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Quebra de tradições

Ensino durante a pandemia é novo desafio para professores e alunos (Foto: Bigstock)

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O mundo atravessa hoje uma época de profundas mudanças de paradigma; de transformações radicais no estilo de viver, de conviver e de trabalhar, de falta de encontros presenciais, uma relativa dificuldade em transportar-se de um local para outro, a necessidade de sair um pouco de dentro de si mesmo, de refletir sobre o que constitui nossa humanidade.

Cresce o medo, e com ele a possibilidade de troca desta angústia pelo simples ódio. Há cada vez mais haters na linha do horizonte, cada vez mais pessoas isoladas em tribos de pensamento único, e esta tendência tem ressonância nas concepções de religião, lazer, direitos e até da pessoa – percebida como cada vez mais complexa, a ponto de serem abaladas as noções anteriormente fixas de identidade, construídas por meio de oposições: sou isso porque não sou aquilo, minha cor de pele, de olhos, local de nascimento me diferenciando dos demais.

Estes mecanismos, como o da busca de semelhanças e aproximações, de novos recortes, como aqueles de estilos de consumo, etnias ou até práticas de esportes, de múltiplos pertencimentos e reconhecimentos das várias comunidades, com seus diferentes graus de compromisso mútuo e engajamento, têm acentuado a questão de conseguirmos ver nossos reflexos em determinados grupos, do quanto nos identificamos com certos valores e atitudes, na noção que temos de nossa comunidade dentro do país, apesar dos conceitos daquilo que é social ou cultural estarem sujeitos a contínuas revisões.

Até mesmo nosso senso de religiosidade entra em pauta. Espiritualidades ou radicalismos emergem, com algumas religiões avançando e se sobrepondo a outras, tendendo a se tornarem hegemônicas agora algumas que já vinham crescendo significativamente ao longo dos últimos anos. O Brasil, não faz muito tempo considerado predominantemente um país católico, vai se tornando cada vez mais pentecostal; crescem as chamadas “religiões mundiais”, que atravessam fronteiras e deixam de ser casos de expressões locais de determinadas culturas. No caso do pentecostalismo, a oposição radical entre as figuras de Deus e do diabo pode ser interpretada como manifestações da polaridade social que vemos hoje, o “nós” contra “eles”, “esquerda” contra “direita”, o “bem” contra o “mal”; polaridade que também colabora para o desprestigio da ciência ao opor simples opinião colhida em um grupo contra evidências de estudos científicos.

Essas dualidades parecem funcionar como uma espécie de garantia que nos preserva de culpa – não podemos estar errados se outros pensam como nós – e faz o mundo funcionar de maneira menos complexa, com explicações simples ao alcance de todos.

Estes mundos incomunicáveis criam valores e antivalores, e o cotidiano e as opiniões compartilhadas ganham centralidade em nossa vida, certeza do correto e do incorreto.

As religiosidades messiânicas ganham espaço, voltadas para a redenção, amplificadas pelos novos meios de comunicação e pela extensão das tradições sagradas feitas sem necessidade da escrita. Explicações prontas, vindas de nossos líderes espirituais, carecem de reflexão, eliminam dúvidas existenciais, fornecem respostas que evitam controvérsias e angustias.

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Da mesma forma, gostamos de considerar nossos dirigentes civis como pessoas iluminadas e que sempre têm razão. O culto à personalidade sempre fez parte de nossa estrutura emocional desde a época das cavernas, em que precisávamos de auxílio contra as forças naturais que não podíamos compreender. Políticos à direita e à esquerda cultivam esta tendência para lucrar o máximo possível com o papel de salvadores da pátria, e multidões de seguidores preferem a fórmula pronta de odiar os oponentes a ter de pensar com suas próprias cabeças.

Problemas de saúde em meio a dificuldades econômicas aquecem os termômetros, e nossos relacionamentos tornam-se mais complexos a cada dia – que o digam mulheres presas em casa com parceiros agressivos, além de crianças e animais expostos a violências nos locais em que deveriam sentir-se mais protegidos.

Wanda Camargo é educadora e assessora da presidência do Complexo de Ensino Superior do Brasil (UniBrasil).

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