i

O Sua Leitura indica o quanto você está informado sobre um determinado assunto de acordo com a profundidade e contextualização dos conteúdos que você lê. Nosso time de editores credita 20, 40, 60, 80 ou 100 pontos a cada conteúdo – aqueles que mais ajudam na compreensão do momento do país recebem mais pontos. Ao longo do tempo, essa pontuação vai sendo reduzida, já que conteúdos mais novos tendem a ser também mais relevantes na compreensão do noticiário. Assim, a sua pontuação nesse sistema é dinâmica: aumenta quando você lê e diminui quando você deixa de se informar. Neste momento a pontuação está sendo feita somente em conteúdos relacionados ao governo federal.

Fechar
A matéria que você está lendo agora+0
Informação faz parte do exercício da cidadania. Aqui você vê quanto está bem informado sobre o que acontece no governo federal.
Que tal saber mais sobre esse assunto?
Artigo

Um Anti Panteão

  • PorCristovam Buarque
  • 17/07/2020 16:55
Panteão de Paris.
Panteão de Paris.| Foto: Moonik/Wikimedia Commons

Ao ler recente coluna de José Paulo Cavalcanti Filho, na revista Será?, lembrei que toda nação requer um Panteão onde lembrar personagens e heróis. Estátuas são parte desses panteões. Mas, de vez em quando, descobre-se pecados dos heróis e surgem movimentos para retirar seus nomes e estátuas do Panteão. Ultimamente, surgiram movimentos contra personagens que deram contribuições positivas ao mundo, mas patrocinaram escravidão e racismo.

José Paulo alerta para os riscos desses gestos bem intencionados: ao se derrubar estátuas de escravocratas, derruba-se parte da história da escravidão. Melhor do que pôr ao chão estátuas seria escrever os crimes no pedestal - escravocrata, torturador, explorador, colonialista. Com isso, não se prestaria a homenagem do esquecimento a um escravocrata.

Se criarmos estátuas apenas de personagens perfeitos, raros papas estariam ainda firmes em pedestais, raros filósofos resistiriam ao escrutínio de hoje, provavelmente nenhum general ou político. Porque o valor das lembranças é medido pelo que pensam as gerações no presente. Além disso, essas estátuas não são apenas história e homenagem, são também obras de arte, e com valor e transcendência estética que merecem respeito.

No Brasil, até o século XIX, quase todos que não eram escravos tinham escravos e prédios de faculdades eram construídos por escravos. Até hoje, são erguidos por operários com mínimos salários, e raros de seus filhos estudarão nelas. Algum brasileiro de hoje mereceria uma estátua, no futuro, quando forem lembrados os privilégios usufruídos por ele, diante das relações sociais perversas ao redor, graças à concentração de renda?

O casamento da lembrança histórica com os valores morais do presente fizeram Ruy Barbosa cometer crime contra a história, ao queimar documentos da escravidão, apagando nomes de escravos e seus donos, com o propósito de expor a “virtude a favor do futuro”, impedindo que descendentes dos donos, pedissem indenização ao Estado brasileiro.

Verdade, história e estética devem ser a base para justificar a permanência da homenagem e seu papel pedagógico e formar a memória completa dos povos com os erros e acertos de seus heróis. No lugar de derrubar estátuas, melhor criar uma ala para manter os nomes e as caras dos escravocratas, dos racistas, dos colonialistas. Nessa ala, os visitantes poderiam vaiar e cuspir nos malditos.

Teríamos dois panteões, uma ala para os bons e outra para os maus. Uma espécie de Divina Comédia da História, onde  teríamos duas alas: a dos heróis e a dos malditos e dependeríamos do humor da dona história que, de tempos em tempos, mandaria mudar o endereço da estátua - embora tenhamos o direito de desejar que racistas e escravocratas enferrujem no Anti Panteão.

Cristovam Buarque é professor emérito da Universidade de Brasília.

Deixe sua opinião
Use este espaço apenas para a comunicação de erros
Máximo de 700 caracteres [0]

Receba Nossas Notícias

Receba nossas newsletters

Ao se cadastrar em nossas newsletters, você concorda com os nossos Termos de Uso.

Receba nossas notícias no celular

WhatsApp: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.

Comentários [ 0 ]

O conteúdo do comentário é de responsabilidade do autor da mensagem. Consulte a nossa página de Dúvidas Frequentes e Política de Privacidade.