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Que tiro foi esse?
| Foto: Cleia Viana/Câmara dos Deputados

Tranquilizo o leitor: não pretendo fazer uma interpretação da canção de Jojo Todynho, mas muitos brasileiros certamente se lembraram do título da música após o “incidente” envolvendo um ex-ministro da Educação.

Milton Ribeiro, para além do seu currículo acadêmico, é também um pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil, cargo do qual, eticamente, deveria ter solicitado a exoneração para ocupar a função pública. Mas isto não aconteceu. Ribeiro simplesmente pediu afastamento, continuando a receber como pastor da denominação e como ministro da Educação.

O simples fato de passar boa parte da sua vida no exercício religioso deveria fazer o ex-ministro estar ciente de que a presença do movimento evangélico em comunidades carentes contribui muito para a diminuição do crime organizado, diminuição da violência, analfabetismo, fome e mortes. Isto pode nos lembrar, por exemplo, que antes de a polícia pacificadora chegar ao Morro Dona Marta, no Rio de Janeiro, em 2008, a área era um dos morros mais perigosos do Brasil. Por que, quando a polícia subiu para tomar a comunidade, não houve uma troca de tiros? Porque a presença das igrejas evangélicas e os projetos sociais ali realizados por estas instituições formataram um ambiente mais pacífico e receptivo para a abordagem do Estado com o controle policial.

Isso nos traz de volta a Milton Ribeiro e o disparo acidental de sua arma de fogo no aeroporto de Brasília. Seria trágico, se não fosse cômico, que o pastor tentasse descarregar uma arma de fogo com a mesma “habilidade” com que lidou com a educação brasileira. Estilhaços da bala atingiram sem gravidade uma funcionária da empresa área Gol. Segundo o pastor, ele ficou “com medo de expor sua arma de fogo publicamente no balcão [afinal, ele é um pastor] e tentou desmuniciá-la dentro da pasta”. Mas o episódio envolvendo o ex-ministro não deixou de ser educativo: mostrou o quanto uma arma, um ministério e uma igreja nas mãos de um sujeito “preparadíssimo” como o pastor-bomba podem representar um perigo fatal.

Dom Orlando Brandes, arcebispo de Aparecida (SP), teve um belo ato de coragem ao afirmar, na presença de Jair Bolsonaro, que Jesus disse: “Amai-vos uns aos outros” e que isso é muito diferente da pregação bolsonarista “armai-vos uns aos outros”. O caso do pastor Milton Ribeiro não é único. Existem inúmeras figuras religiosas que andam, além de armadas, com escolta de segurança. Pastores e padres tentam se proteger de algum mal que possa lhes acometer. Mas a pergunta que fica é: em que lugar da Bíblia isto é recomendável? Onde está a fé dos líderes religiosos que precisam preservar a vida quando, na verdade, o Evangelho nos desafia a correr risco de vida diariamente por nos mantermos ao lado da ética do reino de Jesus e seus valores?

Jesus nunca mandou um discípulo portar uma arma. Discípulos de Jesus carregam sua cruz, jamais uma arma de fogo

O Evangelho de São Mateus nos conta o caso do profeta João Batista, decapitado por falar contra o império, e que não temeu o risco de sua morte. Muito menos fez uso do seu poder de liderança para tentar criar um golpe ou se munir de proteção contra o Estado romano. Ao que tudo indica, estamos sofrendo de uma grande e aguda crise de referência de liderança neste país. Líderes religiosos não morrem mais por terem em suas pautas o combate à violência, desigualdades e injustiças, como ocorreu com o pastor batista Martin Luther King Jr. A liderança religiosa hoje está mais preparada e pronta para apertar o gatilho que mata do que para se lançar na frente da bala. Que tempos difíceis e nebulosos vivemos! As palavras de Mahatma Gandhi hoje fazem ainda mais sentido: “Eu não rejeito seu Cristo. Eu amo seu Cristo. Apenas creio que muitos de vocês, cristãos, são bem diferentes do vosso Cristo”.

Quando olhamos para aquilo que Jesus disse, soa diametralmente oposto ao testemunho pregado por estes representantes. Jesus nunca mandou um discípulo portar uma arma. Discípulos de Jesus carregam sua cruz, jamais uma arma de fogo. Que tiro foi esse, pastor?

Christopher Marques é bacharel e mestre em Teologia, pós-graduado em Ciências da Religião, professor da Faculdade Latino-Americana de Teologia, professor convidado da Faculdade de Medicina Santa Marcelina na área de Espiritualidade, e autor de “Quando a Vontade de Viver Vai Embora”.

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