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“A aversão à reprodução que domina hoje nossa cultura começa com a rejeição à maternidade. Numa inversão insidiosa, o movimento que nasceu para valorizar a mulher trabalhou para destruir a principal característica que a diferencia do homem”.
“A aversão à reprodução que domina hoje nossa cultura começa com a rejeição à maternidade. Numa inversão insidiosa, o movimento que nasceu para valorizar a mulher trabalhou para destruir a principal característica que a diferencia do homem”.| Foto: Pixabay

Sexualidade e reprodução humana pertencem à mesma categoria? É a reprodução parte intrínseca da sexualidade e vice-versa?  É possível que você não tenha pensado nessas duas coisas juntas há muitos anos. Durante as últimas sete décadas houve um grande esforço grande da academia e do poder público para separar a prática sexual do “incômodo” da reprodução humana.

A aversão à reprodução que domina hoje nossa cultura começa com a rejeição à maternidade. Numa inversão insidiosa, o movimento que nasceu para valorizar a mulher trabalhou para destruir a principal característica que a diferencia do homem. Durante a segunda onda feminista a maternidade passou a ser tratada como um problema. Simone de Beauvoir considerava a família nuclear e as reponsabilidades maternas que ela contém o grande mal que perpetuava a escravidão feminina. Margareth Sanger – outra formadora do movimento, fundadora da organização abortista Planned Parenthood –, além de racista e eugenista, odiava a maternidade em si e a reduzia a uma condição animalesca: “A mulher se acorrentou a seu espaço social na família e às funções naturais da maternidade como um animal à sua prole”. É fácil perceber que ambas as autoras tinham o homem como o ideal. Sua percepção de realização pessoal era a vida sem as “mazelas” físicas que as características reprodutivas da mulher representam. De acordo com esse feminismo, a mulher ideal é aquela que, como o homem, não submete seu corpo à maternidade e pode, portanto, viver sua sexualidade com múltiplos parceiros, livre do peso que a possibilidade de gerar filhos cria.

“Sexualidadismo”

Debaixo dessa ideologia, a sexualidade passa a ser o ato do presente apenas, desvinculando-se de suas possíveis consequências no futuro. Nossa necessidade do prazer agora insiste em eliminar a responsabilidade que temos de ter com suas consequências. Infelizmente, é o depois que nos confere ética. Sem a responsabilidade em relação ao futuro, seja ele metafísico ou imediato, qualquer código moral se esvazia de sentido. O sexo não reprodutivo se afirma, portanto, como uma percepção desprovida de quaisquer amarras éticas.

“Sexualidadismo”, ou “expressionismo sexual”, é o termo para a sexualidade desvinculada de sua função reprodutiva. Cunhado por um professor de Harvard, começou a ser usado mais extensamente nas discussões das políticas públicas americanas na era Obama. O termo define a cultura do erotismo obrigatório que se acampou no Ocidente nos últimos 50-60 anos. O prazer erótico passa a ocupar o lugar antes ocupado por muitos outros aspectos da existência. Até então, a mulher e o homem achavam a sua realização plena numa vida familiar, cuidando da prole que representava o seu futuro, recebendo com naturalidade o passar inexorável do tempo.

A partir dessa revolução sexual o Homo eroticus pretende viver num eterno presente, centralizando a felicidade no prazer físico. Os valores duradouros que afirmavam o passar do tempo e o futuro dão lugar à expressão e satisfação imediata e idiossincrática do desejo.

A persona sexual e o direito humano

O Homo eroticus ocupou o lugar do Homo sapiens. Os modelos sociais que projetam o homem de família, o adorador, o inventor, o trabalhador, dão lugar à entronização da persona sexual. Francis Bacon, Alan Turing, Florence Nightintgale são relevantes hoje não por seus feitos extraordinários, mas por terem supostamente vivido uma vida sexual transgressora.

Homens e mulheres passam a ter a sua “identidade”, como falamos corriqueiramente, definida no universo pela sua maneira específica de obter prazer sexual. E, como esse caminho ao prazer se tornou quase idiossincrático, uma vez que deixou de sofrer uma regulação moral e está sujeito às mais variadas influências psicológicas e físicas, estilhaçamos nossa humanidade num alfabeto de “pessoalidades” LGBTQQIP2SAA+, que continua crescendo. Como nesse pesadelo pós-moderno do qual não conseguimos acordar a felicidade só se concretiza se este prazer é alcançado, o direito à plena expressão da sexualidade se tornou um direito humano essencial e, portanto, o maior crime que se pode cometer é querer “apagar” ou diminuir a persona sexual do outro.

