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Quem não teme, não se curva aos tiranos

A fé ordena o amor e dissolve o medo: quem sabe o que não pode perder enfrenta o poder sem se curvar, com coragem e liberdade interior. (Foto: Imagem criada utilizando Chatgpt/Gazeta do Povo)

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Não tenham medo. Essa frase percorre a Bíblia do início ao fim. Os estudiosos contabilizam 365 ocorrências — uma para cada dia do ano — como se Deus soubesse que a humanidade precisava ouvi-la todas as manhãs antes de sair para o mundo. Abraão a ouviu quando ainda não tinha filhos. Moisés, quando tinha um exército às suas costas. Jeremias, quando tinha um rei contra ele. Os apóstolos, quando enfrentavam uma tempestade. Sempre a mesma voz, sempre a mesma certeza: Não tenham medo, pois eu estou com vocês.

O mundo, por outro lado, construiu toda a sua estrutura sobre o medo. Os impérios perduram porque seus súditos têm medo. Os mercados funcionam porque os participantes temem perder. A política moderna é, em grande medida, a arte de gerir medos: medo de estrangeiros, da desordem, da decadência, do esquecimento. Quem controla o medo, controla. E quem não tem medo, semeia a confusão.

Santo Tomás de Aquino ensina que o medo é uma paixão da alma que foge de um mal futuro e árduo. A definição parece autoevidente. Mas Aquino acrescenta um esclarecimento menos óbvio: a legitimidade do medo depende de seu objeto ser verdadeiramente um mal para aquele que o teme.

Nem toda ameaça constitui um mal real. O ladrão que lhe rouba a carteira o priva de algo. O tirano que lhe rouba a reputação o priva de algo diferente. Mas nenhum deles pode lhe tirar o que você é, o que você deve fazer, o que você ama, na ordem correta.

O medo torna-se irracional — e moralmente desordenado — quando trata como o mal supremo aquilo que é meramente um mal acidental

Portanto, há uma pergunta que precede a coragem: o que, em termos estritos, você pode perder? Aqueles que depositaram tudo na aprovação dos poderosos, nos aplausos da plateia, na continuidade de seus privilégios têm muito a perder e muito a temer.

Aqueles que depositaram tudo em outro lugar — em algo que nenhum poder temporal pode confiscar — descobrem que o medo perde sua força. Não porque o perigo seja menor, mas porque o bem é diferente.

Jesus disse claramente: “Não tenham medo daqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma” (Mt 10,28). Ele não nega que o corpo possa ser ferido. Ele não minimiza a dor, a perseguição ou a derrota visível. O que ele faz é traçar uma linha ontológica que o poder mundano não pode cruzar: existe um ser interior que nem a espada, nem a plataforma digital, nem o decreto executivo podem alcançar. Matar o corpo é possível. Matar a verdade, silenciar a missão, extinguir o amor ordenado — isso é impossível.

Eis o paradoxo: aquele que parece mais vulnerável é, na realidade, o mais livre. Aqueles que nada têm a perder no âmbito dos bens materiais — ou cujas posses estão devidamente subordinadas — são precisamente aqueles que podem falar sem tremer. Não por uma coragem épica, mas porque resolveram, em outro nível, a questão do que é verdadeiramente valioso.

Spinoza falava em contemplar as coisas sub specie aeternitatis — sob a espécie da eternidade —, embora o fizesse a partir de uma tradição diferente. A intuição, contudo, é genuinamente antiga e genuinamente cristã: existe uma perspectiva a partir da qual as grandes potências do mundo aparecem em sua verdadeira dimensão, que nem sempre coincide com a dimensão que atribuem a si mesmas. Dessa perspectiva, os impérios são meros episódios. As fúrias dos poderosos, notas de rodapé. As plataformas de onde se lançam insultos e o palácio de onde se emitem decretos, coisas que simplesmente acontecem.

