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O tempo e o envelhecimento são íntimos e indissociáveis. Todos se agarram no primeiro e “morrem” de medo do segundo, embora saibam eles todos que a alternativa a envelhecer seja a quebra da lei número 1 da vida: morrer.

Tal qual um piscar de olhos para alguns, o tempo cobra sua passagem, e velhos ficamos. Quem está ao lado não entende, não compreende e, claro, não empatiza. Como saber o que o outro pensa jamais tendo passado por isso? Triste sina do velho: ser único.

Crianças com doenças graves ou presas numa situação de risco com uma caverna inacessível são muito mais geradoras de empatia do que um senhor ou uma senhora precisando de qualquer ajuda; afinal, estão velhos, é o fim do caminho.

Tal qual um piscar de olhos para alguns, o tempo cobra sua passagem, e velhos ficamos

Incômodo demais aos olhos de quem trabalha com isso e todos os dias batalha para quebrar paradigmas. Muito pior para quem vive a parte final da linha da vida.

Tudo isso para chegar no que tenho repetido para os filhos de nonagenários e centenários que, embora tenham na idade o fator de risco, não imaginavam que um dia a capacidade funcional de seus pais se esvaísse como areia por entre os dedos.

Nessa fase a medicina tem dificuldades em oferecer suporte. Sabemos curar, mas nem todos sabem confortar. E me vejo sempre dizendo frente aos olhos fundos que me encaram com a pergunta: e agora, o que faço?

Nossas convicções: O alcance da noção de dignidade da pessoa humana

Leia também: Como facilitar o acesso universal à saúde (artigo de Octavio Fernandes, publicado em 6 de janeiro de 2018)

A resposta tão curta traz a ação mais bela e mais complexa: cuida. Agora, você cuida. Até onde der, respeitando a autonomia enquanto ela houver e, depois, dando o cuidado necessário até que o fim, enfim, chegue.

Se todos aprendermos e ensinarmos sobre o que acontece entre o viver e o morrer, mais fácil ficará o viver de quem fica após o morrer daqueles que amamos.

Carlos Augusto Sperandio Junior, é médico especialista em geriatria, clínica médica e medicina da família. Integra a Câmara Técnica de Cuidados Paliativos do CRM-PR.
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