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Tecnologia e inovação no redesenho da globalização

Devido às novas tecnologias, o fim da globalização é altamente improvável; e a conectividade global possibilita ainda muitas oportunidades que ainda não foram aproveitadas

  • Maurício Antônio Lopes
 | Pixabay
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A conectividade, viabilizada por tecnologias e infraestrutura de transporte e comunicações, e também por relações de comércio, tem influência sobre praticamente todos os povos, culturas e mercados. Uma de suas consequências é a globalização, ou a integração gradual de regiões, países e pessoas. Um dos fenômenos mais significativos do nosso tempo, a globalização está sustentada por uma imensa rede de infraestrutura que interliga o mundo e que segue expandindo em grande velocidade. São estruturas como redes de comunicação, rodovias, vias férreas, pontes, túneis, dutos, além da intrincada rede de vias aéreas e marítimas que corta o planeta em todas as direções, impactando a produtividade da economia global e melhorando as condições de vida da sociedade.

Apesar do progresso que trouxe para a humanidade, a globalização tem sido vista por muitos com apreensão e pessimismo. Algumas razões são a aceleração e a imprevisibilidade das mudanças que ela provoca, a perda de valores e a erosão de estruturas e costumes que sustentam a diversidade cultural e o nosso senso de comunidade, dentre outras. Essa oposição coloca o mundo numa encruzilhada, na medida em que sinais e desejos de uma contraglobalização afloram sob as mais diversas formas ao redor do mundo. Sinais de perigo que não devem ser subestimados, pois o isolacionismo e o protecionismo poderão colocar em risco processos que têm contribuído para manter a paz e ganhos significativos de prosperidade ao longo das últimas décadas.

A maioria das pessoas considera o mundo mais globalizado do que realmente é

A empresa americana DHL publicou em 2018 um amplo estudo sobre a conectividade global, cobrindo 169 países e tendo como base os fluxos de comércio, capital, informação e pessoas. O estudo detectou que a maioria das pessoas considera o mundo mais globalizado do que realmente é, e que tais percepções errôneas exacerbam medos e apreensões em relação à globalização. Demonstra também que a grande maioria dos fluxos que ocorrem no mundo é doméstica e não internacional. Por exemplo, apenas cerca de 20% da produção econômica mundial é exportada, os fluxos de investimentos estrangeiros diretos equivalem a apenas 7% da formação bruta de capital fixo global, aproximadamente 7% dos minutos de chamadas por telefone e internet são internacionais e somente 3% das pessoas vivem fora dos países onde nasceram.

O Instituto Global McKinsey (MGI), nos Estados Unidos, acaba de publicar o estudo A globalização em transição: o futuro do comércio e das cadeias de valor, que analisou 23 cadeias de valor abrangendo 43 países, para entender como o comércio, a produção e a participação relativa dos países nos mercados mudaram de 1995 a 2017. As conclusões, muito interessantes e dignas de atenção, mostram que o aumento do consumo em países em desenvolvimento, como a China, leva a uma mudança gradual do crescimento liderado pelas exportações para o crescimento liderado pelo consumo. Nos setores estudados pela McKinsey, a China exportou 17% do que produziu em 2007, mas apenas 9% em 2017. O aumento do consumo interno significa menos exportações, fortalecimento das cadeias de fornecimento domésticas e, consequentemente, menos importações. Além disso, as cadeias de valor regionais, com fornecedores geograficamente mais próximos, tornam-se proeminentes à medida que as economias emergentes amadurecem e se tornam capazes de prover produtos intermediários antes fornecidos por economias avançadas.

José Pio Martins: A distinção entre globalização e globalismo (publicado em 1.º de fevereiro de 2018)

Leia também: Trump, Brexit e o protecionismo: caminhamos para trás? (artigo de Rachel Borges de Sá, publicado em 29 de novembro de 2016)

Outra conclusão importante é que, conforme a intensidade do comércio global de produtos declina, os fluxos de dados, serviços, bens e ativos intangíveis — software, branding, design, etc. — desempenham papel cada vez mais importante em unir a economia global. Todas as cadeias de valor globais estão se tornando mais intensivas em conhecimento, o que alimenta o comércio de serviços e de ativos intangíveis, além de criar mais valor para empresas e países que investem na geração de conhecimento e inovações.

E novas ondas tecnológicas poderão reduzir o comércio global de bens e alimentos e aumentar ainda mais os fluxos de serviços. Plataformas digitais e melhorias nas tecnologias de logística, via internet das coisas (IoT), inteligência artificial (IA) e blockchain, poderão reduzir significativamente custos de fabricação de bens, enquanto seu desenvolvimento cria novas oportunidades para exportações de serviços. Da mesma forma, o surgimento de inovações baseadas em manufatura aditiva (impressão 3D) irá permitir que mais itens sejam fabricados localmente. A profundidade das mudanças pode ser ilustrada, por exemplo, pelo impacto da substituição de automóveis convencionais por elétricos, que leva à drástica redução da demanda por peças e componentes e à crescente demanda por softwares, componentes eletrônicos e serviços sofisticados.

É fácil concluir que o fim da globalização é altamente improvável. São enormes as oportunidades ainda não aproveitadas para nos beneficiarmos da conectividade global. Mas é também evidente que os países necessitarão de inteligência estratégica e planejamento sofisticado para definição de configurações setoriais, políticas públicas, capacitação e estímulos que os habilitem a lidar com a complexidade da nova globalização. Pior para os que se renderem a dicotomias e debates estéreis entre visões puramente locais versus visões globais do futuro.

Maurício Antônio Lopes é pesquisador da Embrapa.

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