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Superproteção: o erro silencioso na educação dos filhos

Excesso de proteção infantil parece cuidado, mas limita autonomia: crianças perdem espaço para aprender e desenvolver independência. (Foto: Imagem criada utilizando Chatgpt/Gazeta do Povo)

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Raramente a parentalidade esteve tão focada na segurança das crianças. Muitos pais sabem onde seus filhos estão, com quem estão, o que estão fazendo e como estão se sentindo. Suas tardes são planejadas nos mínimos detalhes, suas dificuldades são previstas e, muitas vezes, sem nem perceber, os adultos intervêm antes mesmo que um problema surja.

Visto de fora, tudo parece bastante razoável. Afinal, cuidar, prevenir e apoiar são partes naturais do trabalho de um pai ou mãe.

Mas uma questão incômoda começa a surgir: o que acontece quando, ao sermos tão protetores, acabamos intervindo demais e reduzindo o espaço em que uma criança pode tentar, cometer erros e aprender por si mesma?

Uma infância cada vez mais dirigida

A infância mudou mais do que às vezes percebemos. Por gerações, as crianças cresciam participando naturalmente do cotidiano. Ajudavam em casa, resolviam pequenos conflitos com os colegas e encontravam maneiras de se entreter sem supervisão constante.

Não era uma infância idealizada ou isenta de riscos, mas era repleta de pequenas experiências que as obrigavam a enfrentar diferentes desafios, encontrar recursos e, gradualmente, adquirir independência.

Hoje, porém, a infância é muito mais organizada, supervisionada e protegida. As agendas são repletas de atividades, as áreas de lazer são projetadas para evitar qualquer perigo e os adultos tendem a intervir rapidamente para evitar frustrações.

Também normalizamos outras formas de atividade constante que parecem inocentes: procurar tutoriais de artesanato online para evitar qualquer tempo ocioso, escolher apenas museus ou programas elaborados para estimulá-los a cada instante, improvisar atividades de última hora para que não fiquem entediados ou até mesmo transformar um aniversário em uma minicompetição para ver quem organiza o programa mais divertido e original.

Sem sequer se darem conta, os adultos estão ocupando espaços que antes eram seus, o que lhes permite ganhar gradualmente autonomia e recursos para resolver problemas por conta própria

O resultado não é imediatamente óbvio. As crianças continuam curiosas, inteligentes e capazes. Mas, com o tempo, elas acham mais difícil tolerar a frustração, tomar decisões simples ou manter o esforço quando algo não sai como planejado — não tanto por falta de habilidade, mas sim por falta de oportunidades reais para praticá-la.

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Quando o adulto ocupa muito espaço

Uma das situações em que essa tendência é mais evidente é na gestão de pequenos conflitos do dia a dia.

Duas crianças discutem por causa de uma brincadeira no parque, uma palavra mal pronunciada ou uma discussão acalorada e imediatamente recorrem a um adulto. O adulto, com as melhores intenções, intervém rapidamente: ouvindo, dando instruções, interpretando o que cada criança "deveria dizer" e propondo uma solução.

A situação se resolve rapidamente, é verdade, mas eles mal tiveram que passar pelo processo de entender o que aconteceu, encontrar as palavras certas, ouvir um ao outro ou lidar com o desconforto de não saber exatamente como resolver o problema. O conflito termina, sim, mas o aprendizado é mínimo.

Algo semelhante acontece em outras áreas, mais tranquilas. Basta dar uma olhada em qualquer grupo de WhatsApp de pais para ver o quanto a vida acadêmica de seus filhos recebe apoio: quais tarefas de casa são atribuídas, como fazê-las, exatamente o que estará na prova e qual será o formato. As informações circulam, são esclarecidas e concluídas.

Novamente, tudo parece ajudar. Mas, nesse processo, a criança tem cada vez menos necessidade de se organizar, de fazer perguntas na aula, de assumir a responsabilidade pelo que não entendeu ou pelo que esqueceu.

Sem sequer nos darmos conta, nós, adultos, estamos ocupando espaços que antes eram deles. E são justamente esses espaços — os pequenos conflitos, os pequenos descuidos, as pequenas dificuldades — que lhes permitem, gradualmente, conquistar autonomia e os recursos para resolver problemas por conta própria.

O que você não aprende se tudo já estiver resolvido

A ideia de que o excesso de ajuda pode limitar alguns aspectos do desenvolvimento infantil não é nova e foi claramente formulada por autores muito diferentes.

Gregório Luri frequentemente nos lembra que não há aprendizado verdadeiro sem esforço ou a possibilidade de erro. Embora ele expresse isso principalmente em relação à escola, a ideia também se aplica à vida familiar: quando tentamos facilitar demais as coisas, nem sempre ajudamos; às vezes, impedimos a criança de progredir rumo à independência.

De maneira semelhante, o neuropsicólogo Álvaro Bilbao destaca que muitas das habilidades que se espera que as crianças desenvolvam — organização, persistência, tomada de decisões — não são adquiridas apenas por meio de instrução, mas sim por meio da prática. Em O Cérebro da Criança Explicado aos Pais, ele enfatiza que as funções executivas precisam ser exercitadas em situações da vida real. Tentar algo, cometer erros e tentar novamente faz parte do processo natural de amadurecimento.

Marian Rojas Estapé, por sua vez, enfatizou a importância de aprender a lidar com a frustração. Em Como Fazer Coisas Boas Acontecerem com Você, ela explica como a dificuldade em tolerar o desconforto está na raiz de muitos dos problemas atuais. Uma criança que raramente precisou esperar, desistir ou suportar pequenos contratempos estará menos preparada quando a frustração surgir, porque, mais cedo ou mais tarde, ela surgirá.

De diferentes perspectivas, as três apontam para a mesma ideia subjacente: muitos dos desafios importantes no desenvolvimento infantil não surgem quando tudo está resolvido, mas sim quando a criança tem algo para tentar, manter ou resolver por conta própria.

Dessa perspectiva, o problema da superproteção reside não apenas no excesso de ajuda, mas também na redução progressiva do espaço em que a criança pode experimentar, cometer erros e descobrir suas capacidades. E talvez aí resida um dos paradoxos da parentalidade contemporânea: ao tentarmos evitar muitas dificuldades, por vezes também enfraquecemos as oportunidades cotidianas para o desenvolvimento da autonomia, do bom senso e de uma maior capacidade de tolerar a frustração.

©2026 Aceprensa. Publicado com permissão. Original em espanhol: El coste invisible de la sobreprotección

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