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É prematura a feitura de prognósticos acerca dos desdobramentos da turbulência acusada entre os dias 13 e 16 de agosto de 2007 pelos mercados financeiros, liberalizados e desregulamentados nos últimos trinta anos, capitaneada pela diminuição do apetite ao risco pelos investidores e por ajustes de preços de ativos, sinalizados desde o começo do segundo semestre de 2006 com o pronunciado declínio dos preços dos imóveis nos Estados Unidos (EUA).

Isso porque a história da evolução do capitalismo tem revelado que os sistemas econômicos convivem com a instabilidade, expressa na alternância entre círculos virtuosos de auge e ciclos viciosos de crises, esses últimos não equacionados pela via do mercado e dependentes da aplicação de mecanismos de correção e/ou regulação por parte do Estado.

A origem do fenômeno repousa na entrada das economias em uma etapa de forte crescimento, baseada no acréscimo dos montantes de investimento (público e privado), dos gastos governamentais, do consumo interno, das exportações, da produção e das importações, que, algumas vezes, parece interminável. Repentinamente, o surgimento de componentes adversos incita a reversão do circuito e a deflagração de uma marcha descendente dos negócios.

As flutuações podem acontecer de maneira localizada, atingindo ramos produtivos específicos ou regiões isoladas, caso da recessão japonesa pós 1990, ou assumir características planetárias, como a Primeira e a Segunda Grande Depressão, verificadas entre 1873 e 1896 e 1929 e 1933, respectivamente. Ao mesmo tempo, a teoria econômica enfatiza que, mesmo nos estágios de avanços ou de recuos, podem ser observados cursos de euforia ou de pessimismo.

Um exame cronológico dos registros de baixa na trajetória das economias capitalistas permite identificar uma espécie de marco zero, configurado na Grande Depressão inglesa do final do século 19, iniciada com a quebra do segmento ferroviário, representou uma transição substancial capitalista, com a perda de hegemonia britânica, e a superação da crise saída por meio do fortalecimento do livre comércio, e o aparecimento da Alemanha e dos EUA como nações industriais.

Outra situação adversa relevante poderia ser identificada na drástica redução dos preços das ações da United Cooper em 1907, depois de uma onda de fusões e aquisições e impulsão do endividamento privado nos EUA. Em face da inexistência de uma autoridade monetária oficial, a recuperação da liquidez do aparelho de negócios dependeu da operação de socorro organizada pelo banqueiro John Pierpont Morgan (J. P. Morgan) nas áreas financeira, de capitais, de títulos e na órbita produtiva, especialmente na indústria de aço. Já o colapso financeiro na Bolsa de Nova Iorque, no ano de 1929, foi precipitado pela falência de uma instituição financeira londrina.

Igualmente importante foi o colapso dos junk bonds (papéis de elevado risco) em 1987; a crise das instituições de poupança e empréstimo em 1990; e a turbulência asiática, surgida em julho de 1997 com problemas com a moeda tailandesa (bath), o que contaminou os demais tigres e alcançou a Rússia em agosto de 1998.

Houve ainda a deterioração do fundo Long Term Capital Management (LCTM), conduzido pelos prêmios Nobel de Economia, Robert Merton e Myron Scholes; o estouro da bolha da internet (corporações da nova economia) nos EUA em março de 2000; e as investidas terroristas no World Trade Center em 11 de setembro de 2001. No que diz respeito ao LCTM, houve a necessidade de uma operação de socorro, organizada pelo Federal Reserve (FED) e por um pool de 14 bancos que absorveram o fundo.

Por isso, a função do analista econômico pode ser sintetizada na perseguição da adequação entre os fluxos conjunturais e as tendências de médio e longo prazo, visando, de um lado, descrever, interpretar e, especialmente, projetar o percurso do sistema e, de outro, sugerir opções de intervenção dirigidas à negação dos perfis desfavoráveis e à multiplicação dos pontos fortes.

Gilmar Mendes Lourenço é economista, coordenador do Curso de Ciências Econômicas da UNIFAE – Centro Universitário Franciscano do Paraná - FAE Business School.

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