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O problema da segurança pública é gravíssimo. E não será resolvido com ações isoladas, mesmo quando expressivas e importantes

Domingo, 28 de novembro de 2010. Dia histórico. Às 7h59, quando as forças de segurança invadiram o Complexo do Alemão, o Estado brasileiro reassumiu o seu papel e milhares de trabalhadores honrados, reféns do crime organizado, viram brilhar uma chispa de esperança. O que vimos não foi mais uma ação policial, mas o resgate da paz. "Foi um presente de Natal que a gente não esperava", disse um morador no Alemão. A reação da população foi emocionante. Assistiu-se à ressureição da cidadania.

O problema da segurança pública é gravíssimo. E não será resolvido com ações isoladas, mesmo quando expressivas e importantes. É preciso lancetar o abscesso, raspá-lo, limpá-lo. É necessário chegar às raízes da doença. Só assim os homens de bem que compõem as fileiras das policias não serão confundidos com marginais e psicopatas. Só assim o poder do narcotráfico não será substituído pela prepotência criminosa das milícias. O assustador crescimento da criminalidade é a ponta do iceberg de uma distorção mais profunda: a frequente falta de critérios de seleção para o ingresso nos quadros policiais, a exclusão social, a permanente entrada de armas que abastece o paiol da bandidagem, uma legislação obsoleta e o descaso com políticas de prevenção e recuperação de dependentes químicos.

A exclusão social está no cerne do problema. O presidente Lula, na alvorada de seu governo, lançou o Fome Zero. E fez bem. Mas o que o Brasil precisa com urgência é um Desemprego Zero. Uma juventude sem trabalho, sem esperança e sem futuro é presa fácil do crime organizado. Os jornais têm mostrado a estreita ligação que existe entre miséria e criminalidade. Jovens, órfãos de ações sociais e sem perspectiva de trabalho, são facilmente aliciados pelo tráfico de drogas. As esquinas das nossas cidades testemunham, diariamente, um chocante desfile da exclusão.

Impõe-se um duro combate ao ingresso de armas e drogas no território brasileiro. A Baía de Guanabara é uma peneira e as nossas fronteiras são avenidas abertas ao livre trânsito do crime organizado. Sem uma operação conjunta das Forças Armadas e da Polícia Federal, apoiadas em modernos sistemas de inteligência, aramos no mar. A vitória da Colômbia contra a guerrilha e o narcotráfico não se deu apenas em operações de combate e de repressão, mas sobretudo em bem-sucedidas ações monitoradas pelos serviços de inteligência.

A reforma da legislação, por outro lado, é urgente e necessária. É inacreditável que bandidos como Zeu (Eliseu Felício de Souza), um dos assassinos do jornalista Tim Lopes, recapturado recentemente, continuem sendo libertados pelo regime de progressão de penas. É inconcebível que a permissão para visitas íntimas sejam a porta de entrada de celulares, drogas e armas. É inaceitável que chefões do crime continuem, da cadeia, a comandar seus comparsas, orientados por ordens enviadas por meio de advogados e repassadas a familiares. A defesa das prerrogativas profissionais não pode levar a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) a tapar o sol com a peneira. A entidade tem o dever de promover constantes limpezas nos seus quadros.

É preciso, finalmente, não subestimar o que está na origem da força do narcotráfico: o drama da dependência química. O traficante só existe em função da crescente demanda dos usuários. E o problema não se resolve com a miragem da descriminalização das drogas. É preciso, sim, investir pesado em políticas de prevenção e de recuperação de adictos.

Conheço algumas iniciativas sérias no campo da recuperação de dependentes químicos. O Horto de Deus (www.hortodedeus.org.br), por exemplo, faz um trabalho de grande alcance social. Trata-se de uma comunidade terapêutica, sem muros, sem grades e com elevado índice de recuperação. Seus internos, depois de terem descido todos os degraus da miséria material e moral, reencontram a chama da esperança.

Nós, jornalistas, precisamos mostrar a luz no fim do túnel. Vamos, todos, com trabalho, policiamento eficiente, legislação renovada e solidariedade resgatar a magia do Rio. A todos, mas especialmente ao maravilhoso povo carioca, um Natal abençoado pela paz.

Carlos Alberto Di Franco, diretor do Master em Jornalismo (www.masteremjornalismo.org.br), professor de Ética e doutor em Comunicação pela Universidade de Navarra, é diretor da Di Franco – Consultoria em Estratégia de Mídia (www.consultoradifranco.com). difranco@iics.org.br

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