o peso das decisões públicas quanto aqueles que dependem diariamente do transporte coletivo precário, do SUS sobrecarregado, da escola pública abandonada e da insegurança urbana. A periferia conhece o Estado não pelos regimentos institucionais nem pelos discursos oficiais, mas pela ausência dele.
Talvez a maior contradição brasileira seja justamente esta: o país em que os pobres são considerados "massa de manobra" é o mesmo que impede essa massa de ocupar os espaços onde o poder realmente é decidido. Enquanto isso continuar acontecendo, a democracia brasileira seguirá funcionando parcialmente, representando muitos no discurso, mas poucos na prática.
Victor Barroso Santiago é professor, graduado em Administração e pós-graduado nas áreas de Finanças, Tecnologia, Docência e Gestão de Pessoas.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos



