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Por que o aumento do preço das corridas não se reflete em melhoria de ganhos para motoristas de app?

Trabalho por aplicativo, STF, vínculo empregatício
Atualmente, mais de 10 mil ações tramitam na Justiça do Trabalho, nas quais se busca o reconhecimento de vínculo empregatício ou indenizações (Foto: Aniele Nascimento/Arquivo/Gazeta do Povo)

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No início de janeiro, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) anunciou que as corridas por aplicativos foram um dos principais vilões da inflação de 2025, acumulando um aumento superior a 56%. Na prática, porém, basta acompanhar grupos de motoristas nas redes sociais ou conversar com quem está ao volante para perceber que essa alta não se traduz em ganhos maiores. Pelo contrário: a sensação predominante é de que se trabalha mais para ganhar o mesmo, ou até menos.

O que explica, então, esse descolamento entre os números do IBGE e a percepção de quem dirige todos os dias? A resposta está no modelo de negócios adotado pelas plataformas multinacionais de mobilidade. Em 2014, quando a Uber realizou sua primeira corrida no Brasil, no Rio de Janeiro, o funcionamento era relativamente simples e transparente. A empresa operava com taxas fixas: o motorista sabia exatamente quanto o passageiro pagava, quanto ficava com a plataforma e quanto entrava no seu bolso. No UberX, a taxa era de 25%; no Uber Black, 20%.

Ao manter uma relação direta entre o que o passageiro paga e o que o motorista ganha, os aplicativos regionais reforçam, na prática, o ideal de parceria tão frequentemente invocado pelas plataformas

Esse modelo, no entanto, mudou radicalmente em julho de 2018. A partir daí, a Uber passou a adotar um sistema de remuneração variável, baseado na distância percorrida e no tempo da corrida, lógica semelhante à dos táxis. Segundo a empresa, o objetivo era dar mais previsibilidade aos ganhos, evitando que motoristas recebessem pouco em trajetos mais longos do que o estimado.

Na época, o então diretor-geral da empresa no Brasil afirmou que a mudança atendia a um pedido dos próprios motoristas. Como o preço das corridas era definido antes do trajeto, eles acabavam não sendo recompensados em situações como congestionamentos ou desvios inesperados. Com o novo modelo, a Uber passou a ficar com uma fatia menor em corridas mais longas do que o planejado e maior em corridas mais curtas, alterando, na prática, a relação entre o valor pago pelo passageiro e o valor recebido por quem dirige. Em resumo, a empresa desindexou quanto o passageiro paga de quanto o motorista recebe.

A Uber afirma, até hoje, que sua taxa média semanal gira em torno de 25%, afirmação contestada por associações e sindicatos de motoristas, que apontam percentuais bem mais elevados em diversas situações. Com isso, o aumento do preço das corridas não se reflete necessariamente em melhoria dos ganhos de quem está ao volante. A lógica é diferente em aplicativos regionais que operam localmente no Brasil.

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Essas empresas costumam adotar dois modelos principais. No primeiro, o motorista paga um valor fixo para trabalhar na plataforma por um período determinado, geralmente uma mensalidade. Nesse caso, todo o valor pago pelos passageiros vai diretamente para o seu bolso. No segundo modelo, o motorista realiza uma recarga no aplicativo, e, a cada corrida realizada, um valor é descontado desse saldo. As taxas podem variar entre uma porcentagem sobre a corrida, como ocorria na Uber no passado, ou uma tarifa fixa por viagem, que também pode mudar de acordo com o tamanho do trajeto.

A grande diferença entre esses modelos está na transparência. Não há um jogo de ajuste invisível da “mordida” da plataforma a cada corrida. O motorista sabe exatamente quanto o passageiro pagou e quanto vai receber por cada viagem.

Além disso, ao manter uma relação direta entre o que o passageiro paga e o que o motorista ganha, os aplicativos regionais reforçam, na prática, o ideal de parceria tão frequentemente invocado pelas plataformas. Afinal, se o passageiro paga mais, empresa e motoristas ganham mais, de forma clara, previsível e compartilhada.

Vinícius Guahy é coordenador de conteúdo e comunidade da Gaudium.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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