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Bruno Garschagen

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História e tradição do Conservadorismo brasileiro (2)

Não faz o menor sentido a acusação segundo a qual os conservadores querem “conservar tudo, de bom ou de mau, só por ser antigo

 
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A política formal e a confusão ideológica dispersa nos partidos políticos existentes hoje no Brasil tornam difícil acreditar que durante um período da nossa história os partidos Conservador e Liberal eram as duas grandes forças que se alternavam no poder e que fundamentavam suas ações em ideias vigorosas.

No caso dos Conservadores, assunto iniciado no artigo da semana passada, um aspecto fundamental eram os vínculos profundos que tinham “com as bases rurais da vida nacional”, segundo o historiador João Camilo de Oliveira Torres em Os Construtores do Império – Ideais e lutas do Partido Conservador Brasileiro. Mesmo não sendo ligados aos grandes proprietários rurais como os liberais, os Conservadores eram “homens que viviam a realidade concreta do país em que estavam, não do país em que gostariam de estar”.

É comum o equívoco de acusar o conservador de idealizar o passado, pois uma de suas grandes virtudes é o seu vínculo com o presente e a percepção das suas contingências, modificações, oportunidades e desafios.

Essa postura tinha como resultado aquilo que o cientista político Christian Lynch, brilhante estudioso da política brasileira do século 19, chamou de uma “espécie de epistemologia” dos Saquaremas: “antes de procurar alterar a realidade e promover reformas institucionais”, era “preciso conhecer a realidade nacional, olhar para o país e fazer as adaptações do que se deseja importar” (“Saquaremas & Luzias - A sociologia do desgosto com o Brasil”, Revista Insight/Inteligência, 2011).

Essa ligação dos Saquaremas com a cultura do país permitiam-lhes desenvolver uma práxis realista e objetiva, e, no âmbito do Partido Conservador, desenvolver e defender “uma política mais consistente, mais autêntica”. Por isso, foram a vanguarda da época: agentes de mudanças sociais importantíssimas, como a abolição da escravatura.

Combinando ideias e práticas dos Saquaremas com a concepção de autores brasileiros e estrangeiros como Alceu Amoroso Lima, F. J. C. Hearnshaw e Russell Kirk, João Camilo propôs como definição (ainda que parcial) do Conservadorismo brasileiro “uma posição política que reconhece que a existência das comunidades está sujeita a determinadas condições e que as mudanças sociais, para serem justas e válidas, não podem quebrar a continuidade entre o passado e o futuro”.

Porque o passado é o grande conselheiro do presente, ensinando à sociedade aquilo que deve ser preservado e o que deve ser eliminado. É comum o equívoco de acusar o conservador de idealizar o passado, pois uma de suas grandes virtudes é o seu vínculo com o presente e a percepção das suas contingências, modificações, oportunidades e desafios. Esta característica fê-lo desenvolver uma extraordinária capacidade para lidar com as mudanças maléficas e adaptar-se às inovações benéficas.

Não faz o menor sentido, portanto, a acusação segundo a qual os conservadores querem “conservar tudo, de bom ou de mau, só por ser antigo”. Porque isto não é Conservadorismo, mas “conservantismo”, como explica João Camilo no precioso livro O Elogio do Conservadorismo (Editora Arcadia), que será lançado em breve.

Essa relação entre passado, presente e futuro era cara ao Conservador brasileiro do século 19, que tentava adaptar “o antigo ao novo, sem destruir o antigo, nem negar o novo”, para dessa forma resolver as “questões concretas de maneira específica”.

Os Conservadores defendiam, sim, reformas, mas rechaçavam alterações radicais assentadas na ideia de desvincular o novo do antigo, e de destruir o antigo para inaugurar o novo. Na síntese de João Camilo, o Conservadorismo destina-se “a fazer com que as transformações não façam, nunca, o vagão saltar fora dos trilhos — mantém a sociedade em seus lugares, acomoda as reformas, serve de freio, de lastro”. (Continua na próxima semana)

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