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Exemplos não faltam. Cidades que renasceram das ruínas, bairros que trocaram o medo por convivência, territórios antes invisíveis que se tornaram pulsantes centros de vida. Nos Estados Unidos, o movimento City Beautiful e os programas do New Deal provaram que investir em parques, escolas e transporte é também investir em paz. A Europa do pós-guerra reconstruiu-se com base em planos que misturaram moradia, lazer e trabalho. E a China, hoje, reurbaniza sem expulsar, ou seja, moderniza mantendo o pertencimento. Em todas essas experiências, o investimento em infraestrutura se traduziu em segurança, saúde e prosperidade.
Por que, então, o Brasil ainda insiste em improvisar? A violência que marca tantas comunidades brasileiras não nasce de um “caráter violento” dos moradores, mas da ausência de um projeto urbano que integre, que reconheça. Onde o Estado não chega com planejamento e infraestrutura, a cidade se constrói sozinha, e o improviso, somado à ausência de políticas públicas, cria um terreno fértil para o medo.
Policiamento e programas sociais são importantes, mas não bastam. Sem saneamento, mobilidade, moradia digna e áreas de convivência, a violência se instala
Esses espaços, erguidos com suor e criatividade, mas sem apoio técnico, são o retrato de um país que empurra para as margens quem não cabe no centro. Sem endereços, iluminação, saneamento ou áreas de convivência, a cidadania se apaga. A ausência do Estado é substituída pela presença de quem domina o território. A arquitetura da exclusão fabrica, sem querer, uma geografia da violência.
Mas o desenho urbano pode ser o oposto: um instrumento silencioso de paz. Uma rua bem iluminada, uma praça viva, uma calçada acessível, tudo isso vale mais, em prevenção, do que qualquer muro ou viatura. Quando a cidade é pensada para o encontro e não para o isolamento, a sensação de pertencimento cresce e a insegurança diminui.
As favelas brasileiras nasceram como soluções de sobrevivência diante da exclusão habitacional. Foram erguidas nas encostas, nas margens, dos vazios urbanos onde o Estado e o mercado nunca quiseram estar. Ainda assim, seguem tratadas como um problema, e não como parte legítima da cidade. É impossível falar em segurança pública duradoura sem enfrentar a raiz urbanística da desigualdade.
Policiamento e programas sociais são importantes, mas não bastam. Sem saneamento, mobilidade, moradia digna e áreas de convivência, a violência se instala. O problema não é apenas a criminalidade, é a negação da cidadania. Reurbanizar é devolver o direito à cidade, o direito de existir em um espaço onde o Estado está presente, visível e comprometido.
E reurbanizar não significa demolir: é abrir ruas, iluminar percursos, garantir drenagem, formalizar comércios, criar áreas de convivência. É substituir a lógica da exclusão pela da integração. O custo da omissão está diante de nós: vidas perdidas, investimentos fugindo, desigualdade se aprofundando. Já os ganhos da reurbanização são claros: segurança, pertencimento e produtividade. Um bairro cuidado envia uma mensagem poderosa: aqui, o Estado existe.
Falta, no entanto, o principal insumo: coragem política. Coragem para planejar além de mandatos, para investir em infraestrutura, para compreender que segurança não nasce do confronto, mas do pertencimento.
A favela não é o problema. É o espelho que mostra um país que ainda não aprendeu a se construir para todos. O urbanismo, afinal, não é apenas técnica, é a arte de transformar o descuido em cidadania.
Pedro de Medeiros é filósofo formado pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, engenheiro mecânico pela PUC e pós-graduado em Gestão de Pessoas, consultor de multinacionais, palestrante e escritor.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos



