
Ouça este conteúdo
Segundo os dados mais recentes do IBGE, publicados em dezembro de 2025, o país está em seu menor índice de pobreza da série histórica. A redução, de acordo com o órgão, vem ocorrendo nos últimos três anos. Ainda assim, os números mostram que 23,1% dos brasileiros não têm recursos que lhes garantam o básico para viver bem, segundo os parâmetros do Banco Mundial. Somam-se a esse número os 3,5% que estão em extrema pobreza.
É ainda alarmante: mais de um quarto dos nossos compatriotas vive em condições, para dizer o mínimo, precárias. É evidente que um problema dessa monta exige políticas públicas sérias. Tendo em mente, porém, o contexto social em que esses dados vêm a público, cabe refletir sobre um ato que, embora emergencial, não deixa de ter efeitos dignos destas linhas: as doações (de valores, de roupas, de brinquedos, de atenção).
Há quem acredite que o ato de doar resulte de um sentimento questionável: a culpa. Mesmo que essa correlação possa não ser verdadeira, a realidade brasileira fornece elementos para que ela seja defendida com razoável plausibilidade. Afinal, se considerados os números da pobreza e da extrema pobreza citados (que são corroborados pela realidade que nos cerca), o grupo dos que mais possuem é levado a conviver com certo incômodo. Quando esses mesmos números viram indivíduos (a pessoa em situação de rua, o pedinte na porta da igreja, a criança maltrapilha no semáforo), não raro se experimenta um certo constrangimento, que torna a doação uma espécie de dever moral. E só.
Outra forma de dar sentido à doação é pensar não necessariamente nos sentimentos que a motivam (com otimismo, podem-se incluir a empatia e a compaixão nesse rol), mas naqueles que ela pode produzir, especialmente em quem a pratica. Quem já participou de experiências no voluntariado sabe o quanto dedicar tempo e atenção aos que precisam traz um tipo de bem-estar raro e especial. Esses momentos de comunhão com pessoas normalmente desconhecidas nos lembram uma obviedade: que somos semelhantes.
No caso das doações, embora possam ser um ato mais pontual, é possível que elas gerem resultados parecidos. Para que isso aconteça, contudo, é imprescindível não confundir o ato de doar com uma “limpeza dos armários”. É muito diferente “desovar” coisas que ficaram encostadas e dar a quem precisa aquilo de que realmente a pessoa necessita. Há iniciativas que, tendo isso em mente, propõem uma espécie de apadrinhamento. Os mais modernos diriam que se trata do “design thinking” aplicado à caridade: inicialmente se descobre quem é o público e quais são suas necessidades; em seguida, buscam-se meios para atendê-las.
VEJA TAMBÉM:
Não raro, no apadrinhamento, o doador-padrinho sabe que precisa enviar uma roupa nova, tamanho M, para uma jovem chamada Jasmine, moradora da periferia de São Paulo. Por vezes, essa roupa chega com um cartão, assinado apenas com o primeiro nome do doador, mas cheio de votos sinceros de futuro e dignidade; afinal, essa conexão recorda que a quase desconhecida é, em essência, mais semelhante do que os números sugerem.
Os dados da pobreza no país, além das necessárias análises políticas que eles podem e devem suscitar, acabam propiciando uma reflexão também sobre aspectos humanos mais singelos. No que diz respeito às práticas de doação, cabe pensar: queremos que elas sejam apenas uma forma superficial e pragmática de nos livrarmos de certo incômodo moral? Ou podemos dar um sentido mais amplo a essa comunhão com o próximo, talvez como um primeiro passo para transformações maiores, que fortaleçam nosso senso de justiça?
Henrique Braga é autor de materiais didáticos, doutor em Língua Portuguesa pela USP e coordenador pedagógico no Colégio Lourenço Castanho.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos







