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A Terra está ficando pequena demais. Grandes empresas de tecnologia estão lançando voos espaciais para expandir seus negócios em inteligência artificial e comunicações.
Há setenta e cinco anos, a ideia de aproveitar o poder dos céus era pouco mais que uma fantasia concebida por futuristas como Arthur C. Clarke e Isaac Asimov. Nas décadas seguintes, a exploração espacial foi um campo dominado principalmente por entidades governamentais: a NASA, a ESA, a atual agência espacial russa Roscosmos e a antiga, agora extinta, agência espacial soviética. Os investimentos necessários para a exploração espacial eram tão elevados que nenhuma empresa privada tinha condições de tentar.
Musk e Bezos lançam foguetes
Mas esse modelo mudou radicalmente no século XXI. Empresas privadas assumiram a liderança na exploração espacial. Tudo começou com Elon Musk e sua ideia de chegar a Marte. Para esse fim, ele criou a SpaceX em 2002, por meio da qual projetou e construiu os foguetes mais potentes para lançamento ao espaço, com a capacidade adicional de serem reutilizáveis, pois podem pousar após o lançamento.
A Starship da SpaceX, um gigante de 150 metros de altura, está programada para ser o foguete que lançará a missão Artemis III, que levará humanos de volta à Lua em 2027 ou 2028.
Musk também se aventurou nas telecomunicações via satélite por meio da Starlink, uma empresa da SpaceX que fornece acesso à internet de alta velocidade e baixa latência em praticamente qualquer lugar do mundo, por meio de uma constelação de milhares de satélites em órbita baixa da Terra. A Starlink possui atualmente mais de 8.000 satélites implantados, cobrindo diversas regiões do mundo e oferecendo internet acessível na América Latina, Ásia e África.
As grandes empresas de tecnologia estão investindo no espaço em busca de negócios lucrativos com impacto direto nas telecomunicações, nos serviços em nuvem e, agora, na inteligência artificial
Nesta corrida espacial, Elon Musk foi seguido por Jeff Bezos, fundador da Amazon. Bezos criou a Blue Origin em 2000 como uma empresa de turismo espacial, que posteriormente mudou sua estratégia, pausando o projeto original para priorizar contratos com a NASA e a exploração lunar. A Blue Origin também obteve sucesso na fabricação de foguetes reutilizáveis e acaba de anunciar sua entrada no setor de telecomunicações via satélite.
Hoje, portanto, o “espaço” não é mais apenas um campo para missões científicas. Agora, as empresas estão se aventurando no cosmos em busca de negócios lucrativos com impacto direto em telecomunicações, conectividade e serviços em nuvem… e é aí que entra a inteligência artificial (IA).
Data centers em órbita
A inteligência artificial (IA) varreu quase todos os setores e processos de produção como um tsunami. Nada escapa à sua influência. Mas a inteligência artificial é "muito cara". Construir as instalações é dispendioso — um centro de dados médio representa um investimento de cerca de 1,5 bilhão de dólares — e requer uma enorme quantidade de energia, a ponto de os centros de dados terem sido um dos motivos para o ressurgimento da energia nuclear em todo o mundo como uma fonte confiável — essas instalações precisam de energia 24 horas por dia, 365 dias por ano, e as energias renováveis não garantem isso — e como uma fonte que não emite gases de efeito estufa.
Além do consumo de energia, há o enorme gasto de água necessário para o resfriamento dos data centers. O Google relata o uso de mais de 16 bilhões de litros de água em seus data centers em 2024, e a Meta, mais de 3 bilhões em 2023.
O uso da água não equivale ao consumo, pois parte dessa água é reciclada, embora outra parte evapore durante o processo. O problema é que a água necessária para um data center provém do consumo geral; portanto, essas instalações precisam ser concentradas em locais onde não haja escassez hídrica.
Os centros de dados espaciais aliviam o problema do alto consumo de eletricidade e água para refrigeração enfrentado pelos centros de dados terrestres
O elevado consumo de energia e água gera problemas ambientais significativos e levou grandes empresas de tecnologia a considerarem o crescimento futuro no espaço, impulsionando ainda mais a corrida espacial iniciada há alguns anos.
Agora, a drástica redução nos custos de lançamento — graças a foguetes reutilizáveis como os da SpaceX — democratizou o acesso ao espaço, tornando viáveis modelos de negócios que eram ficção científica há poucas décadas. Além disso, uma vez em órbita, esses data centers operarão com energia solar, que é gratuita, inesgotável e não polui o planeta.