Helen Alvaré, professora de Legislação na Universidade George Mason, uma das porta-vozes mais importantes das consequências sociais do sexualidadismo, afirma que o grande inimigo da expressão cristã na América hoje não é o ateísmo, o secularismo ou o islamismo, mas sim essa ideologia. Ela torna as políticas públicas contra o Cristianismo. A restrição de qualquer comportamento associado com o “direito à felicidade sexual” é hostilizada. Alvaré denuncia o investimento do governo americano, focando políticas públicas desde a era Obama, nessa premissa do “sexualidadismo”, apesar do fato comprovado de que o aumento da licenciosidade sexual não corresponde a um aumento proporcional da felicidade individual. Na verdade, pesquisas apontam para o fato de que as áreas comprovadamente ligadas à felicidade humana são a religião e o relacionamento conjugal estável, o bom e velho casamento monogâmico.

A aversão à reprodução que domina hoje nossa cultura começa com a rejeição à maternidade.

Apesar do fracasso empírico, o governo americano continua expandindo políticas que promovem o “sexualidadismo”. O governo Biden, trabalhando contra a lógica e as estatísticas sociais, continua impondo sobre a população medidas que prejudicam a família tradicional. Durante muitas décadas, o governo americano, junto com muitas outras corporações americanas e europeias, financiou a promoção do aborto em países em desenvolvimento. Helen Alvaré comenta que a razão por trás do investimento ininterrupto em contraceptivos para os países pobres não é apenas o controle populacional, mas o “sexualidadismo” que fomenta a crença na expressão sexual como um direito humano similar ao direito à alimentação e ao abrigo. Este direito não deve ser perturbado por este “problema” que é a concepção. O grande alvo de organizações humanitárias internacionais é dar às mulheres pobres o direito de fornicar tanto quanto os homens sem que tenham de se ocupar do pormenor desagradável de gerar filhos. Educação, segurança alimentar, emancipação econômica, saúde pré-natal? Nada disso é tão importante quanto o direito a fornicar esterilmente. Agora, em um novo desenvolvimento da mesma mentalidade, o gênero escolhido pelo indivíduo sem ligação necessária com o sexo biológico é entronizado como a definição primária de gênero. O dinheiro das grandes organizações já fomenta iniciativas que alimentam a noção plural de gênero em muitos países do mundo.

O fim da expressão individual e da liberdade religiosa

O fim da liberdade religiosa não é visto como um problema para muitos estudiosos.  Não vou argumentar a favor da religião aqui, porque tornaria esse texto num livro. Mas posso apontar uma característica daqueles que usam suas faculdades mentais para desprezar a moral cristã; todos, sem exceção, não abrem mão da sua própria liberdade de consciência. Todos os intelectuais, religiosos ou não, teriam dificuldades de imaginar a vida desprovida do “direito” que supõem ter de viver de acordo com a sua própria consciência. O problema é que, ao jogar fora a liberdade religiosa em nome do expressionismo sexual, não estão rompendo amarras morais impostas pela religião à consciência humana. Nada é ser mais falacioso; na verdade, estão escolhendo outras. Explico: sabemos que liberdade absoluta não existe. Toda liberdade é regulada por fronteiras que a própria realidade nos impõe. Uma dessas fronteiras é o outro. Para que você tenha liberdade total de “determinar” quem você é, eu tenho de perder a minha de “perceber” quem você é. Para que possamos, então, nos relacionar no contexto coletivo que chamamos de sociedade, renunciando à possibilidade de perceber a realidade, é preciso que uma instância superior decifre ou determine para nós o que essa realidade “deve” ser. O que essa “instância superior” disser ser realidade terá de ser obedecido porque não existe sociedade sem ordem social. E, se essa instância superior não for divina, será o Estado.

Concluindo, se a ordem não for um produto da consciência moral gerada pelos “pruridos morais” da religião cristã, terá de ser uma ordem arbitrária imposta pelo Estado e será definida por um grupo pequeno de pessoas que vão ditar as regras para todos. Aplicando tudo isso para a nossa questão de hoje: quando as pessoas têm a “liberdade” de determinar como devem ser vistas por outros porque o que se vê não traduz a persona que ela deseja projetar, todos os outros têm de ser coagidos a aceitar a sua determinação. Uma força coerciva superior tem de se impor à percepção individual, à consciência da realidade. Será o fim da sua consciência individual e não a sua “liberação”.

O Homo eroticus é o começo do processo de redefinição da realidade pelo Estado; afinal, o alicerce de toda filosofia é a antropologia. Mas não vai parar aí.

Braulia Ribeiro é mestre em Linguística, mestre em Divindade pela Yale University e doutoranda em História e Teologia Política na University of St. Andrews (Escócia).

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