O Salmo canta com a alegria de um abandono confiante: O Senhor é a minha luz e a minha salvação; a quem temerei? O Senhor é a fortaleza da minha vida; de quem me recearei? (Salmo 27:1). Isso não é arrogância. É geometria. É ter medido os objetos em sua verdadeira escala e ter descoberto que a distância entre o eterno e o temporal é infinita, e que habitar no eterno não gera orgulho, mas paz — a paz que, segundo João, o mundo não pode dar nem tirar (João 14:27).

A fortaleza, ensina São Tomás, não consiste em ignorar o perigo, mas em não se deixar vencer por ele quando a razão exige perseverança na prática do bem. É a virtude do meio-termo entre a covardia — que se cala quando se deveria falar — e a temeridade — que fala sem ponderar. A pessoa forte sustenta: persevera, resiste, persevera. E persevera: assume a missão mesmo quando o vento sopra contra. Não grita. Não ameaça. Não compromete a verdade em nome da tranquilidade. Simplesmente continua.

Há algo profundamente desconcertante para aqueles que detêm o poder nessa atitude. O poder mundano está acostumado a duas respostas: submissão ou rebelião. Ambas confirmam sua lógica, porque ambas o levam a sério como o árbitro final. Mas há uma terceira resposta que ele não sabe como assimilar: a indiferença serena, seguir em frente como se o tumulto não tivesse acontecido, não por desprezo, mas porque há uma tarefa maior a ser realizada. Bem-aventurados os pacificadores, diz o Evangelho. Não aqueles que negociam com os mais fortes. Não aqueles que compram com o silêncio. Aqueles que constroem: um verbo que implica trabalho paciente, recursos humildes e uma visão que não se mede em ciclos eleitorais.

E a ti, poderoso, que buscas silenciar aqueles que não te temem, também se dirige uma palavra. Não a palavra do adversário que te combate em teu próprio território — pois esse é precisamente o território que deixaste de governar —, mas a antiga palavra que os profetas apresentaram aos reis quando estes se tornaram insolentes.

Você confundiu silêncio com aprovação, cortesia com lealdade, os cálculos dos fracos com consenso. E agora descobre, com uma perplexidade que se recusa a admitir, que há quem não calcule: que existe uma região da alma onde sua ameaça não surte efeito, porque ali ela é medida em uma escala diferente. Você pode demiti-lo, pode denunciá-lo, pode empurrar seu nome para o limite onde o prestígio despenca; pode até, se a história se repetir com sua crueldade habitual, silenciá-lo para sempre. Mas você não conseguirá — e é isso que lhe tira o sono quando os aplausos cessam — fazê-lo mentir. Você não conseguirá transformar o seu não em um sim. Você não conseguirá impedi-lo de falar de todas as plataformas enquanto você não fala de nenhuma, e, ainda assim, ser ouvido com mais clareza. E você não conseguirá impedir que seus próprios medos se revelem em suas ameaças.

João escreve que o amor perfeito expulsa o medo, porque o medo envolve punição (1 João 4:18). Talvez este seja o mais radical dos paradoxos bíblicos sobre o medo: quem teme o poder, no fundo, teme perder algo que ama demais e na ordem errada. O medo dos poderosos é um sintoma de amor desordenado. E o amor perfeitamente ordenado — Deus acima de tudo, a si mesmo e ao próximo em Deus — produz como fruto inesperado uma liberdade que parece escandalosa aos olhos do mundo: a liberdade de dizer o que é verdadeiro e necessário sem primeiro calcular o preço.

Não tenho medo dele. Quatro palavras que, bem compreendidas, não são nem bravata, nem desafio, nem uma declaração política. São a descrição de um estado interior que resulta de ter colocado o bem no seu devido lugar. São o testemunho de alguém que descobriu, na escala do ser, que existem bens que nenhum poder neste mundo pode tocar — e que, diante disso, o medo simplesmente não encontra espaço para criar raízes.

©2026 Revista Suroeste. Publicado com permissão. Original em espanhol: “No le tengo miedo”.

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