Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
artigo

Uma boa política para um péssimo momento

Acabamos de encerrar o primeiro semestre de 2015, e este já vem se consagrando como um dos mais turbulentos e críticos desde a redemocratização e a implementação do Plano Real, tanto na esfera econômica como na esfera política. Passamos por anos de bonança, sob um modelo econômico pautado no consumo e na exportação de bens primários; porém, com o passar dos anos o modelo adotado demonstrou sua fragilidade. Dada a ausência de reformas estruturais, nos dias atuais estamos passando por um profundo ajuste fiscal e de frente à recessão econômica, já verificada nos resultados adversos nos principais indicadores macroeconômicos.

Nesse aspecto, um dos grandes bastiões do governo atual – sobretudo no período eleitoral – sempre foi a tão famosa baixa taxa de desemprego, ou a situação virtual de “pleno emprego” na qual a economia brasileira se encontrava: com mercado de trabalho aquecido, crescimento real da massa salarial e aumento no volume de contratação e formalização dos trabalhadores. Foi um movimento importante da economia brasileira, mesmo sabendo-se que a situação de pleno emprego nunca foi realmente alcançada, pois o Brasil ainda apresenta um mercado informal enorme, trabalhadores com subocupação e rendimentos médios muito baixos, que em momentos de crise são os primeiros a serem impactados com os efeitos dos ajustes e cortes.

Afinal, quais setores poderão participar? Quais serão os critérios de escolha?

Dias atrás foi publicada a mais abrangente pesquisa de cunho nacional do IBGE sobre a taxa de desemprego, a Pnad Contínua Mensal. Apresentou, para o trimestre encerrado em maio, a maior taxa da série histórica (8,1%), concentrando as demissões nos setores de construção civil e agricultura, e com clara tendência de aumento (já foram encerradas mais de 240 mil vagas somente nesse ano). No mesmo período de 2014, a taxa medida pelo IBGE era de 7%.

Com o objetivo de mitigar os efeitos do desaquecimento da economia sobre os empregos e após a negociação com as centrais sindicais e as indústrias, o governo enviou uma medida provisória ao Congresso para tentar conter o movimento recente: o chamado Programa de Proteção do Emprego (PPE). Resumidamente, a proposta permite às empresas reduzirem em até 30% a jornada de trabalho de seus colaboradores, sendo os salários reduzidos proporcionalmente, com o governo complementando 50% desta perda salarial durante o período de até 12 meses, com o valor máximo de R$ 900,84.

Os recursos para financiar este programa serão oriundos do Fundo do Amparo ao Trabalhador (FAT). Por trás dessa medida, o governo também busca reduzir a necessidade de pagar ainda mais seguro-desemprego e evitar queda na arrecadação de contribuições sociais e tributos. De qualquer forma, a foto que temos do FAT não é das melhores: segundo o último relatório do Ministério do Trabalho e Emprego, o bimestre março/abril de 2015 não traz boas notícias. O FAT obteve resultado nominal negativo de R$ 1,47 bilhão, contra o resultado superavitário de R$ 244,1 milhões do mesmo bimestre do exercício de 2014, devido à elevação das despesas com seguro-desemprego (+18%) e redução nas receitas de tributos, como o PIS/Pasep (-47,87%).

Outro ponto que preocupa é a aplicabilidade dessa proposta. Afinal, quais setores poderão participar? Quais serão os critérios de escolha? Quanto tempo o comitê (que ainda será formado) levará para analisar a entrada ou não de um setor que alega estar em crise?

Assim, o PPE é uma boa política pública, que surge em um momento delicado para a economia nacional e, acima de tudo, visa proteger o emprego. Resta agora saber como será a operacionalização, isto é, a transformação da medida provisória em uma possibilidade real de alívio financeiro momentâneo para as empresas brasileiras nesse momento de incertezas.

Você pode se interessar

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.