O escândalo financeiro provocado pela confissão de Bernard Madoff, um dos mais conhecidos figurões do mercado financeiro americano de que havia simplesmente roubado mais de US$ 50 bilhões dos clientes, utilizando-se de uma gigantesca pirâmide, parece saído de uma obra de ficção mas, para desespero dos lesados, não o é. É, isso sim, mais um prego no caixão do combalido sistema financeiro mundial, que vem assistindo à superação de todos os recordes de ganância, cumplicidade e de criminosa omissão regulatória.
O termo que designa esse tipo de fraude em que se paga ao Juca com o dinheiro do Manduca é "Ponzi Scheme", o Esquema Ponzi, justa homenagem a um dos maiores vigaristas de todos os tempos. Elio Gaspari, em sua coluna nesta Gazeta já contou a saga do imigrante italiano que enganou milhares de pequenos poupadores em Chicago, operando um "banco" que pagava juros assombrosos. Madoff refinou o esquema, pagando juros atrativos mas não escandalosos para não aguçar as suspeitas mas, na essência, a estrutura da vigarice era exatamente a mesma.
O Brasil já teve figuras exponenciais nessa arte de limpar o bolso dos mais crédulos. O decano indiscutível deles foi Luiz Felipe de Oliveira, o Filipeta, que nos anos 50 criou um esquema de compra e venda de carros no Rio de Janeiro. Luiz Felipe comprava carros a prazo, pagando juros altíssimos e os revendia à vista por preços baratíssimos. A imprensa carioca, deslumbrada pelas páginas e páginas de anúncios que Luiz Felipe publicava diariamente, achou que era melhor deixar as coisas como estavam, em vez de investigar essa estranha matemática. Um dia, a bolha estorou. Foi um escândalo e Luiz Felipe acabou na cadeia por vários anos, uma exceção notável na crônica impunidade brasileira. O apelido de Filipeta vem do nome que os cariocas deram às notas promissórias sem valor.
Um sucessor digno do Filipeta foi Cristiano de Caux, filho de uma família suíça rica e que inventou uma pirâmide no início dos anos 60 no Rio de Janeiro: uma empresa que agiria como uma "trading company" brasileira, vendendo café e outras commodities nas grandes bolsas internacionais. Para dar uma aura de respeitabilidade (ou para enfatizar o poderio dos sócios), Cristiano dizia que a empresa pertencia ao ex-presidente Juscelino Kubitschek e a um grupo de empreiteiros ligados a ele. Os "investidores" recebiam juros estratosféricos para emprestar seu dinheiro à empresa e num segundo momento, eram incentivados a apresentar outros e passavam a ficar com parte dos juros. Um dia, os investidores encontraram o escritório fechado... O resto já se imagina.
Essas histórias exercem sobre mim um fascínio infantil por demonstrar a fragilidade do espírito humano, pronto a acreditar nos mais evidentes absurdos e a fragilidade das instituições supostamente encarregadas de evitar que o grande público seja lesado por alguns espertos. O exemplo mais requintado desse amplo conhecimento do psiquismo humano foi dado por Ponzi, quando um jornal de Chicago desmascarou o golpe. No dia seguinte, uma imensa fila se formou na porta de seu "banco". Pouco antes do horário de abertura, vários caminhões da Brinks chegaram com cestas e cestas de dinheiro vivo e, por ordem de Ponzi, pararam no final da fila e não na porta do banco. Os investidores vendo aquela dinheirama já ficaram em dúvida. Quando o banco abriu, Ponzi pessoalmente começou a pagar os investidores sem pestanejar. Uma hora depois, a fila dos descrentes começou a se desfazer. E, último e genial detalhe, alguns dos que haviam sacado o dinheiro de manhã, voltaram à fila mas para depositar de novo. Mr. Ponzi era um psicólogo nato e teria feito mais sucesso como profissional de marketing do que como vigarista, não acham?
Belmiro Valverde Jobim Castor é professor do Doutorado em Administração da PUCPR.