Grandes projetos em andamento
Se colocar satélites e outras instalações em órbita agora é economicamente viável, embora exija investimentos consideráveis, as empresas podem embarcar nessa conquista do espaço para atingir diversos objetivos. Primeiro, a busca pela conectividade global: empresas de tecnologia veem o espaço como uma forma de expandir seu alcance para áreas ainda desconectadas, sem depender de infraestrutura terrestre vulnerável a falhas ou conflitos.
Segundo, maior eficiência em seus serviços: rotas orbitais reduzem a latência de comunicação — o tempo de resposta a um comando —, crucial para aplicações de IA em tempo real, como veículos autônomos ou cirurgia remota.
Terceiro, controle de dados: satélites oferecem uma vantagem estratégica na coleta de informações que alimentam a IA, permitindo que essas empresas não apenas processem dados, mas também "observem" o mundo por meio deles e o influenciem por meio de previsões — para prevenir desastres climáticos, por exemplo.
E, quarto, prestígio: assim como a Guerra Fria impulsionou a corrida espacial entre as superpotências, hoje ela é uma fonte de orgulho corporativo que atrai talentos, investidores e aliados governamentais.
Estes são os principais projetos em que as grandes empresas de tecnologia estão trabalhando:
- Starcloud: fundada em 2024, a Starcloud é uma empresa focada no desenvolvimento de data centers em órbita terrestre. Com o apoio da Nvidia e do Google, seu objetivo é atender às necessidades de alto consumo de energia e refrigeração da inteligência artificial (IA) em solo. Em 2025, lançou seu primeiro satélite, o Starcloud-1, equipado com processadores gráficos da Nvidia. Isso é significativo porque marca a primeira vez que uma unidade de processamento gráfico (GPU) é usada para treinar modelos de IA diretamente no espaço.
- SpaceX-xIA: Elon Musk acaba de fundir sua empresa de foguetes, a SpaceX, com sua empresa de inteligência artificial, a xIA, buscando sinergias em seu projeto espacial. Além de dar continuidade ao programa de desenvolvimento de foguetes, ele planeja criar uma rede de até 1 milhão de satélites de computação com inteligência artificial movidos a energia solar, integrando seu programa Starlink. Musk anunciou que deseja ter seus primeiros centros de dados de inteligência artificial em órbita dentro de dois a três anos.
- Alphabet: empresa controladora do Google, a Alphabet anunciou o Projeto Suncatcher em novembro passado. Este projeto lançará satélites em órbita equipados com seus próprios processadores especializados de aprendizado de máquina para inteligência artificial, alimentados por energia solar. O objetivo é reduzir a pegada de carbono e o consumo de água dos data centers terrestres, e a empresa pretende lançar os primeiros satélites em 2027.
- Amazon: o Amazon Leo é um projeto concebido para competir diretamente com o Starlink. Seu objetivo é implantar uma constelação de 3.232 satélites em órbita baixa da Terra para fornecer internet de alta velocidade em todo o mundo para um mercado consumidor de massa. No início de fevereiro de 2026, a Amazon tinha aproximadamente 180 satélites em órbita.
- Blue Origin: empresa espacial de Jeff Bezos, a Blue Origin está desenvolvendo o TeraWave, outra rede de satélites projetada especificamente para clientes corporativos de alto padrão, governos e centros de dados, com capacidade significativamente maior.
A guerra comercial no espaço em torno da IA e das comunicações é o próximo capítulo na hegemonia tecnológica. As empresas que dominarem as órbitas controlarão o fluxo de informações e conhecimento no século XXI, mas, como qualquer avanço, essa corrida tem seus riscos.
Primeiro, as empresas investirão bilhões em IA — anunciaram investimentos de US$ 600 bilhões somente em 2026 —, e a intensa competição pode levar à incerteza quanto aos retornos.
Segundo, há o risco de congestionamento orbital, com o aumento de detritos espaciais que ameaçam a sustentabilidade da alta atmosfera, onde os satélites orbitam. E, terceiro, regulamentações internacionais são necessárias para evitar que o espaço se torne um campo de batalha sem lei, mas, ao mesmo tempo, essas regulamentações não devem impedir a expansão corporativa.
©2026 Aceprensa. Publicado com permissão. Original em espanhol: Una guerra comercial en el espacio







