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Porto Alegre, a cidade onde a ideologia trata crescimento como ameaça

Vista aérea do Parque Harmonia, na capital gaúcha, mostrando ao fundo, parte do delta do Lago Guaíba. Foto: Eduardo Beleske/PMPA (Foto: Eduardo Beleske/PMPA)

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Porto Alegre virou um retrato fiel de um problema que se repete em várias capitais brasileiras: cidades travadas, caras e mal distribuídas. Há infraestrutura, emprego e serviços concentrados em determinadas regiões, mas pouca gente consegue morar onde tudo já está pronto. O resultado é o mesmo de norte a sul do país: deslocamentos longos, trânsito caótico e perda diária de qualidade de vida.

Esse cenário não é fruto do acaso. Ele nasce de regras urbanísticas ultrapassadas, complexas e desconectadas da realidade. Em Porto Alegre, o atual Plano Diretor carrega mais de três décadas de defasagem e uma confusão normativa que dificulta construir, encarece projetos e bloqueia a evolução natural dos bairros. O novo plano propõe algo básico: simplificar regras, organizar o território e permitir que áreas já estruturadas sejam melhor aproveitadas – um debate que deveria ser óbvio em qualquer grande cidade brasileira.

Parte da esquerda brasileira transformou o urbanismo em um campo de resistência ideológica. Qualquer mudança vira ameaça, qualquer modernização vira discurso de medo. Na prática, essa postura mantém cidades menos acessíveis, mais caras e menos funcionais

O impacto disso é direto na vida das pessoas. Em qualquer capital do país, é comum ver trabalhadores sendo empurrados para longe dos centros econômicos por falta de oferta de moradia acessível. O tempo perdido no trânsito não é apenas um problema logístico, é um custo social e econômico. Permitir que mais pessoas vivam perto de onde trabalham reduz deslocamentos, melhora a produtividade e devolve tempo ao cidadão.

Mesmo assim, o debate urbano segue sendo contaminado por uma lógica ideológica que insiste em tratar crescimento como ameaça. Em Porto Alegre, isso aparece na resistência à transformação de bairros consolidados, onde regras rígidas impedem renovação, encarecem terrenos e afastam novas gerações. O que poderia ser evolução planejada vira estagnação. E esse não é um fenômeno isolado: a política urbana de várias cidades brasileiras ainda está presa a uma visão que prefere congelar o espaço urbano a permitir sua adaptação.

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Não se trata de “destruir bairros” ou acabar com áreas verdes, como frequentemente se argumenta. O próprio texto do plano mantém diretrizes ambientais e de preservação. O ponto central é outro: usar melhor o que já existe, em vez de expandir a cidade de forma desordenada e ineficiente. É uma lógica de organização, não de ocupação indiscriminada.

O problema é que parte da esquerda brasileira transformou o urbanismo em um campo de resistência ideológica. Qualquer mudança vira ameaça, qualquer modernização vira discurso de medo. Na prática, essa postura mantém cidades menos acessíveis, mais caras e menos funcionais. É a política do passado aplicada a um problema do presente.

Porto Alegre, hoje, simboliza essa encruzilhada. Mas o debate vai muito além da capital gaúcha. Ele reflete uma escolha que várias cidades do Brasil precisam fazer: continuar presas a modelos ultrapassados ou avançar para uma gestão urbana mais racional, eficiente e conectada com a realidade.

Porque, no fim, a cidade do futuro não é a que cresce por crescer. É a que funciona melhor para quem vive nela.

Julia Zardo é vereadora de Porto Alegre, pelo partido NOVO.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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