A contundência de Alckmin no debate do último domingo não alterou sua posição nas sondagens eleitorais. Felizmente. Se os resultados fossem visíveis, o atual vale-tudo seria transformado em fórmula mágica para garantir votos e a tensão seria elevada a níveis insuportáveis.
Mesmo reprovada (ou não aprovada), a agressividade não arrefeceu. Ao contrário: o presidente Lula anuncia que baixou nele o espírito do Mahatma Gandhi e no momento seguinte retoma a virulência contra os adversários comparando-os com estelionatários.
Faltando duas semanas para o tira-teima das urnas com, pelo menos, três confrontos televisívos já programados é possível prever uma exacerbação exponencial. Não apenas por parte dos candidatos, mas principalmente da parte de assessores e escudeiros, sempre mais realistas do que o rei caso das ofensas à mulher e filha de Alckmin veiculadas no site do PT (retiradas com um pedido de desculpas por iniciativa do coordenador, Marco Aurélio Garcia).
As seqüelas desta violência são mais preocupantes do que a ausência de um debate programático. Qualquer que seja o vencedor, ele terá dois meses para preparar um plano de ação ou de contingência. No caso da vitória de Alckmin ele terá, além disso, a tarefa de conduzir uma transição minimamente civilizada.
Se Lula for o preferido, será possível reverter esta animosidade? E um país em processo de desenvolvimento pode estar sujeito à tamanha sucessão de trancos e traumas? Mesmo montado nos seus inesgotáveis petrodólares, o bolivariano Hugo Chávez não conseguiu aquele mínimo de estabilidade depois dos sucessivos embates eleitorais dos quais participou. E a sua fúria, em alguns momentos, andou calibrada no mesmo diapasão do candidato Lula.
A quem recorrer se o supremo magistrado da nação é parte desta guerra e talvez até a mais aguerrida? Ao Judiciário só cabe manifestar-se a partir do encaminhamento de uma querela formal. Os presidentes do Senado e da Câmara não têm estatura nem mesmo independência para produzir um apelo pacificador. Os ex-presidentes da República poderiam atuar como antídoto na condição de estadistas seniores. Para isso seria indispensável um certo alheamento da contenda. Ao contrário, estão igualmente engalfinhados.
O Estado de Direito, além do arsenal de estatutos, exige um estado de espírito capaz de manter o mínimo de tolerância e as vias de diálogo entre partidos ou instituições. Uma maioria, mesmo uma esmagadora maioria, não se sustenta por muito tempo sem a existência de um sistema de comunicação minimamente desobstruído. A não ser que uma das partes resolva apelar para a "política das ruas".
Pode-se atribuir à internet parte deste bombardeio de insultos que acaba por contaminar os outros meios de comunicação. Mas a internet alimenta-se nos sites dos partidos e estes obedecem às estratégias ditadas pelos respectivos comandos. Apesar da aparência de insanidade, nada escapa ao controle central.
Quaisquer que sejam as mecânicas que neste momento acionam a escalada de agressões é imperioso desativá-las. Uma nação desagregada encaminha-se mais facilmente para a ruptura. E governar destroços é um pouco mais complicado. Às vezes, é impossível.







