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Na agenda externa, dois pontos do governo Obama merecem destaque: o fechamento de Guantánamo e o estabelecimento de novas relações com a Europa

O primeiro mês de governo do presidente Obama deu alguns sinais de quais serão as prioridades imediatas, e, acima de tudo, serviu para identificar algumas dificuldades internas e externas. No topo de todas as prioridades, arrumar a casa. A principal medida prática para isso foi a aprovação de um pacote de estímulo à economia de US$ 787 bilhões. Contudo, o grande esforço político que a administração Obama teve que fazer para ver aprovado o pacote no Congresso expôs três pontos críticos: 1) Obama viu precocemente finalizada sua convicção de que era possível governar os Estados Unidos por meio de um consenso bipartidário entre republicanos e democratas. Fim das ilusões. Não houve nem um único voto republicano a favor na Câmara e apenas três no Senado. A dura resistência dos republicanos ao pacote econômico de Obama obrigará o presidente a fazer um trabalho árduo para manter coesa a base governista democrata em futuras votações; 2) o empenho mostrou também que Obama precisa fazer em definitivo sua mudança política de Chicago para Washington, o desgastante período de negociação do pacote deve-se muito, entre outras razões, a fato de que ele e sua equipe ainda não estão acostumados com as formas de negociação do mainstream político de Washington; e, 3) mostrou que o governo Obama está tão preocupado com a atual crise econômica interna que acena com mais medidas protecionistas de seu mercado, as do tipo "compre americano", que afetariam especialmente economias emergentes, como o Brasil.

A agenda interna também teve pontos positivos: deu-se início a uma reforma trabalhista que procura gerar mais garantias para os sindicatos e seus associados frente às praticas de empregadores que desestimulam as possibilidades de sindicalização e, talvez o mais importante: a reforma mostrou que o governo Obama quer colocar num segundo plano as ideias religiosas de grupos neoconservadores que tanto serviram como referência de políticas públicas na administração W. Bush. O principal passo nessa direção foi a aprovação de uma política pública que permite o mais amplo financiamento das pesquisas de células-tronco, algo que foi tão contaminado pela influência de grupos religiosos conservadores na anterior administração. Em outras palavras, com Obama parece estar de volta a secularização da administração pública americana.

A agenda externa teve aspectos positivos e também algumas previsíveis decepções. Dois pontos merecem destaque. Primeiro o fechamento da Base Guantánamo. Suportando a pressão de grupos domésticos conservadores americanos, e até de familiares de vitimas do 11 de setembro, o presidente foi coerente com seu desejo de melhorar a imagem dos Estados Unidos no mundo. Foi um passo corajoso de Obama. Seu raciocínio foi o do que, embora seja certo que alguns dos prisioneiros da base tenham relação direta com os acontecimentos do 11 de setembro e outros atos terroristas, as violações aos direitos humanos lá cometidas têm feito muito mais danos para a imagem dos Estados Unidos. A situação da base é algo que contraria princípios e regras do direito civil e da democracia americana. Em outras palavras, o governo Obama gostaria de restabelecer o equilíbrio entre a segurança nacional e os ideais americanos, afetados durante a era W. Bush.

E aqui entra o segundo ponto importante da agenda externa deste primeiro mês: as relações com Europa. A importante visita do vice-presidente Joe Biden à Europa serviu para passar algumas mensagens claras de como funcionarão as relações com Europa e a Rússia. Elas terão alta relevância, tratadas com porta-vozes americanos do primeiro escalão, e tendo como primeiro passo a retomada do sistema de consultas com europeus em assuntos críticos. Porém, há recados também embutidos na visita de Biden: para a Europa a mensagem é que, em tempos de crise global, os EUA não têm mais condições de arcar sozinhos com o ônus de administrar o mundo e que os países europeus terão de compartilhar esses custos. O passo imediato nessa co-responsabilidade é que os europeus deverão alojar uma boa parte dos prisioneiros de Guantánamo nos seus territórios nacionais. Para a Rússia, a mensagem americana é a de que Moscou será consultado sobre o desenvolvimento de programas nucleares, mas Washington não sacrificará metas de segurança em face das pressões dos governantes russos.

As decepções previsíveis deste início de governo Obama correram por conta do Afeganistão e das relações Israel-Palestina. Os primeiros movimentos de Obama para a região centro-asiática indicam que, não só o governo americano está disposto a aumentar as tropas no Afeganistão, como também eventualmente poderá fazer intervenções nas fronteiras com Paquistão. Em relação ao Oriente Médio, os bombardeios de Israel à Faixa de Gaza mostraram que nas relações entre israelenses e palestinos mudaram os atores, mas o enredo e a linguagem continuam os mesmos. Ou seja: apoio irrestrito a Israel e pouco envolvimento construtivo no conflito. Enfim, o primeiro mês foi de soma zero para o governo Obama, com ganhos positivos neutralizados por algumas decepções nos planos doméstico e internacional.

Rafael Duarte Villa é professor associado do Departamento de Ciência Política e do Instituto de Relações Internacionais da USP.

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